Coração Liberal — Capítulo 1*

São Paulo, Vila Nova Conceição, primavera, segunda à tarde, Philip Glass impregna o interior do apartamento, mas poderia ser Laurie Anderson, que ela pernas cruzadas índia apache no sofá encarnado anda recurtindo enquanto desliza os dedos por sobre um tablet, são páginas de uma revista. Ele surge na porta da cozinha empurrando com o ombro, […]

Georgia O’Keeffe e os preceitos do velho padre Lanza de Ivaiporã

São Paulo, Vila Nova Conceição, primavera, segunda à tarde, Philip Glass impregna o interior do apartamento, mas poderia ser Laurie Anderson, que ela pernas cruzadas índia apache no sofá encarnado anda recurtindo enquanto desliza os dedos por sobre um tablet, são páginas de uma revista. Ele surge na porta da cozinha empurrando com o ombro, duas sacolas de pano nas mãos, arfa, sobe amiúde pelo elevador de serviço, gosta assim, e, ato contínuo, sempre bate os olhos no velho pôster de museu Georgia O’Keeffe que eles têm antes de depositar as compras na pia de granito verde ubatuba e colocar, um por um, víveres na geladeira, a geladeira de dois milhão de dólares.

(…) Silêncio

– Que rápido!

– São Paulo no feriado é uma maravilha. Adoro férias em São Paulo.

– …

– Trouxe o Naturetti?

– Trouxe. Sabe quem eu encontrei no Pão de Açúcar?

– Quem?

– O Loyola. (N.do E.: Trata-se de Ignácio de Loyola Brandão, o escritor par excellence de São Paulo, nascido em Araraquara-SP, autor do clássico Zero).

– Ele está velhinho, né?

– Tá, mas sabia que ele malha?

– Certo ele.

– …

– Parei de ler o Pondé.

– Hum…?

– Será que ele acha que choca as pessoas com esses continhos grotescos, um negócio tão… antigo, né?

– Mas o Pondé não é aquele careca que dá aula na FAAP?

(Playlist pula para a uma faixa de Jane’s Addiction)

– Não sei. Só sei que é um misógino.

– Teus amigos vêm mesmo hoje à noite? A mulher dele não come carne, é isso?

– Amor…

– Quê?

– Ele ligou.

– E o que ele disse?

– Ele quer hoje… fui até fazer escova…

– …

Ele então deposita um maço de alface orgânico na gaveta da geladeira de dois milhão de dólares e eventualmente pensa no longíquo Paraná da infância, no padre Lanza de Ivaiporã e em alguns preceitos que permanecem encalacrados na cabeça — by the way, é tudo muito mais claro quando desperta todos os dias, antes de ir feliz da vida ao estúdio endereço novo Vila Madalena. Apesar de ser hoje um cidadão do mundo sem preconceitos.

– Você acha que o Netflix compensa? A gente já tem esse mundo de filmes e acaba não vendo nada…

– A Nina só não come carne VERMELHA, mas se você fizer aquele risotinho vai funcionar perfeitamente. Eles nem são de beber muito também…

– Trouxe uns aperitivos… Ele ainda está desempregado?

– Desempregado…? Bom, ele é rico, né?

– É rico mas o dinheiro acaba.

– …

– Posso então marcar com o internet man? O safado diz que filma e depois manda pra você. “Vou zuar a puta e o corno”, ele falou. Ele quer que eu ligue pra você quando estiver gozando.

– …

——————–

* este é o primeiro capítulo da novela Coração Liberal, aberta à sua participação, caro leitor. Ajude a escrever o próximo capítulo no espaço reservado aos comentários do blog, que é generoso. O segundo capítulo não tem data para ser postado, vai depender.

Leia também:

Capítulo 2

Capítulo 3

Meninas da American Apparel não; o Beckham de cueca ok?

O mito Patrícia Serralha ou a garota dos sonhos da infância

As criancinhas sem pirulito da retratista Jill Greenberg

Um lindo poema de Wis?awa Szymborska (1923 – 2012)

Documentário de Simon Schama ensina a ver Rothko

Você é sanguíneo, fleumático, colérico ou melancólico?

Safran Foer, vegetarianismo e carne humana insepulta