Enrolando o fio do bigode

Os integrantes do Comando Mustache acreditam que não há nada mais macho do que cultivar pelos sob o nariz. Conheça o grupo de 50 guerreiros que enfrentam (sem cara limpa) tudo e todos em defesa dessa estética

Bigode é um dilema masculino. Nem o grande poeta Manuel Bandeira (1886-1968) escapou de sua crise existencial. Para cobrir um talho da navalha acima do lábio, já na velhice, deixou crescer o contorno. Era o jeito para evitar a afeminada maquiagem ou o ingênuo curativo. Assombrado com a mudança de personalidade, o escritor realizou um inédito plebiscito com os amigos.

– Com ou sem bigode?

Todos já enfrentaram essa encruzilhada diante do espelho, essa estranha votação familiar. Alguns por necessidade, a maioria por curiosidade.

Representa uma das decisões cruciais dos varões. Coisa séria. Um bigode sobrepõe ao nosso rosto uma galeria infindável do museu de cera, do cômico Cantinflas ao guerrilheiro Zapata.

A palavra de um bigodudo tem peso, sugere honra e pacto de sangue. Um penacho debaixo do nariz parece que muda o temperamento. Age como um Biotônico Fontoura. Um energético. Um Viagra natural.

“Eu me sinto mais primitivo, mais confiante, ninguém me segura”, diz Diego Rocha, arquiteto, de 33 anos.

“Eu transo melhor com bigode”, confessa Eduardo Coser, publicitário, 27.

Diego Rocha, natural de Pelotas (RS), é o General Rocha; Eduardo Coser, nascido em Cruz Alta (RS), é o Coronel Coser; codinomes do Comando Mustache, organização farroupilha com ramificação  bandeirante, um grupo de 50 integrantes que defende o uso estético da sobrancelha da boca.

São os adoradores de Charles Bronson e Tom Selleck, ninjas do Nintendo, jogadores inveterados de Super Mario Bros. Reúnem-se mensalmente para tramar golpes de estado na ditadura da aparência e recuperar o status dos áureos tempos de Zorro, de Chaplin, de Clark Gable, dos Beatles de Sgt. Peppers, em que andar de bigode era um sinal de maturidade, uma prova de que o menino havia virado macho.

“No Exército, os únicos que podem usar bigode são as altas patentes, revelava poder e força”, conta Rocha.

A briga é boa e difícil. O bigode hoje saiu de moda. Desponta somente nas caras das crianças nas festas juninas. Não gera mais apelido no bairro. É quase visto com a mesma antipatia de um fumante. Não há jogador de bigode. Não se acha um Zenon cobrando faltas em campo.

Mas o Comando Mustache confia na revolução dos costumes, na derrubada da faxina visual. Em Porto Alegre, arma uma segunda campanha da Legalidade, inspirada no também gaúcho e bigodudo Brizola dos anos 1960, para tirar do poder a barba, o cavanhaque e a cara limpa.

“Sou contra o cavanhaque, é sem graça, passageiro, são uns frouxos. Lembra de alguma grande personalidade histórica de cavanhaque?”, provoca Coser.

Realmente não lembramos. Mas recordamos de tiranos bigodudos como Hitler, Pinochet, Stalin.

“Mas também existe Mahatma Gandhi”, rebate Rocha.

A estrutura da turma é militar, formada pelo alto comando, os oito fundadores, mais um pelotão de simpatizantes. A sede é numa churrascaria, a Costela no Rolete. Não poderia ser em outro lugar, senão no bastião dos tradicionalistas e do palito dos dentes.

O grupo tem aquela coesão de confraria de charuto, aqueles segredos próprios de enólogos, aquela malícia de equipe de boliche. Como nenhuma jovem com buço reivindicou o seu ingresso, permanece um Clube do Bolinha. Desaparecem de repente do controle das namoradas para assumir estratégias de cultivo dos pelos.

Diferente do American Mustache Institute, que mantém o adereço facial o ano inteiro, e do The Moustache March, que faz a intervenção no mês de março, a tropa gaudéria escolheu apenas uma data para exercer o bigode. É o 6 de junho, para homenagear o “Dia D”, a invasão da Normandia pelas tropas aliadas que pôs fim à Segunda Guerra Mundial.

O negócio deles é surgir de surpresa, fazer uma mobilização relâmpago, para ninguém entender o que está acontecendo.

Seus integrantes não ostentam bigode no dia a dia. Permitem a longa barba para desbastar na última hora e tomar de assalto os empregos e bares. Mesmo nos encontros mensais na Costela no Rolete, é raro ver um bigode: eles tocam a rotina disfarçados. Guardam-se durante meses para um ataque letal de 24 horas.

“Um dia só, como religião, para valorizar o bigode, para que ele não seja paisagem”, comenta Rocha.

De repente, aparecem clones de Salvador Dalí nos mais diferentes lugares, criando a sensação de que é uma nova tendência.

O bigodudo ofusca oponentes masculinos. Tão escandaloso quanto quem usa desodorante Avanço. Mata a concorrência por nocaute. É o que pensa o conselho Mustache.

Entre um deles, um barbudo e um rosto liso, a mulher sempre dá preferência para conversar com o bigodudo.

Um teste complementar é entrar com bigode num restaurante. Não precisa levantar o braço, basta mexer as rugas da testa. O garçom o atenderá rápido rapidíssimo, com medo de sua reação.

“Quem põe bigode tem coragem, suporta as gozações do trabalho e presta um serviço à contracultura”, avalia Rocha.

Qualquer barbado pode se armar de gilete e se alistar na guerra. Desde que cumpra algumas regras básicas: aparecer com um bigode de verdade, passar o expediente inteiro assim, mandar fotografias  comprovando a rotina e engraxá-lo numa churrascaria (o batismo de fogo do novato é aturar a gordura dos pelos).

Não vale barbicha de bode de Frank Zappa ou aspas no queixo de Gengis Khan. A única vizinhança permitida é das costeletas.

As graduações bélicas acontecem pela frequência no Dia D. O sujeito que vai uma vez é recruta, o que comparece duas seguidas é cabo e o que emplaca a terceira é sargento. Há condecorações à parte  pela forma que os participantes cuidaram do bigode. O maior recebe a comanda de ouro, título mais cobiçado do blog do Comando Mustache.

“Um bigode grande significa sabedoria. Seu proprietário é alguém que viveu muito, que não cedeu aos pedidos da namorada para tirar logo, que sobreviveu na selva social e veio contar sua história ao  mundo”, filosofa Coser.

Herói mesmo é o que leva a experiência ao extremo, cai na noite e ainda pega mulher. Entra definitivamente para o hall da fama.

“É o nosso grande mártir, merecedor de toda inveja”, afirma Rocha.

Declaradamente machista, o esquadrão não admite frescura, beijo no rosto de amigo ou pegar sabonete no chão. “Não levaria na boa cantada de colega, seria motivo de expulsão”, rebate Rocha.

No Comando Mustache, Freddie Mercury ficou trancado no armário.

COMANDO MUSTACHE: encontros e invasões comunicados pelo site comandomustache.wordpress.com
COSTELA NO ROLETE: Rua Marcílio Dias, 965, Menino Deus, Porto Alegre. De terça a sexta, das 11h30 às 15h e das 18h30 às 23h30. Sábado, domingo e feriado, das 11h30 às 15h.Tel.: (51) 3235-1896

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