Erick Jacquin fala sobre falência, brigas na cozinha e a paixão pelo Corinthians

"O chef é a válvula da panela que segura a equipe. Tudo acontece em duas horas, não tem como escrever de novo", disse o jurado mais polêmico do MasterChef em um papo reto com a VIP

Por Marília Mirangaia

VIDA DE COZINHEIRO

Não me imagino chegando em casa às 20 horas, em frente a um computador. Não imagino a vida sem brigar, sem beber. Se existisse MasterChef profissional, ia me candidatar. Não tenho medo de perder, nem de ser humilhado. Gosto de desafio, sem isso eu não consigo viver. Na TV, ninguém me diz o que falar. Quem vive comigo sabe. Sou revoltado, falo o que penso.

CENA GASTRONÔMICA

A gastronomia mudou com o poder aquisitivo. A vida virou um inferno, tudo é caro para todo mundo. As pessoas querem comer bem, de um jeito mais acessível e descontraído. A forma colonial de serviço já acabou, não existe mais “oui, docteur”. E o público pode ajudar nessa mudança. Basta, por exemplo, que se tenha mais paciência para esperar, como na Europa.

QUEDA E COICE

Um pouco antes de fechar o La Brasserie Erick Jacquin, em 2013, eu não tinha dinheiro para nada, nem para meu plano de saúde, nem para comprar champanhe [para servir]. Não tinha produto velho porque a gente estava com tanta dificuldade que produto era só fresco. Um dia, um dono de restaurante chegou e depois foi embora. Naquele dia não tinha foie gras. Saiu, me viu e disse: “Tive um imprevisto”. Foi a outro restaurante e falou “O Jacquin está quebrado, vai fechar” para o maître, que me ligou contando.

COZINHA DE ALTA PRESSÃO

O chef é a válvula da panela que segura a equipe. Tudo acontece em duas horas, não tem como escrever de novo. Imagina se eu tivesse que falar: “Por favor, tira a panela do fogo que está queimando”. Já queimou! “Por favor, tira do forno porque vai passar do ponto.” Já passou. Não dá tempo de falar: “Dá licença, desculpa”. Um cara que entra na cozinha pensando isso nunca vai ser cozinheiro de fato.

BRIGAS

Já joguei prato que eu preparei, já xinguei funcionário, já demiti. Se me arrependo? Hoje, sim. A pessoa não pode se sentir humilhada, eu entendo. Mas já fui muito ofendido. O que você faz com um cara que te fala, na frente da equipe: “Vai tomar no cu, vou te colocar no pau”? Ele vai te processar e processo trabalhista é esporte nacional. Como explicar que todos os processos venham do mesmo advogado, por exemplo? Todo mundo reclama, mas quando vai procurar emprego, diz: “Eu trabalhei com o Jacquin”.

CORAÇÃO CORINTIANO

Dezessete anos atrás eu estava trabalhando [no antigo Le Coq Hardy, fechado em 2009], minha mulher na época ligou e disse que a bolsa tinha estourado. O Dudu, que hoje mora na França, ia nascer. Era quase meia-noite, sai com roupa de cozinha e fui para o hospital num Santana do meu patrão. Depois, encontrei um amigo que estava lá há seis horas, preocupado porque eu não conhecia ninguém no Brasil. Me deu um uniforme do Corinthians. Foi o primeiro presente do Dudu. Nesse dia, eu virei corintiano.

TOMANDO BOMBA DA CRÍTICA

Achei uma crítica [publicada pelo jornal Folha de S.Paulo classificando como ruim o Le Bife, restaurante de que Jacquin é consultor] muito pesada para um restaurante que não estava nem um mês aberto. Mas ouvi e analisei as coisas. Foi muito cedo para ser tão duro. Mas eu encarei como uma dica. Fui à cozinha da casa, vi as coisas que estavam erradas e resolvi o problema.