Ferguson está pegando fogo

Como o assassinato de um adolescente revoltou a população e fez uma pequena cidade americana enfrentar confrontos entre manifestantes e policiais e uma bizarra tensão racial

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Ferguson é um distrito de 21 mil habitantes na periferia de St. Louis, Missouri. É aquele tipo de cidade cujos três caras mais famosos que moraram ali foram um piloto da aeronáutica, um jogador de baseball e um cantor de sucesso nos anos 80 (Michael McDonald é seu nome). Boa parte dos empregos ali vêm de uma indústria multinacional de equipamentos eletrônicos. E isso é tudo o que havia de importante sobre o lugar. Ferguson, então, poderia ser considerada uma cidade neutra e pacífica, meio que indiferente ao governo dos Estados Unidos. Isso até a semana passada — agora, até Barack Obama precisou aparecer em público para fazer um pronunciamento oficial sobre o vilarejo do Missouri.

Era o começo da tarde de sábado (9/8) quando Mike Brown foi morto. Acompanhado de um amigo, o adolescente estava indo para a casa de sua avó quando um carro da polícia os abordou e atirou contra eles. A polícia diz que Mike atacou o oficial antes que os tiros fossem disparados. Alegam que ele teria partido para uma luta corporal e tentado tirar a arma de um dos tiras, que se encontrava dentro da viatura.

As testemunhas dizem o contrário. Os oficiais teriam ordenado que Mike e Dorian fossem para a calçada. Houve uma discussão, e o policial teria atirado pela primeira vez ainda de dentro do carro. Quando os garotos começaram a correr, mais três balas foram disparadas. Fato é que Mike caiu a mais de 10 metros de distância do carro, deixando a versão oficial sem muito sentido. A calmaria que em tese pairava sobre cidade de Ferguson se transformou.

A população negra nos Estados Unidos é representada por 13% de seus habitantes. Em Ferguson, são 68% — incluindo Mike.

Quando o assunto é a administração da cidade, no entanto, os números são outros. Entre os 53 policiais, apenas três são negros. Na câmara municipal, só um dos seis membros é negro. E tanto o prefeito como o chefe de polícia são brancos.

No próprio sábado à noite, o dia do episódio, centenas de pessoas foram às ruas para um protesto pacífico. No domingo, porém, a coisa começou a sair do controle: pessoas foram flagradas saqueando e incendiando lojas, houve confronto entre manifestantes e a polícia e até a SWAT foi acionada. O fim de semana terminou com 32 pessoas detidas.

As coisas foram ficando mais quentes durante a semana: com o aumento do número de manifestantes, aumentou também a intensidade dos confrontos com a polícia. E apesar de os oficiais dizerem que ninguém saiu ferido, circulou pela internet uma variedade de fotos de pessoas machucadas. Na quarta-feira, um jornalista do Washington Post e outro do Huffington Post foram presos por demorarem demais para sair de um McDonald’s. A prisão aconteceu logo após o fim deste vídeo:

http://www.washingtonpost.com/posttv/c/embed/b0fc5720-2354-11e4-8b10-7db129976abb

A tensão racial, então, começou a seguir critérios difusos; houve moradores brancos de bairros negros que se uniram pela causa; mas houve também agressões contra brancos que não pareciam seguir uma lógica. Um homem branco passeando com um cachorro foi atacado por um grupo de adolescentes. Foi necessário que outros manifestantes e até a polícia salvassem o cara.

GOD BLESS THE USA Na quinta-feira, o presidente Barack Obama fez um pronunciamento comentando o caso. Como bom político, garantiu que o caso será investigado com cuidado para que a verdade venha à tona. Foram feitas críticas tanto à violência excessiva usada contra os moradores como o uso de vandalismo durante protestos pacíficos. Nesta sexta-feira (15/8), a polícia de Ferguson revelou o seu lado da história e os detalhes do que teria acontecido no dia 9. Identificaram o oficial responsável pelos disparos como Darren Wilson, que trabalhava na cidade há seis anos. Eles também divulgaram imagens de uma câmera que supostamente mostra Mike roubando pessoas em uma loja. Não emitiram mais nenhum detalhe sobre o tiroteio. 

Após o pronunciamento de Obama, as notícias são de que a repressão policial foi drasticamente reduzida na cidade. Isso só não é garantia de que vai tirar os moradores das ruas, já que eles ainda cobram explicações. Enquanto a verdade sobre o assassinato não for divulgada, a briga está longe de acabar.

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