Festa em que se leva a própria bebida, um vinho porcaria pega mal

Nada há nada mais irritante do que o pouco caso que algumas pessoas tratam a escolha de garrafas para serem bebidas entre amigos.

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(Pxhere/Reprodução)

Conheço gente rica para caraca que, na hora de pôr a mão no bolso para comprar um vinho a ser compartilhado com os amigos, chora e esperneia.

Enquanto isso, o durango de bom gosto tem o maior trabalho para escolher um vinho bacana, investe em algo legal para dividir com a galera e acaba sendo obrigado a tomar da garrafa duvidosa, comprada no supermercado da esquina pelo mão-de-vaca.

Isso quando o vinho não acaba e só sobra cerveja ruim na geladeira.

Tem gente que acha que é normal beber a custas dos outros. “Que sorte que levei um Möet Chandon no Réveillon de fulano, porque todo mundo tinha levado champanhe!”, comentei outro dia com uma amiga.

Essa amiga, que não costuma levar vinho algum e tem o hábito de tomar vários, discordou: “Não precisava”.

Como assim? Claro que precisava!  Tem cabimento eu beber o champanhe do anfitrião e seus convidados e colocar na roda uma garrafa suspeita?

Fazer isso por não saber dos costumes da casa é perdoável. O que acho imperdoável é a pessoa chegar a uma festa, com uma garrafa de um chileno reservado qualquer, sabendo que serão servidos vinhos excepcionais.

Beber as garrafas servidas sem o menor comedimento e ainda comentar orgulhosa que não precisou investir com vinho: “Na Europa, você toma ótimos vinhos por três euros”.

Concordo que os preços dos vinhos no Brasil são exorbitantes. Mas é caro para todo mundo e alguém paga pelos bons vinhos. Não quer gastar? Beba cerveja! Barata. Leve sua cerveja e beba só a sua cerveja! Ou água, refrigerante… Nada de levantar o olho para IPA do Oregon que o amigo do dono da casa levou.

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(Pxhere/Reprodução)

 

Há festas em que não é preciso levar nada, é claro. Mas é sempre de bom tom chegar com uma garrafa de vinho. Ou duas, dependendo de quanto você bebe.

Em solidariedade ao dono da casa, costumo levar duas garrafas, porque sempre tem o infeliz que não leva nenhuma e bebe duas, casal que bebe duas garrafas cada um e chega com uma garrafa só, o sujeito que chega com duas latinhas de cerveja e bebe uma garrafa de vinho inteira.

Em viagens em grupo, a coisa é ainda pior. É bastante comum as pessoas se rebelarem contra os hábitos perdulários de qualquer um que tenha o costume de beber bons rótulos.

Os rebeldes se sentem no direito de levar duas garrafas para uma semana de estadia. “Vou beber mais cerveja”, diz o sujeito que é o primeiro a estender a taça sempre que uma garrafa de vinho é aberta.

Sei que, para quem não é ligado no assunto, não é fácil saber o que é um bom vinho. Sei também que nem sempre a gente tem grana para acompanhar o ritmo dos amigos.

Se você se encaixa no perfil acima, não se envergonhe. Dá para ser gentil sem ter gastar uma fortuna.

Quanto ao número de garrafas, é fácil. Você e sua namorada levaram uma garrafa? Então, tomem apenas duas taças cada um, bem devagar, e intercalando com água.

Quanto à qualidade, se for uma festa grande, com muita gente, dança, nem é preciso caprichar tanto. Vá a um empório e peça uma sugestão de um bom vinho na faixa de preço que você pode pagar.

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(Pxhere/Reprodução)

Já em jantares com pessoas que curtem vinho é educado levar um vinho bacana. Na dúvida, vale a mesma regra da roupa. Não é sempre melhor estar mais bem vestido do que a maioria do que passar vergonha por estar maltrapilho?

Isso significa que você terá de tirar dinheiro da aplicação para comprar vinhos? Não. Tenho uma boa notícia: quem se interessa muito por vinho costuma valorizar uma série de coisas que nem sempre implicam preços altos.

Singularidade, por exemplo, é algo que faz brilharem os olhos de enófilos. Um vinho de um pequeno produtor, de uma região menos conhecida ou de uma uva autóctone costuma fazer bastante sucesso.

Originalidade também chama a atenção. Um produto que tenha sido vinificado de modo inovador ou cujo método é um resgate de técnicas antigas provoca curiosidade.

Como saber se o que está comprando preenche esses requisitos? Se já é difícil escolher um vinho comum, o que dizer de um singular e original? Em primeiro lugar, fuja do supermercado. Compre numa importadora ou numa loja e ouça o que o atendente tem a dizer.

Explique que quer algo diferente, mas não muito caro. Ele escolhe por você. Gaste um valor que não vá fazer falta, mas não seja pão-duro. Dedique tempo e atenção à sua escolha.

A seguir, algumas sugestões para fazer bonito num jantar sem ir à falência.


Lírica Crua

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(Reprodução/Divulgação)

Em vez de rolha, gaiola, capsula, o espumante da Vinícola Hermann traz uma tampa igual às das cervejas.

Isso não é só chinfra. Todo espumante feito pelo mesmo método de Champagne tem uma tampa dessas durante o período da segunda fermentação e o tempo em que o líquido fica em contato com as leveduras.

Depois essa tampa é arrancada, as leveduras expelidas e a rolha é colocada. O Lírica Crua não passa por esse processo final. Mantém as leveduras.

Por isso, é turvo e cheio de aromas de panificação.  Além de tudo, ele é da Serra do Sudeste, uma região vinícola do Rio Grande do Sul menos conhecida do público, e tem no corte um pouco da uva gouveio, algo também pouco comum. Custa R$ 76,40 na Enoteca Decanter.


La Part du Colibri Muscadet 2016

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(Reprodução/Divulgação)

Se você tem um jantar de frutos-do-mar ou vai passar uns dias na casa de praia de alguém que dá importância para vinhos, esta é uma ótima escolha.

Muscadet é uma apelação de origem protegida (AOP) do Vale do Loire não tão conhecida dos brasileiros. Fica na foz do rio, o que faz com que tenha um clima mais frio do que o resto do Loire e, portanto, com que as uvas tenham uma acidez bastante pronunciada.

Os vinhos são feitos com a pouco comum uva melon de bourgogne, que tem aromas delicados de maçã, pera e muita mineralidade. É extremamente seco. Um ótimo par para ostras.

Este Muscadet do Domaine Vincent Caillé, assim como metade do que sai dessa AOP, fica um tempo contato com as leveduras depois da fermentação. Por isso, ganha corpo e cremosidade.

As uvas, que vêm de videiras de mais de 40 anos, são produzidas pelo método biodinâmico (isso também faz sucesso!).

A safra pode ser essa ou qualquer outra que estiver disponível. É trazido para o Brasil pela De la Croix, uma pequena importadora em São Paulo, que só trabalha com franceses orgânicos e biodinâmicos.

São sempre vinhos de pequenos produtores, de muita qualidade e bom preço. Por lá, você encontra vários rótulos não tão caros que fazem bonito em qualquer jantar. Este custa R$79.


Frei João Tinto 2010

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(Reprodução/Divulgação)

Na sua maioria, os vinhos portugueses, mesmo baratos, são no mínimo aceitáveis ao paladar de pessoas acostumadas a bons vinhos. Este é bem mais do que isso.

Em comparação a outras regiões vinícolas de Portugal, a Bairrada é uma denominação onde ainda se pode descobrir coisas deliciosas por preços ótimos.

A principal uva da região, a Baga, produz tintos que podem durar muito (idade é outra coisa que impressiona um enófilo).

O Frei João é o vinho de entrada das Caves São João (uma das vinícolas mais tradicionais da Bairrada), simples e deve durar no mínimo 10 anos.

Atualmente, na Vinci, você encontra as safras 2010 e 2011. Eu apostaria na 2010, que é um pouquinho mais velha e deve estar num ótimo momento.

É um corte de baga, touriga nacional, syrah e tinta roriz. Custa R$ 72. A maioria dos vinhos desse preço já está em decadência com sete anos de idade. O Frei João ainda pode ser guardado.


Piero Benevelli Langhe Nebbiolo 2015

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(Reprodução/Divulgação)

Nebbiolo é a uva que produz os tintos que boa parte do povo ligado em vinho curte. Não é à toa. Ela produz os maravilhosos Barolo e Barbaresco, dois dos vinhos mais elegantes da Itália.

O problema é que tanto Barolo quanto Barbaresco custam uma fortuna. Na mesma região do Piemonte em que eles são produzidos, há uma denominação mais genérica chamada Langhe Nebbiolo, que pode ter vinhos incríveis dependendo do produtor.

Este da Azienda Agrícola Piero Benevelli já tem o caráter de um Barolo, só que mais jovem. É feito a partir de uvas colhidas dentro do limite geográfico de Barolo.

Só que, como as vinhas são muito novas, o produtor considerou que o vinho não teria estrutura suficiente para encarar tantos meses de madeira quanto a DOCG Barolo exige.

Então, deixou que eles passassem só dez meses no carvalho. Resultado: saiu um vinho com mais aromas de fruta e menos taninos. Mas, além das frutas vermelhas frescas, já aparecem os aromas de chão de bosque, um leve toque de caldo de carne, algo de ervas aromáticas.

Custa R$ 109, na Wines4u. Não é pouco dinheiro, mas é menos que a maioria dos Langhe Nebbiolo e bem menos que Barolo ou Barbaresco.