Futebol-porrada

Nem bem começou a crescer no Brasil, o futebol americano já sofreu um racha que colocou em ligas rivais o filho do ex-presidente Lula e empresários que querem ter Anderson Silva como sócio. Nosso repórter treinou com o campeão de 2012 e relata como o esporte está se impondo no país da bola redonda à base de muito sangue, suor e algum improviso

Futebol-porrada

Alexandre Frota se prepara para correr em um circuito de 30 metros. Vestindo uma camisa preta de manga longa, ele usa um capacete da mesma cor estampado pelo número 77. Ao lado dele, o adversário se concentra. Ao sinal do treinador, os dois disparam, contornam um cone, seguem da direita para a esquerda, passam por outro obstáculo e vão reto para a chegada. Frota, 49 anos, chega 1 metro à frente do outro corredor — que tem menos da metade de sua idade e, em tese, deveria ser mais veloz. Animados, os demais jogadores do Corinthians Steamrollers, atual bicampeão do Torneio Touchdown, gritam: “Isso aí, tiozão!” Eu, o oponente de Frota no exercício, fico desolado.

É início da tarde de um domingo ensolarado quando saio de casa com a missão de participar do primeiro treino no ano do Steamrollers (inglês para “rolos compressores”). Dali a três semanas, a equipe começaria a temporada 2013 de futebol americano tentando repetir o ano anterior: campeão invicto do Campeonato Paulista e do Brasileiro, o Torneio Touchdown, que começou no mês passado.

Com 1,76 metro de altura e 76 quilos, mantenho em mente o que Ricardo Trigo, jogador e dirigente do time, me dissera dias antes: “O futebol americano é o esporte mais democrático. Pessoas com qualquer biótipo podem praticar”. Logo que chego ao Parque São Jorge, sede social do Corinthians, sou pego de calças curtas: não levei nenhum equipamento. Consigo um short emprestado. Minha camisa azul-clara com botões me torna alvo fácil de piadas. Com pouco mais de 40 atletas começando a temporada — o número varia conforme acontecem contratações, contusões e desistências —, não há vestiário que comporte todos. A maioria treina de capacete para se acostumar com a visão parcial, mas nem todos usam o material completo, que inclui proteções para boca, ombros, quadril, coxas e joelhos.

No meu caso, nada disso foi necessário. Praticamente todo o treinamento dos running backs, posição em que atuei, é composto por exercícios aeróbicos. A missão desses jogadores, afinal, é fugir de grandalhões ou receber passes do quarterback para fazer touchdowns. No início do treino, todos os jogadores começam dando voltas no campo. O bicho pega para valer quando as atividades passam a exigir explosão muscular, como o exercício descrito no início desta reportagem.

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Lá pelo décimo circuito de corrida, já estou sentindo uma dor na parte de trás da coxa direita. Os outros jogadores também parecem bastante cansados, mas não comento nada com ninguém — alguns minutos depois, a dor passa. Isso não impede que eu derrube um cone e, tal qual num quartel, seja obrigado a pagar dez flexões de braço como punição. Assim que abaixo na grama sintética, todos começam a tirar sarro, ao que ouço o treinador gritando: “Quando um se dá mal no jogo, todos se dão mal. Todos vão pagar dez”. Acabo fazendo 20 flexões.

AMADORISMO
Apesar de darem o sangue em treinos e competições, nenhum dos jogadores ganha salário — os que mais se destacam recebem uma ajuda de custo de R$ 500. Ainda com status de esporte amador no Brasil, o futebol americano, porém, já começa a ver suas cifras aumentarem. Na última temporada, os custos da campanha campeã do Corinthians Steamrollers atingiram R$ 320 mil. Pela primeira vez os patrocínios foram suficientes para pagar as contas, incluindo equipamento, transporte e outras despesas. Mesmo assim, apenas 36 dos mais de 50 jogadores foram às partidas fora do estado.

Em 2012, algo inédito ocorreu: um jogo de futebol americano nacional passou ao vivo na televisão. Toda semana, o canal pago Bandsports passava uma edição de duas horas. Na final, que aconteceu em Ribeirão Preto (interior de São Paulo), a partida foi ao ar completa e em tempo real, numa transmissão que chegou a quase três horas e meia. Trechos dos jogos também foram mostrados na televisão aberta, na Band. Os jogos da NFL, a liga americana, também têm audiência crescente no Brasil: entre 2009 e este ano, multiplicou-se por cinco. A vitória do Baltimore Ravens em cima do San Francisco 49ers, no Superbowl deste ano, fez com que a ESPN fosse líder na TV paga.

No dia do meu treino, eu e os outros jogadores ouvimos quatro preleções do treinador, o italiano Marco Nessi, tricampeão europeu com a camisa 19 do Bergamo Lions. “Não vou dizer que futebol não é esporte de menina”, grita, com ar de sargento e sotaque. “Tem menina malvada que poderia estar aqui.” Careca, ele está com o mesmo boné preto que usou na final do Torneio Touchdown do ano passado, em que o Corinthians Steamrollers derrotou o Vasco da Gama Patriotas — a 27ª vitória seguida. “Neste ano, eu quero ganhar todos os jogos”, berra. Praticante do esporte desde 1983, Nessi é obcecado por vencer. Aos 48 anos, mantém o porte atlético: acorda todos os dias às 5 horas e vai para a academia antes de pegar no batente como gerente de produção de uma indústria em Cotia, na Grande São Paulo. Ele se mudou para o Brasil com a família em 2007 fugindo da crise econômica. Quando veio, nem sabia que havia futebol americano no país. “Minha esposa que descobriu”, diz. “Mandei meu currículo para o Corinthians e por seis meses nem me responderam.” Quando responderam, ele foi contratado.

Caminho parecido fez o quarterback californiano Kenneth Charles Frost II — mais conhecido como K.C. ou Casey. Jogador do time da Dartmouth College, onde estudou, ele se mudou para o Brasil no início de 2011. “Minha namorada é brasileira, nos conhecemos na faculdade”, explica. Após a formatura dela, eles decidiram que valia a pena tentar a sorte no país. Casey começou a dar aulas de inglês e, depois, arranjou emprego como analista financeiro. Assim como Marco Nessi, descobriu os Steamrollers por acaso e logo virou peça importante do time.

VASO PEQUENO DEMAIS
Na final do Torneio Touchdown de 2012 contra o Vasco, com a sua equipe já à frente no placar, Casey recebeu a bola e saiu correndo. Fintou um, dois, três… Seis adversários, percorreu 25 jardas e marcou seu 23º touchdown na competição, isolando-se ainda mais na artilharia. Neste ano, porém, o quarterback não entrou em campo pelo Corinthians Steamrollers. E nem entrará: apesar de ser a principal estrela da equipe, foi dispensado. “O Casey é um grande atleta”, reconhece Alexandre Frota. “Mas estamos nos adaptando aos novos donos da posição, isso basta.”

A saída de Casey do time é apenas mais um episódio no enredo da criação de uma nova liga de futebol americano. Enquanto promete profissionalizar o esporte e dar melhores condições aos atletas, além de atrair mais torcedores aos jogos, o campeonato que está sendo criado pela empresa de marketing esportivo Brazen rivaliza diretamente com o Torneio Touchdown. “O vaso é pequeno para uma planta, que dirá para duas”, afirma Marcelo de Paulos, publicitário e um dos sócios da empresa, referindo-se ao mercado de futebol americano no Brasil.

Proprietário do Torneio Touchdown, o empresário Luís Cláudio Lula da Silva, o Lulinha — filho mais novo do ex-presidente —, adota tom menos belicoso: “Esperamos que eles se estruturem, façam um bom campeonato e tudo o que for melhor para o esporte no Brasil”.

Ao contrário do que acontece no Torneio Touchdown, em que cada uma das 20 equipes tem contrato com o campeonato e pode deixá-lo quando quiser, a liga que a Brazen pretende criar será dona dos times. Desse modo, serão criados seis novos clubes, nas seis principais cidades que praticam o esporte no país, e todos pertencerão à empresa. Cada equipe terá sete jogadores vindos dos Estados Unidos, que já foram contratados, e dezenas de brasileiros selecionados em peneiras, dos quais a maioria receberia salário. Times como o Corinthians Steamrollers, o Palmeiras Locomotives e o Santos Tsunami, identificados com o “soccer”, não poderiam participar. “Eu não posso trazer para a nossa liga o caos que é o futebol”, argumenta Marcelo de Paulos. Na comparação direta com o Torneio Touchdown, a liga que está sendo formada pela Brazen apresenta a vantagem de ter adquirido os direitos da Seleção Brasileira de futebol americano. A Associação de Futebol Americano do Brasil (Afab), que vendeu os direitos à empresa de marketing esportivo, é reconhecida como a liga oficial no país pela Federação Internacional de Futebol Americano (Ifaf). Desse modo, os jogadores que vão representar o Brasil em torneios internacionais sairão todos da nova liga. A primeira seletiva acabou de acontecer, e os resultados foram satisfatórios, diz Marcelo de Paulos. “Alguns atletas brasileiros conseguem resultados equivalentes à média dos quarterbacks da NFL.”

A Brazen também negociou com o canal pago SporTV a transmissão na íntegra de pelo menos dez jogos da liga — dependendo da audiência, o número pode aumentar. Paulos tem uma apresentação pronta para vender o plano ambicioso a possíveis patrocinadores. Nela, inclui entre os sócios da empreitada o lutador Anderson Silva. “Estamos conversando, mas o acordo ainda não está 100% fechado”, ressalva Herbert Mota, empresário do campeão dos médios no UFC. No ano passado, Silva estrelou a propaganda de uma cervejaria vestido como jogador de futebol americano. Ao seu lado, Casey Frost fazia figuração.
Casey cogitou atuar por dois times, nas duas ligas, já que eles não se enfrentariam. Sabendo disso, Ricardo Trigo o desligou do Corinthians. Sem seu principal jogador no início da temporada, o Corinthians Steamrollers começou o ano com burburinho entre seus atletas, uma vez que ninguém sabia exatamente o que iria acontecer. Se a nova liga decolasse, mais jogadores poderiam deixar o clube. No primeiro treino do ano, Nessi e Trigo aproveitaram para anunciar a chegada de dois americanos e a negociação de um patrocínio que valeria ao clube R$ 1 milhão.

Até agora, nada mudou em relação à temporada anterior: o Steamrollers venceu o Campeonato Paulista em 9 de junho e atropelou o Uberlândia Lobos por 34 a 0 na estreia do Touchdown. Está invicto há 37 partidas. Os novos americanos já estão adaptados. “Quem não se adapta a um time que está bem, cercado de infraestrutura, patrocinadores, calor humano?”, pergunta Alexandre Frota, que deve se aposentar este ano. Frota já não atua com tanta frequência no campo, mas ainda é o principal chamariz de patrocínios. Dentro de sua BMW X5, ele, que completa 50 anos em outubro, deixa o Parque São Jorge com pinta de jogador de futebol — o de origem inglesa. Enquanto treinam em canchas improvisadas, os outros jogadores sonham com o dia em que poderão atingir o mesmo patamar.

ONDE VER OS JOGOS DO TORNEIO TOUCHDOWN
AO VIVO Os jogos do torneio ocorrem entre 20 times de 15 cidades. Apenas o campo em que o Corinthians Steamrollers mandará seus jogos, na cidade de Leme (interior paulista), é próprio para futebol americano — todos os outros são adaptados do futebol bretão.

Corinthians em campo (nosso repórter não joga)
➜ Corinthians Steamrollers x Vila Velha Tritões: 14 de julho, às 15h
➜ Corinthians Steamrollers x Jaraguá Breakers: 25 de agosto, às 15h
➜ Corinthians Steamrollers x Salvador All Saints: 11 de setembro, às 15h

NA TV A Bandsports transmite o compacto de duas horas gravado de um jogo por rodada, durante a semana, sem dia fixo. Em 2012, o canal transmitiu a final ao vivo.

NA INTERNET O site oficial do campeonato (touchdown.net) faz o minuto a minuto.

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