Amizade para todas as horas

Em épocas de ânimos acirrados e crise como a atual, entenda por que não vale a pena se distanciar dos amigos por qualquer bobagem

How I Met Your Mother

 (FOX/Reprodução)

Daniel dizia a si mesmo que estava muito frio para sair de casa, mas sabia que não era a baixa temperatura que o mantinha ali, com os olhos na tela do computador.

Se andasse dois ou três quarteirões e chegasse ao bar do bairro, tomaria um drinque ou dois e talvez até puxasse um papo com o barman, mas ele não era seu amigo. Não tinha nenhum amigo lá.

Fazia algumas semanas que morava em Toronto, no Canadá. A internet sempre foi para Daniel um refúgio seguro, e por meio dela podia conversar com as pessoas queridas que deixara em São Paulo. Mas sentia falta de um papo verdadeiro com um amigo que não estivesse em outro fuso horário e a 8 mil quilômetros de distância.

Certa noite, entrou em seu e-mail e viu uma mensagem de um certo Joaquim, que queria colaborar com o projeto de site que ele estava criando.

A ideia de Daniel era reunir um pessoal interessado por literatura, cinema, fotografia e outras artes para divulgar projetos relacionados a esses temas pela rede.

A sugestão do contato virtual, que se apresentou como produtor musical e poeta paulistano, foi uma brilhante e surpreendente colagem sonora. A criatividade de Joaquim despertou o interesse de Daniel, tanto pelo trabalho quanto pela personalidade do autor.

Os dois passaram a conversar todos os dias, trocar experiências, ouvir música, rir dos assuntos mais bobos e se aprofundar nos mais espinhosos.

O projeto tomou forma e saiu do papel para viajar pela rede. Poucos meses depois, já não fazia sentido ficar no Canadá. Tinha um amigo, virtual, mas verdadeiro, que estava em São Paulo – e era lá o lugar em que poderia crescer, fortalecer sua amizade e dar asas a seu site.

New Girl

 (FOX/Reprodução)

A amizade e a mudança dos tempos

“Os tempos estão mudando”, cantou Bob Dylan, em 1964. Cinco anos mais tarde, no festival de Woodstock – símbolo do movimento hippie –, Joe Cocker rememorou uma música dos Beatles e gritou: “Eu consigo tentar com a ajuda de meus amigos”.

Os dois ícones do rock estão certos: a amizade dá força para as pessoas irem mais longe, mas nem ela está imune às mudanças que o tempo traz para nossa vida.

Daniel (nome fictício) foi um dos entrevistados em um projeto de pesquisa da psicóloga Lívia Godinho, hoje professora da Universidade Federal de Sergipe. Ele nunca tinha visto Joaquim – nem por foto – até retornar à cidade natal.

Hoje, continuam muito amigos, mas tudo graças aos primeiros esforços quando só trocavam mensagens virtuais em continentes diferentes.

A amizade, como qualquer tipo de relação humana, é condicionada pelas regras da sociedade e pelas possibilidades tecnológicas. As duas coisas estão sujeitas a alterações dependendo do momento e lugar.

Possível e até comum nos dias de hoje, uma amizade como a de Daniel e Joaquim era impensável na época áurea de Dylan e Cocker.

“A amizade não pode ser dissociada do conjunto do comportamento social de uma época”, diz Lívia. Portanto, a maneira como as gerações antigas mantiveram as relações com os amigos no decorrer do tempo não reflete necessariamente a forma como a atual se relacionará com os seus no futuro.

Nesse sentido, as características do momento atual do país aparecem como uma armadilha para as amizades – mesmo aquelas fortes e duradouras.

Política e economia em crise colocam grandes amigos em lados opostos, conversas de bar se tornam discussões acirradas e uma publicação nas redes sociais pode ser motivo de briga.

Trainspotting

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Vínculos e esforços

Nos relacionamentos entre amigos, o respeito e os interesses em comum devem sobrepor qualquer tipo de discordância – o que nem sempre é fácil num país cindido como está o nosso.

A psicanalista Maria Helena Barros, presidente do Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL), em Recife, viu nos seus estudos sobre paixão e amizade um movimento que busca fortalecer as relações das pessoas, apesar dos obstáculos da crise brasileira.

“Tenho observado um esforço de cada um no sentido de preservar as amizades, apesar das divergências. Há momentos durante a crise, é claro, em que podem acontecer brigas, mas o movimento é em direção a aceitar as diferenças para manter um vínculo agradável e benéfico”, afirma Maria Helena.

Não há uma receita que defina quais os laços que iniciam e mantêm uma amizade saudável. Interesses em comum (esportes, filmes, músicas) podem fortalecer os vínculos, assim como a simples proximidade na infância – estar na mesma classe na escola ou morar na mesma vizinhança.

Para a psicanalista, o fundamental dentro da relação não está no apreço pelas mesmas coisas, e sim exatamente no contrário: “O imprescindível é o respeito pelas diferenças de pensamento entre os amigos”.

Há ainda algo que podemos aprender com as mulheres. Existe um senso comum errado de que, entre elas, a disputa se sobrepõe à amizade.

Para Maria Helena Barros, amigas do sexo feminino tendem a dar suporte maior umas às outras nos momentos mais difíceis do que os homens.

Por exemplo, ela constatou em pesquisas e pacientes um comportamento comum após divórcios: enquanto a maioria dos homens rapidamente procura remediar-se em um novo relacionamento amoroso, as mulheres buscam o conforto após o término da relação nas amigas. “A mulher tem maior capacidade de partilhar seus sofrimentos e angústias. Os homens costumam manter uma distância afetiva”, diz a psicanalista.

“Quem troca, quem conversa, é transportado para uma condição que supõe ultrapassar a sua opinião, abraçar a dos outros e produzir algo novo a partir desse deslocamento”, explica a professora Lívia Godinho. “A amizade pode abrir caminho para a experimentação de novas relações e outros modos de existir, favoráveis à solidariedade, cidadania e hospitalidade”, afirma.

Isso significa que as amizades não têm apenas a capacidade de sobreviver à crise. Elas ainda ajudam a superá-la no âmbito social.

New Girl

 (FOX/Reprodução)

Amizade é memória

Se você estiver tendo problemas em lembrar histórias marcantes da sua vida, talvez seja porque não tenha mantido tanto contato quanto deveria com seus melhores amigos.

Uma pesquisa realizada pela Penn State University, nos EUA, constatou que as pessoas guardam parte de suas memórias em seus amigos mais próximos.

O cérebro tem, entre suas milhares de funções, a necessidade de aperfeiçoar a memória. Para isso, memórias antigas e pouco úteis são simplesmente apagadas.

Outras mais importantes, que são partilhadas por um amigo de confiança, são “extraídas” – como um backup dos arquivos do seu computador para um dispositivo externo.

No mesmo estudo, os pesquisadores perceberam que quanto mais memórias eram guardadas no outro, mais “qualidade” teria a amizade. Isso significa que amigos próximos, de longa data e com total confiança um no outro, teriam mais lembranças que só um deles recordaria.

Na amizade entre homens, existe uma tendência para que um guarde no outro lembranças de assuntos similares, de interesse dos dois – a memória de um reforça a do amigo.

Do outro lado, amizade entre pessoas de sexo diferentes acabam sendo complementares no sentido da memória: lembranças de assuntos distintos ficam guardadas em cada um.