Estamos vivendo a época da infantilização?

Detectamos situações em que parece que gente grande está presa à quinta série. Como adulto bem pensante, você vai saber se livrar dessas armadilhas

Haja criancice!

 (Sascha Schuermann/Getty Images)

A febre do Pokémon Go em 2016 (não parece que já faz mais tempo?) provocou cenas inacreditáveis. Em poucos meses de mania mundial, o joguinho de celular fez com que pessoas crescidas saíssem a esmo por ruas e avenidas para caçar bonequinhos virtuais que “apareciam” em lugares reais.

Muitas fizeram isso com inconsequência de criança, atravessando vias sem olhar, indo a regiões perigosas, invadindo propriedades… Nos Estados Unidos, os incidentes provocados pelo jogo incluem um atropelamento na Pensilvânia, um esfaqueamento no Oregon, um carro batido contra uma árvore em Nova York e a queda não fatal de dois amigos num penhasco na Califórnia.

Na Holanda, jogadores andaram perigosamente sobre os trilhos dos trens urbanos; na Bósnia, pisaram em campos minados ainda ativos; na Indonésia, um homem foi preso ao invadir uma base militar sem perceber; na Austrália, outro motorista-jogador bateu seu carro contra uma escola; no Brasil, inúmeros roubos de smartphones nas ruas; na Guatemala, um rapaz foi morto a tiros, numa provável tentativa de roubo do celular em que jogava; no Japão, um caminhoneiro atropelou e matou um pedestre ao se distrair com o jogo enquanto guiava.

O fenômeno de imaturidade coletiva de maiores de 18 anos causada pelo Pokémon Go foi só um reflexo da infantilização generalizada que parece nos cercar cada vez mais nas últimas duas décadas.

Em sua coluna, de 26 de julho, na Folha de S.Paulo, o escritor português João Pereira Coutinho se inspirou na mania Pokémon, lembrou de outra febre recente (a dos livros para colorir para gente grande) e considerou que “voltar a ser criança é uma forma de esquecer o adulto que se tornou”.

O problema já foi diagnosticado em livro. O americano Gary Cross, professor de história moderna da Universidade Penn State, lançou em 2008 Men to Boys: The Making of Modern Immaturity (“Homens-Meninos: A Construção da Imaturidade Moderna”), inédito aqui.

“Para onde quer que eu olhe hoje, vejo homens que se recusam a crescer – maridos de 35 anos que adoram jogar os mesmos videogames que são a obsessão de garotos de 12 anos; namorados que não se comprometem com casamento ou família”, escreveu Cross, resumindo o que motivou sua obra.

No livro, ele acompanha como se deu o processo de maturação de cada geração desde a Segunda Guerra Mundial. Entre vários fatores que minaram a “obrigação de virar adulto” estão: o questionamento de figuras de autoridade em geral que se deu com a geração contestadora dos anos 1960; o excesso de mimos materiais e emocionais dados pelos pais para compensar a ausência enquanto trabalham; e a possibilidade atual de prolongar a juventude por mais tempo e driblar o envelhecimento.

A ilusão de “eterna juventude” vem se reforçando a cada década. Por um lado, graças aos avanços da medicina e à manutenção da boa forma física. Por outro, a indústria de entretenimento permite agora que alguém continue com acesso ao que gostava quando era da categoria infantojuvenil, com relançamentos de CDs e vinis, DVDs de seriados, a chance de poder viajar até a Disney por conta própria…

“Quem produz a moderna cultura de consumo e de mídia aprendeu a alimentar essa rejeição a modelos antigos de maturidade e o desejo de voltar à infância ou prorrogá-la. Assim, descobriram como vender aos homens essa imagem desejada da juventude perpétua”, analisou o professor Cross em seu livro.

 (Pacific Press/Getty Images)

Fantasia para todos

É conveniente para a indústria do entretenimento manter esse quadro. O mercado de games fatura mais que o cinema porque não é mais diversão só de crianças e adolescentes – ninguém mais se vê obrigado a parar de jogar quando fica adulto e muitos usam isso para relaxar do estresse no trabalho.

Já o cinema aposta em produções caras, efeitos especiais e histórias “bem versus mal” sem muita complicação. As dez maiores bilheterias mundiais de produções de Hollywood, em 2016, tinham apenas filmes de heróis de HQ (Capitão América: Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, X-Men: Apocalypse), animações (Zootopia, Mogli, Procurando Dory, Kung Fu Panda 3, Pets) e um baseado num game (Warcraft).

Digno de lembrança é o estrondo causado pelo sétimo filme da saga Star Wars no fim de 2015 – uma fantasia de ficção científica que há 39 anos movimenta, além de bilheterias, um amplo mercado de brinquedos comprados e colecionados por adultos.

E parece que pelo menos parte do público não quer mudanças desse esquema. No caso recente de Caça-Fantasmas, o reboot da comédia de 1984 trouxe quatro mulheres no lugar do quarteto masculino original.

A nova produção sofreu bordoadas verbais na internet antes mesmo de estrear. E um dos argumentos mais invocados era, em resumo, que o novo filme conspurcava as memórias e a infância dos reclamantes. O mimimi é livre, mas em que a escalação de quatro atrizes, em 2016, afeta uma infância vivida há três décadas?

Mimo de casa

Uma estatística recente: segundo o IBGE, a parcela de brasileiros entre 25 e 34 anos que ainda moram com os pais cresceu de 21,2%, em 2004, para 24,3%, em 2014. O adiamento de sair do ninho se reflete de várias formas. Uma delas é a prorrogação do recebimento de mimo.

Um exemplo de longo prazo que nem sempre é detectado está na alimentação. Peguemos as duas temporadas do programa de TV Que Marravilha!: Chato pra Comer, do canal pago GNT. Em cada episódio, o chef franco-carioca Claude Troisgros teve o desafio de preparar pratos com ingredientes que eram odiados pelos participantes .

Muitos deles até se orgulhavam de ter o mesmo gosto desde pequenos (pizzas, batatas fritas e outros tipos de junk food eram campeões de preferência) e se recusavam a comer coisas que sempre acharam ruins só de olhar (verduras, legumes e até peixes eram os mais rejeitados).

Em alguns casos, a mãe ou outro parente próximo confessava que tinha de preparar um prato extra numa refeição apenas para agradar ao capricho alimentar do “chato pra comer”. Desse jeito, a chance de desenvolver um paladar mais amplo e hábitos alimentares mais saudáveis fica reduzida.

O mercado de trabalho vem lidando com profissionais que foram poupados de sofrer contrariedades. É claro que há jovens maduros e sérios. Mas funcionários com atitudes infantis chamam a atenção.

Uma pesquisa do site americano de empregos CareerBuilder indicou como comportamento imaturo mais frequente o de quem só reclama ou se lamenta – observado por 55% dos consultados. Outras criancices mencionadas foram cara feia e birra quando algo sai errado e saídas intempestivas de uma sala. Também está mais frequente o profissional que pensa que o local de trabalho é uma extensão de seu lar e que chefes e colegas são seus pais e podem fazer tarefas por eles.

Mas é uma via de duas mãos. O próprio mundo corporativo pode contribuir para a infantilização. No artigo “Bebezões a bordo”, publicado, em 2007, na revista GV-executivo (da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), os autores Pedro F. Bendassolli e Mauricio C. Serafim detectavam armadilhas.

Segundo o texto, livros de autoajuda para alcançar o sucesso profissional “pressupõem um público que deve ser pego pela mão” e ensinado como crianças pequenas. Por outro lado, a noção da necessidade de um líder executivo e códigos de conduta e ética implicam que um funcionário precisa de um grande pai e de uma lei para saber distinguir o que é certo ou errado.

Tiririca, Chapolim, Carreta Furacão… Será um bom material para quem é eternamente jovem?

Tiririca, Chapolim, Carreta Furacão… Será um bom material para quem é eternamente jovem? (Antonio Chahestian/Reprodução/Divulgação)

A zoeira nunca acaba

O Brasil é um país em que apenas 56% da população lê livros. E poucos – em média, 4,96 por ano, segundo dados da recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro. Por esse status de segundo plano dedicado à leitura, faz sentido que, na internet, o brasileiro tenha interesse muito maior por imagens (fotos e vídeos). Sem falar no exercício intensivo da zoeira (ou “zuera”, no jargão dos adeptos).

A zoeira não poupa ninguém do bullying, de figuras de autoridade a alguém involuntariamente famoso graças a um vídeo. Mas é uma comédia de impacto instantâneo sem conteúdo, uma versão virtual de brincadeiras como puxar a cueca de um colega para cima da cintura ou pregar um cartaz de “chute-me” nas costas dele.

Um mestre para os zoeiros da internet é Sérgio Mallandro, eterno moleque que irá completar 61 anos em 12 de outubro (curiosamente, o Dia da Criança). Apesar de já ter demonstrado ser inteligente e bem articulado em várias entrevistas, Mallandro optou por basear sua carreira na figura do gozador com espírito de quinta série escolar.

A pegadinha que ele lançou na TV foi absorvida pelas redes sociais. Prática comum de inúmeros anônimos é enviar um link com uma notícia bombástica. Quando se clica no link, surge na tela apenas a imagem do apresentador e sua frase típica: “Rá! Pegadinha do Mallandro!”. Há quem ache hilário.

Maior que isso é a idolatria aos personagens Chaves e Chapolim Colorado, dos toscos programas humorísticos infantis criados no México pelo comediante Roberto Gómez Bolaños e exibidos há 32 anos pelo SBT.

Esse “chavismo” segue forte. Os atores que faziam os personagens Quico e Senhor Barriga vivem vindo ao Brasil para eventos e shows. E pense na quantidade de Chapolins que você vê por aí com camisas vermelhas com “CH” no peito. Essa adoração está longe de acabar.

Política infantil

As pegadinhas e o “chavismo” são relativamente inofensivos. Porém, já é razão para coçar a cabeça quando a “educação” recebida de antigos programas infantis respinga para a política. Por exemplo, o deputado federal Tiririca pode ter boa índole e conduta ilibada. Mas a principal razão de ele ter sido eleito por duas vezes pelo estado de São Paulo é que era um palhaço que aparecia na TV cantando músicas engraçadas. A zoeira como voto de protesto.

Houve outras duas ocorrências curiosas na época dos protestos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ambas relacionadas ao neoconservador Movimento Brasil Livre (MBL). Num artigo para a Folha de S.Paulo, o jovem Kim Kataguiri, principal figura pública do MBL, conclamou as pessoas a se unirem nos protestos como se fossem os Power Rangers – heróis do seriado infantil dos anos 1990, que juntavam forças para combater um robô gigante.

Semanas depois, o mesmo MBL iniciou uma campanha de arrecadação para contratar o show da Carreta Furacão para animar a passeata paulistana pelo impeachment em abril. Para quem desconhece: Carreta Furacão é um grupo paulista que dança usando fantasias de personagens de quadrinhos e desenhos animados.

Power Rangers e Carreta Furacão podem ser apenas consequências da infantilização do debate político no Brasil desta década – por parte de quem se diz de direita e quem se diz de esquerda. Um bate-boca que se convencionou chamar de Fla-Flu, com dois grupos que brigam na internet e até na vida real.

Um duelo com visões maniqueístas e simplistas: é tudo preto ou branco, sim ou não, a favor ou contra. Discussões do tipo “o seu roubou antes” versus “o seu roubou mais” tornam-se uma versão da briga no pátio da escola – com um menino dizendo “sua mãe é feia” e outro rebatendo com “a sua é que é”.