Homens sem filtro

O que podemos aprender sobre resiliência com Felipe Melo

Felipe Melo foi protagonista da eliminação brasileira contra a Holanda, na Copa de 2010: fez gol contra e foi expulso. Nunca mais foi convocado para a seleção e virou símbolo de jogador talentoso, mas descontrolado. Apesar de ter feito ótimas temporadas na Europa pouco depois do Mundial, seu talento foi ofuscado pelo temperamento.

Algumas pessoas, numa situação assim, sucumbiriam. Ser um vilão nacional é um peso. Se já é difícil aguentar o clima ruim no escritório, imagine suportar o peso de um Brasil inteiro contra si… Felipe Melo não caiu. Ele transformou o luto em energia. Forçando um tantinho a barra, o volante habilidoso e maluco encarnou a frase de Sartre: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Ele mostrou, na prática, o que é resiliência – e seguiu em frente.

Isso não é fácil. Num livro excelente, chamado O Demônio do Meio-Dia, o jornalista americano Andrew Solomon investiga a depressão. Em determinada parte do texto ele faz uma reflexão muito interessante sobre como nós reagimos aos eventos que acontecem conosco e como eles desencadeiam a doença, que é séria e precisa ser tratada como tal. Ao longo do livro, Solomon dá vários exemplos de pessoas que afundaram nos seus demônios e fantasmas e investiga as razões. Muitos dos casos foram menos violentos do que o linchamento nacional sofrido por Melo (mas nem por isso menos ruins. Afinal, não importa o fato, mas como ele o afeta).

Por isso, a volta de Felipe Melo ao Brasil, jogando pelo Palmeiras, será uma ótima oportunidade de acompanhar esse símbolo de resiliência de perto. Logo na sua apresentação, ele trouxe a família para a foto coletiva, falou de um antigo casamento fracassado, disse que daria tapa em uruguaio na Libertadores, declarou o time de coração (e atacou o mesmo clube logo na sequência), comprou briga com a imprensa, ironizou jogadores de outras equipes. Ele passeou na entrevista aos jornalistas, vivendo sem filtro, falando o que lhe dá na cabeça. Parece que nada o afeta. Ele é agressivo – mas logo faz piada com a própria agressividade.

Confesso que, para mim, seria muito difícil viver como Felipe Melo. Várias frases e comportamentos dele me soam infantis. Mas eu também consigo admirar esse jeito de estar no mundo. É preciso uma força interior e um desprendimento de si mesmo que poucas pessoas têm (e não são obrigadas a ter. Com o perdão do clichê, mas as coisas ressoam de jeitos diferentes em cada indivíduo. O que é um detalhe para um vira um drama para outro).

Por isso, em 2017, vou tentar aprender um pouquinho mais com Felipe Melo – e não vai ser sobre passes milimétricos e carrinhos irresponsáveis.

Leandro Beguoci é jornalista, professor universitário e cofundador do Outra Cidade