[Ideias VIP] Feminismo só para pegar mulheres: não seja esse cara

De repente, feminismo virou instrumento para xaveco. Mas só da boca pra fora

 (Warner Bros/Divulgação)

Tom Waits certa vez estava dirigindo e teve uma ideia maravilhosa para uma canção. Mas, sem caneta para anotar, olhou para o céu e apelou: “Por favor, você não vê que estou dirigindo? Se você realmente faz questão de existir, saiba que passo oito horas por dia no estúdio, você é bem-vinda para aparecer por lá quando eu estiver sentado no meu piano. Do contrário, me deixe em paz e vá incomodar o Leonard Cohen”.

A cena pode parecer cômica, mas faz todo sentido para quem cria. As ideias, com frequência, aparecem na hora errada. No meu caso, quando menos espero, elas caem no meu colo.

Foi assim com o assunto desta coluna.

Estava dirigindo e refletindo sobre uma história. Diferentemente do Tom Waits, não reclamei para que a inspiração viesse em melhor hora. Encostei o carro e escrevi no iPhone: #esquerdomachismo/ boy da festa/ fulana (nome da minha amiga, que vou preservar, claro). Porque de repente percebi que o que tinha acontecido conosco virou um padrão no comportamento de certo nicho masculino.

Explico: semana passada, estava numa festa com essa amiga, altos papos & drinques. Quando volto do banheiro, ela está num assunto interessantíssimo com um cara igualmente interessante.

Entro no papo. Gato, articulado, ele tinha opiniões relevantes sobre política, arte e, quando entramos num assunto feminista, ele mostrou ideias mais feministas até mesmo que as nossas.

Nossos olhinhos brilharam. Falei no ouvido dela: “Se você não pegar, eu pego”. Porque um homem com essa visão sensível e feminista é algo raro de encontrar.

Resumo da história: ela fica com o cara, tem uma noite ótima, mas descobre nos dias seguintes de sumiço dele que o cara tinha namorada, um relacionamento supostamente monogâmico que obviamente não tinha sido citado naquela noite e nem seria depois.

E aquele papo feminista, onde ficou? Quer fazer merda? Beleza. Mas não vem com esse discurso, né? Esse é um fenômeno cada vez mais comum: o boy que tem um discurso mais feminista que o da própria mulher, mas que na prática age de forma mais machista do que muito machista assumido.

Os exemplos são inúmeros e variados, inclusive na minha própria vida. Um cara que foi bem péssimo comigo (coisa rara) foi um que tinha em seu discurso frases como “as mulheres não podem dar voz ao hétero cis”.

Feminismo virou instrumento para xaveco. Não é absurdo? Acho tal atitude pior do que a do machista assumido, porque deste último podemos fugir ao saber como ele é.

Sei que vocês estão perdidos, nós também. Passamos por um período de instabilidade nas relações, ninguém mais sabe claramente o que o outro quer ou como deve proceder. Somos todos vítimas do mesmo sistema. Mas, por favor, não seja incoerente pagando de desconstruidão, de homem evoluído e feminista se você vai agir exatamente igual ao homem de antigamente.

Feminismo virou instrumento para xaveco. Não é absurdo? Acho tal atitude pior do que a do machista assumido, porque deste último podemos fugir ao saber como ele é

Feminismo virou instrumento para xaveco. Não é absurdo? Acho tal atitude pior do que a do machista assumido, porque deste último podemos fugir ao saber como ele é (Vitor Pickersgill/Revista VIP)

Carol Teixeira é filósofa e autora do livro Bitch (Record). Siga-a: @carolteixeira_