Muito além dos 50 tons

Carol Teixeira indica obras para você e sua gata aproveitarem bem mais do que a aguinha com açúcar que aquele livro cinza espalhou por aí

A primeira reação das pessoas ao sadomasoquismo é imaginar logo a versão mais caricata do assunto e vê-lo como algo muito distante delas. Mas não é. Que atire a primeira pedra a mulher que não sentiu algum dia prazer numa puxadinha de cabelo ou um tapa na bunda em momentos mais empolgados do sexo. E quem já não se pegou inesperadamente excitado num filme com uma cena sexual mais violenta do que o usual? O próprio sexo anal traz em si claramente traços de sadismo e masoquismo. Claro, o SM de verdade envolve práticas e sensações bem mais extremas, mas o princípio é o mesmo: poder. Submissão e dominação. A questão do SM é muito mais psicológica do que física e não tem nada de errado percebermos em nós mesmos pontinhas de sadismo ou masoquismo durante o sexo ou nos excitarmos com os ótimos filmes e livros sobre o assunto. Aí vão minhas dicas. Mas sem falar de Cinquenta Tons de Cinza, porque vocês podem mais, queridos.

Secretária, de Steven Shainberg
Adoro esse filme estranho e interessante. A protagonista, personagem de Maggie Gyllenhaal, recém saiu de um sanatório. Tentando viver uma suposta vida normal, começa a trabalhar num escritório como secretária. Porém, ela e seu chefe acabam dando início a uma relação sadomasoquista que, para os outros, pareceria bizarra mas que, para eles, faz todo sentido. Em um certo momento do filme ela fala: “Encontrei alguém para amar de uma maneira que parece certa”. Era certo para ela e para ele, e isso bastava. O que lembra o princípio do dano do filósofo inglês John Stuart Mill: se um acordo é desejado pelas partes e não prejudica a terceiros, não cabe a ninguém julgar.

A História de “O”, de Guido Crepax (L&PM)
Boa notícia para os amantes de HQ erótica. Este mês será lançada pela L&PM A História de “O”, do mestre Guido Crepax, baseada no polêmico e clássico livro homônimo de Pauline Réage. Correntes, chicotes, coleiras, consolos, plugs anais, vendas e mordaças são os ingredientes do coquetel desenhado por Crepax. Um coquetel temperado com bondage e servido no calabouço da mansão para onde “O” é levada. Lá a personagem título é submetida a uma série de práticas de dominação, incluindo as mais criativas e bizarras fantasias de seu senhor. “A partir daí, ela descobre que prazer e submissão são dois lados da mesma moeda e que carrasco e vítima não passam de cúmplices em um pacto sinistro que pode trazer prazer a todos”, conta Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM. “No traço de Crepax, o leitor encontra obscenidade mesclada a elegância e perversão temperada com artes plásticas.”

A Entrega, de Toni Bentley (Objetiva)
Este livro me surpreendeu desde as primeiras páginas. Bentley, jornalista que colabora com publicações importantes como The New York Times, escreve aqui sobre como ela encontrou a transcendência através da entrega no sexo anal. Suas memórias íntimas são intelectualizadas e justificadas ao longo as páginas por meio de argumentos que fazem todo sentido e surpreendem do início ao fim. “Alguém precisa estar por cima e alguém, por baixo. Lado a lado é um tédio”, escreve ela. “A igualdade nega o progresso e evita a ação.”

Maidenhead, de Tamara Faith Berger
Dica ótima do escritor Daniel Galera. O livro não foi lançado ainda no Brasil, mas, se você se garante no inglês, encomende logo porque vale a pena. A história é narrada por Myra, uma garota de 16 anos, que durante um período de férias com a família conhece um músico africano mais velho. Ele a atrai para um sórdido quarto de pensão e ali vivem experiências que a transformam completamente, a ponto de ela desejar ser uma escrava sexual. “Em especial, o livro dialoga de forma muito interessante com a onipresença da pornografia na internet”, diz Galera. “Para Myra, é natural tratar logo de investigar suas novas fantasias em sites pornográficos, e um dos grandes momentos do livro ocorre quando ela está assistindo a vídeos de teens entregues a submissões sexuais de todos os tipos. O olhar de uma atriz capta sua atenção, e Myra se pergunta como e por que ela foi parar ali. Quem são essas garotas? Acima de tudo: como elas se sentem? Myra deduz que aquelas atrizes são como ela.”