Ninguém mexe com Vitali Klitschko

Ele foi campeão mundial dos pesos-pesados, venceu 45 lutas entre as 47 que disputou e tem a segunda maior média de nocautes da história do boxe. Na política desde 2004, Vitali hoje é da oposição e tenta resolver a crise que assola a Ucrânia, que já se transformou em guerra civil, e vê o desejo de concorrer à eleição presidencial de 2015 ainda mais perto

Protests Continue In Kiev As The Opposition Calls For A Snap Election
Arena Olimpiyskiy, Moscou, Rússia, 8 de setembro de 2012. Vitali Klitschko, campeão mundial dos pesos-pesados pelo WBC, mantinha a guarda baixa. De vez em quando desferia jabs que, se não machucavam, serviam para pontuar. Tinha uma expressão de frieza; aos 41 anos, parecia nada temer. Encarava seu oponente, o alemão Manuel Charr, sétimo no ranking dos pesos-pesados do WBC. Charr apenas dançava à sua frente. Dançava de medo, encolhido por detrás de suas luvas. Dias antes, o alemão dissera à imprensa: “Vitali vai ver nos meus olhos que ele não pode vencer essa luta”. Era exatamente o oposto.

No quarto round, o ucraniano nascido onde hoje é o Quirguistão, acertou um gancho no rosto do alemão. Um corte no canto inferior do olho direito. Sangue. Muito sangue. O árbitro Guido Cavalleri parou a luta. Os médicos limparam o ferimento; o sangue não estancava. Era impossível continuar daquele jeito. Aos 2’04’’, o juiz encerrou a luta. Nocaute técnico. Foi a primeira derrota do alemão – e, até hoje, a única.

Vitali Kitschko saiu do ringue como entrou: campeão mundial dos pesos-pesados. Foi sua última luta como boxeador, mas não a última vez que entrou numa briga. Depois da disputa de título contra Charr, o ucraniano afirmou: “Eu encaro grandes tarefas e não apenas no esporte. Voo para Kiev pela manhã e me ocupo inteiramente com os preparativos para as eleições parlamentares como líder do partido”.

A REVOLUÇÃO LARANJA

O interesse de Vitali Klitschko pela política tornou-se público em 2004.

Naquele ano, ele e o irmão, Wladimir Klitschko, também boxeador, apoiaram Viktor Yushchenko, candidato liberal à presidência da Ucrânia. Yushchenko desejava aproximar a nação, historicamente dependente da Rússia, dos países europeus. A eleição presidencial daquele ano, contudo, deu a vitória ao seu oponente, Viktor Yanukovych.

Não tardou para que denúncias de corrupção e fraude eleitoral surgissem. Em novembro e dezembro de 2004, os ucranianos tomaram as ruas em protesto à situação política. Era o começo de uma revolução democrática que entraria para a história recente do país como Revolução Laranja: greves, passeatas e atos de desobediência civil se proliferavam na capital Kiev e ganhavam outras cidades. O país vivia o caos e os irmãos Klitschko participavam de maneira ativa dos protestos, liderando a massa e entoando canções e palavras de ordem.

Klitschko Visits Demonstration and 50th Munich Security Conference

Enfim, o povo venceu. A eleição foi anulada. Em novo pleito, Yushchenko saiu vencedor, com 52% dos votos.

Vitali Klitschko tomou gosto pela política. Ele sabia que ela em si não era algo perverso e que, por meio dela, era possível mudar o país para melhor – o que, na visão dele, significava aproximar a Ucrânia da União Europeia.

(Claro, também poderia ser usada para o mal, como fizeram com seu pai, Vladimir Rodionovich Klitschko, anos antes. General da Força Aérea Soviética, Klitschko-pai foi destacado para fazer a limpeza de Chernobyl logo depois do desastre nuclear de 1986. “Desde o princípio, o governo tentou encobrir a verdade e minimizar a situação. Eles nos deram a impressão de que a coisa não era tão séria”, afirmou o general. Por causa da radiação, desenvolveu câncer nos gânglios linfáticos e morreu em 2011.)

Vitali Klitschko v Danny Williams

Em 2005, Vitali Klitschko começou a fazer campanha para a eleição à prefeitura de Kiev no ano seguinte. Sua plataforma era baseada na luta contra a corrupção. Perdeu para Leonid Chernovetskyi, mas angariou 26% dos votos e um lugar no Conselho Municipal de Kiev. Isso se repetiu em 2008. Dois anos depois, Klitschko se tornou líder do partido UDAR (sigla para Aliança Democrática Ucraniana pela Reforma, mas que significa, em russo e ucraniano, “soco”). Em 2012, seu partido conquistou 40 cadeiras no parlamento ucraniano e Klitschko assumiu uma vaga. Um ano depois, anunciou que pretende concorrer à eleição presidencial de 2015.

Talvez, a eleição ocorra antes. É o que deseja o povo nas ruas de Kiev.

A HISTÓRIA SENDO ESCRITA

Em 21 de novembro de 2013, o governo ucraniano suspendeu a assinatura do acordo de associação e livre comércio com a União Europeia para privilegiar sua relação com a Rússia. Como sinal de protesto, ucranianos pró-União Europeia tomaram a Praça da Liberdade naquela noite. E nos dias seguintes. E nos depois. O presidente Viktor Yanukovych reagiu de maneira violenta e enviou a polícia para dispersar a multidão.

Protests Continue In Kiev As The Opposition Calls For A Snap Election

O governo de lá, assim como acontece no de cá, pesou a mão: balas de borracha, gás, repressão por meio de brutalidade. Em janeiro deste ano, ocorreram as primeiras mortes. Desde então, as cenas são de guerra: a polícia, em peso, faz cordões e usa indiscriminadamente suas bombas de efeito moral – há relatos de que trocaram as balas de borracha por munições letais. Os ativistas, por sua vez, respondem com coquetéis molotov e pedras do calçamento.

Com o passar dos dias, aumenta o número de manifestantes na praça. E aumenta o número de vítimas. Repórter do jornal The Guardian contou 21 cadáveres na última quinta-feira, mas a contagem correta de mortos é impossível de checar. Oleh Musiy, médico-chefe do movimento de oposição, disse que 70 manifestantes morreram na terça-feira (18), o dia mais sangrento dos conflitos, aumentando o número de vítimas fatais para mais de uma centena. O ministério da saúde da Ucrânia divulgou nota: 67 foram mortos e 562 feridos desde terça-feira. Os números, no entanto, continuam a mudar. Hotéis são usados como necrotério.

Diante de tanto horror, naquela terça-feira, Vitali Klitschko foi ao gabinete do presidente Viktor Yanukovych. Queria resolver a crise, mas foi em vão. “Eles não querem ouvir.” No fim da tarde do dia seguinte, na Praça da Liberdade, enquanto os policiais tentavam dispersar o povo com jatos d’água, Klitschko subiu em um palco improvisado entre pneus em chamas e barracas destruídas, e bradou aos 20 mil manifestantes presentes: “Nós não iremos a lugar algum. Esta é uma terra de liberdade e nós a defenderemos!”.

O povo respondeu com “Glória à Ucrânia!”

Ali, naquele instante, ele não era o campeão mundial dos pesos-pesados. Não era o Dr. Punhos de Aço, como ficou conhecido. Não era o lutador com 45 vitórias em 47 lutas e a segunda maior média de nocautes da história do boxe: 87,23%. Ali, ele era um revolucionário.