No carnaval, assédio não pode ser fantasia

Mais de 80% das mulheres não gostam de receber as tais cantadas na rua. Cerca de 90% delas já deixaram de fazer alguma coisa por medo de assédio. 85% já sofreram com estranhos passando a mão em seus corpos. O site da VIP convidou a jornalista responsável pela campanha Chega de Fiu Fiu para reforçar nosso coro: não seja um escroto neste carnaval. E nem depois. As mulheres agradecem

(Por Juliana de Faria* // Ilustrações: Lorena Morais)

“No carnaval, pode tudo” é uma frase que deveria dar arrepios em qualquer um. A festa, por vezes, mascara a violência sexual que muitas mulheres sofrem durante a celebração do feriado. Puxões, encoxadas, beijos forçados, mão boba, um tapinha que “não dói”… Quem nunca ouviu falar dessas histórias? E ela é sempre contada do ponto de vista do, hmm, “galanteador”, seja em filmes, anúncios publicitários ou mesmo na boca de um amigo. A graça da conquista é a protagonista, merecedora de aplausos, risadas, high fives. O consentimento, por outro lado, não tem espaço neste roteiro.

Se você cortar a cena e jogar luz para quem foi esquecida como figurante, vai enxergar coisas que talvez não gostaria: medo, aborrecimento, vergonha e traumas. “Ao ignorar um grupo de homens que me cantavam, levei um tapa na bunda. Eles riram. Eu chorei de dor e humilhação.” Este é um dos milhares de depoimentos reais que recebi desde que comecei, em julho do ano passado, a Chega de Fiu Fiu, uma campanha que luta contra assédio sexual em locais públicos no Brasil. Tem mais: “um homem de moto diminuiu a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas”, “de repente, um cara se aproximou de mim com o pau pra fora”, “um motoqueiro gritou ‘sobe aqui e eu te mostro como se trepa’”.

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É desconcertante conhecer este lado da história, não?

Em setembro, divulgamos uma pesquisa online realizada com quase 8 mil participantes. Os resultados foram lamentáveis, porém nada surpreendentes para mulheres que caminham pelas ruas, usam transporte público, frequentam casas noturnas… Entre elas, 83% não gostam de receber as tais cantadas. Além disso, 90% já deixou de fazer alguma coisa – pegar um caminho mais curto, sair a pé – por medo de ser assediada. E 85% afirmou que já sofreram com estranhos passando a mão em seus corpos. O assédio é grave e não tem limites, nem mesmo de idade: algumas mulheres me confidenciam que sofreram pela primeira vez com o problema aos dez, nove e até oito anos.

Infelizmente, tal comportamento é visto com normalidade por grande parte das pessoas. Também é legitimado por propagandas e formadores de opinião (!) equivocados, que confundem as relações românticas naturais humanas com a violência e agressividade do assédio sexual. No carnaval, caia na farra, mas não caia nessa. E respeite as mulheres.

* Juliana é jornalista, criadora do site ThinkOlga e da campanha Chega de Fiu Fiu.