O que falta pro Brasil ganhar o ouro do futebol?

Indicamos os problemas das tentativas anteriores que devem ser evitados . Claro, com a pegada VIP de sempre...

Por Marcelo Orozco e João Ortega

O ouro da Olimpíada é o único título importante que a seleção brasileira masculina de futebol nunca conquistou. Na ânsia de comprovar que o país pentacampeão da Copa do Mundo é o maioral, essa medalha torna-se uma obsessão maior a cada fracasso (se é que três pratas e dois bronzes são fracassos). Até porque os vizinhos Argentina e Uruguai têm duas cada um. Grã- Bretanha, Itália, França e Espanha também obtiveram as suas.

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Só que, além dos outros gigantes, o ouro já ficou com países que nem existem mais, como Iugoslávia, União Soviética, Alemanha Oriental e Checoslováquia; e até por eternos “café com leite” das Copas, como Bélgica, Suécia, Nigéria, Camarões e México.

A Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro é uma chance grandiosa. Pela primeira vez (e, possivelmente, única por muitos anos), o Brasil jogará em casa. E terá um Neymar bem mais maduro e esperto que o do torneio de 2012 em Londres. Espera-se que, após a final, em 20 de agosto no Maracanã, o topo do pódio seja ocupado por atletas com a amarelinha brasileira.

Ronaldinho, do Brasil, durante contra a Nigéria, partida válida pela semifinal da Olimpíada de Atlanta, no Estádio Sanford.

Basta tentar evitar tudo que deu errado nas vezes anteriores. Mas será que isso vai acontecer? Tal como fez em 2008, Dunga assumirá os olímpicos às vésperas do torneio (até lá, quem irá moldar o time será Rogério Micale).

Como tentativa de alerta, recapitulamos o que aconteceu desde 1984, a primeira Olimpíada em que foi permitida a participação de profissionais do futebol. Antes disso, o Brasil levava a pior. Da nossa primeira tentativa em 1952 até 1976 (em 1980, a seleção foi eliminada no pré-olímpico e nem foi a Moscou), enviamos jogadores abaixo dos 20 anos, mantidos como amadores justamente para que pudessem jogar na Olimpíada.

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Só que os países do bloco soviético compareciam com marmanjos de qualquer idade com experiência em Copas do Mundo e Eurocopas, uma vez que o comunismo impunha um amadorismo oficial. Nem com futuros craques como Gérson (1960), Falcão (1972) e Júnior (1976) dava para fazer frente.

Por isso, optamos por analisar nossos acidentes de percurso nos torneios disputados em igualdade de condições. Para isso, tivemos o reforço de comentários de dois dos jornalistas esportivos mais bem-humorados da TV – Mauro Beting, da Fox Sports, e Rodrigo Rodrigues, da ESPN. Dá só uma olhada!

1984 O inter se transforma em seleção brasileira

Geovani chorando no ombro de Romário, após a derrota do Brasil para a União Soviética na final da Olimpíada de Seul, no Estádio Main.

A Fifa e o COI (Comitê Olímpico Internacional) entraram em acordo e, pela primeira vez, profissionais da bola poderiam disputar a Olimpíada, desde que nunca tivessem jogado numa Copa. O Brasil se classificou bem no pré-olímpico com um time de jovens promissores. Mas tudo desmoronou quando os clubes se recusaram a liberar jogadores para a Olimpíada. Meio no improviso, a CBF decidiu levar uma equipe inteira de clube. Tentou o Fluminense, campeão nacional, mas acabou fechando com o Internacional, que tinha Gilmar Rinaldi, Mauro Galvão e Dunga. A base foi reforçada com uns poucos jogadores de outros clubes e o técnico chamado foi Jair Picerni, que estava trocando o Santo André pelo Corinthians.

Por que perdemos – O Brasil era mais esforçado que encantador. Até encarou decisão por pênaltis contra o opaco Canadá nas quartas de final e venceu a Itália no sufoco na semifinal. No jogo contra a França, que decidia o ouro, a pilha já tinha acabado.

Quem ganhou – A França passeou diante do Brasil e levou o ouro por 2 x 0. “Para um time montado às pressas com a base do Inter, um bom time, mas não o melhor do país, a prata foi ouro“, reflete Mauro Beting, comentarista da Fox Sports.

Lição aprendida – Time de clube não é seleção.

1988 O apagão de um timaço na grande final

Ainda com a regra de não levar quem foi a uma Copa, a organização foi melhor para os Jogos de Seul. O técnico Carlos Alberto Silva, da seleção principal, dedicou quase um ano à preparação da equipe olímpica. E organizou um time com futuros campeões do mundo – Taffarel, Jorginho, Bebeto e Romário – e outros bons talentos, como Neto e João Paulo (ambos injustiçados na Copa de 1990) e os experientes Andrade e Edmar. O time foi convincente e bateu a Argentina nas quartas por 1 x 0 e a Alemanha na semifinal, nos pênaltis (com Taffarel virando herói da seleção pela primeira vez). “Bebeto e Romário deram um aperitivo do que veríamos em 1994 e o Taffarel estava pegando tudo”, relembra Rodrigo Rodrigues, apresentador do Resenha ESPN, programa que sempre conta com a participação de ex-craques para um papo descontraído.

Por que perdemos – Na final com a União Soviética, Romário marcou aos 30 do 1º tempo. A seleção passou a sonhar acordada com o ouro e se esqueceu do resto do jogo. Tomou o empate no 2º tempo e, na prorrogação, levou a virada de 2 x 1.

Quem ganhou – A União Soviética, em seu penúltimo suspiro (ainda disputaria a Copa de 1990 antes da dissolução do país). Com uma equipe bem inferior à nossa. “Foi o melhor Brasil olímpico”, garante Mauro Beting.

Lição aprendida – O jogo só acaba quando termina.

1992 Nem vamos nos estender, afinal o Brasil não se classificou para a Olimpíada de Barcelona

Caiu no pré-olímpico após perder da Colômbia e empatar com a Venezuela. Pela nova regra, os convocados deveriam ter até 23 anos. O time tinha gente como Cafu, Roberto Carlos, Márcio Santos, Dener e Marcelinho Carioca. Mas o técnico era uma invenção da CBF: Ernesto Paulo, um desconhecido que sumiu do mapa logo após esse fracasso. “Até hoje, não entendo Ernesto Paulo no comando”, diz Rodrigo Rodrigues. O ouro olímpico ficou com a Espanha, que tinha em campo Guardiola e Luis Enrique.

1996 A milionária seleção com excesso de confiança

Ronaldo beijando a medalha de bronze conquistada nas Olimpíadas de Atlanta.

Dois anos após o tetra da Copa, a CBF colocou como ponto de honra a vitória nos Jogos de Atlanta. Investiu 3,5 milhões de dólares – um valor maior que o gasto do COB com todos os outros esportes juntos. O técnico Zagallo passou um ano e meio montando a equipe. E pôde chamar três jogadores de qualquer idade, além dos até 23 anos. Assim, Aldair, Bebeto e Rivaldo se uniram a Dida, Roberto Carlos, Juninho Paulista, Ronaldo Fenômeno, Sávio, Zé Elias, Flávio Conceição…

Parecia mera questão de entrar em campo seis vezes e pegar o ouro. Zagallo nem estudava adversários – dizia que o Brasil era tetra e os outros é que deveriam se preocupar. Mas o começo foi terrível: derrota de 1 x 0 para o Japão, com o gol saindo após uma trombada ridícula de Aldair e Dida. “Eu trabalhava como guia da Disney na época e a estreia da seleção contra o Japão fazia parte do pacote porque o jogo era em Miami”, conta Rodrigo Rodrigues. “Dei uma cochilada no caminho e o motorista foi parar num jogo de futebol americano! Quando chegamos, a partida estava na metade. O que salvou minha pele foi a derrota inacreditável. Os passageiros ficaram tão decepcionados com Dida e Aldair batendo cabeça que até esqueceram do atraso.” Mas a seleção se recuperou o bastante para ir para a fase de mata-mata, eliminando Gana nas quartas de final.

Por que perdemos – Na semifinal contra a Nigéria, a soberba da CBF e de Zagallo atingiu o time, que vencia por 3 x 1 até os 33 do 2º tempo, mas relaxou e levou dois gols em 12 minutos – Kanu empatou aos 45 do 2º. Sob a regra do “gol de ouro” (ou morte súbita), a prorrogação durou quatro minutos. Até Kanu, de novo, fazer o gol da vitória por 4 x 3. E deixou para a história a narração desesperada de Galvão Bueno enquanto ele disparava rumo ao gol: “Kanu… Ele é perigoso!… Acabou! Gool… da Nigéria…”.

Quem ganhou – A Nigéria levou o ouro em outra vitória épica, fazendo o gol da vitória de 3 x 2 sobre a Argentina aos 45 do 2º tempo. O Brasil ficou com o bronze ao fazer 5 x 0 em Portugal na véspera. E manteve a empáfia: a CBF se recusou a levar o time à cerimônia de entrega após a final. O COI abriu exceção e deu os bronzes após o jogo com os portugueses.

Lição aprendida – Time vencedor é uma coisa. Time mascarado é outra.

2000 O estrategista luxemburgo perde para um time com 9 em campo

Entrevista coletiva do técnico Wanderley Luxemburgo após a derrota da Seleção Brasileira de Futebol para Camarões nas quartas-de-final dos Jogos Olímpicos de Sydney.

O esquema de manter o técnico da seleção principal no comando da olímpica foi repetido. Só que dessa vez era Vanderlei Luxemburgo. Ele confiava tanto em seu taco como treinador brilhante que abriu mão de levar três reforços acima dos 23 anos. Tudo bem que ele tinha Ronaldinho Gaúcho e Alex para o meio-campo. E Lúcio era um zagueiro promissor. Mas o resto da equipe não tinha a mesma força que a de 1996. Para piorar, semanas antes dos Jogos de Sydney, Luxemburgo sofreu várias acusações públicas de sonegação de impostos e outras práticas pouco éticas. Além disso, a seleção principal vinha tendo maus resultados e o povo exigia a convocação de Romário – inclusive para a Olimpíada. Ou seja, o noticiário em torno do professor era uma balbúrdia diária. “Os problemas extracampo com o treinador atrapalharam toda a preparação”, diz Mauro Beting.

Sem cabeça e com pouca bola, o Brasil se classificou em segundo em seu grupo, mesmo após perder de 3 x 1 para a África do Sul. E foi para as quartas de final contra Camarões.

Por que perdemos – “Elenco rachado” foi um fator, segundo Beting. Alguns jogadores não topavam Luxemburgo. Para as quartas, o técnico montou um esquema mais indicado para enfrentar africanos velozes – Camarões não tinha esse estilo. Os camaroneses marcaram logo aos 17 minutos e dominaram até ter dois expulsos no fim do jogo. Milagrosamente, Ronaldinho empatou no último lance. Com onze contra nove, tudo indicava a virada brasileira na prorrogação. Mas o “gol de ouro” foi de Camarões.

Quem ganhou – Camarões prosseguiu até a final e ganhou o ouro batendo a Espanha nos pênaltis, após um empate heroico por 2 x 2 (os espanhóis fizeram 2 x 0 no 1º tempo). Ou seja, era um bom time. Com um atacante de altíssimo nível chamado Eto¿o.

Lição aprendida – Técnico de cabeça inchada com outros problemas não ajuda nem um pouco.

2004 Outra história infelizmente curta, com a eliminação no pré-olímpico. 

O técnico era Ricardo Gomes e a equipe tinha as estrelas santistas Robinho e Diego, além de Maicon, Elano, Nilmar e Dagoberto. Porém, Kaká e Adriano não foram liberados por seus clubes italianos para o torneio classificatório. No turno final do pré, a seleção perdeu jogos (e uma das vagas) para Argentina e Paraguai – respectivamente, campeão e vice nos Jogos de Atenas, meses depois.

2008 O fracasso da seleção montada em menos de dois meses

Ronaldinho Gaúcho, do Brasil, recebendo medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim.

Técnico da seleção principal, Dunga passou meses sem decidir com a CBF se o time olímpico também ficaria com ele – quem garantiu a vaga ao vencer o Sul-Americano Sub-20, em 2007, foi um treinador curiosamente chamado Nélson Rodrigues. Dunga só assumiu quando faltavam menos de dois meses para a estreia nos Jogos de Pequim. “Uma bagunça. Quando Dunga chegou, mal teve tempo de arrumar um time que era inferior à Argentina”, aponta Mauro Beting. Havia promessas como Thiago Silva, Marcelo, Ramires, Breno, Hernanes, Lucas Leiva e Alexandre Pato. E Ronaldinho Gaúcho teve uma segunda chance olímpica, embora já estivesse em má fase (tinha acabado de sair do Barcelona). Sem brilho, o time se arrastou até chegar à semifinal.

Por que perdemos – Mais frágil em todos os aspectos, o Brasil tomou um vareio de 3 x 0 da Argentina na semifinal. Como consolação, mais um bronze, com uma vitória de 3 x 0 sobre a Bélgica.

Quem ganhou – Precisa mesmo falar que a Argentina de Messi (e de Riquelme, Mascherano, Aguero, Di Maria…) ficou com o ouro de novo? Na final, 1 x 0 na Nigéria, só para vingar a derrota na decisão de 1996.

Lição aprendida – Dois meses são pouco para formar um time que vai enfrentar o Messi.

2012 Quando o fácil ficou difícil

As condições para a disputa em Londres pareciam boas. Para começar, não havia Messi nem Argentina, que não se classificou. Nenhum outro time assustava. E Neymar já era a nova joia do futebol brasileiro. O trabalho do técnico Mano Menezes era montar o resto do time em torno dele. Só que, três meses antes da Olimpíada, Ricardo Teixeira renunciou e quem assumiu a CBF foi José Maria Marin, que deixou claro que não queria Mano. “Não estava difícil vencer. Mas Mano não tinha a confiança do novo comando da entidade”, avalia Beting.

Por que perdemos – Mesmo não estando difícil na teoria, o Brasil tomou sustos de Egito e Bielorrússia na 1ª fase. E esteve duas vezes atrás de Honduras antes de vencer por 3 x 2 nas quartas. Além disso, Neymar estava intranquilo: era vaiado continuamente pela torcida inglesa.

Quem ganhou – A seleção chegou à final contra o México, que entrou com gana, fez gol logo no primeiro minuto e dominou tudo. Aos 30 do 2º, 2 x 0 para os mexicanos. Só então o Brasil acordou com a entrada do raçudo Hulk. Mas o gol dele só saiu nos acréscimos. Tarde.

Lição aprendida – Só um fora de série não basta. E não dá para cartola fritar técnico em pleno torneio.