O triunfo dos galãs feios

Não é preciso ter rosto de astro de comédia romântica para ser uma referência masculina

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(John Phillips/Getty Images)

Encaremos os fatos: a maioria esmagadora da população masculina não nasceu com a aparência apolínea de um galã de cinema ou TV, tampouco a de um modelo fotográfico. Poucos desfrutam de queixos quadrados, cabelos perfeitos, tônus muscular irretocável.

Mas nada disso impede que os menos esteticamente abençoados pela sorte toquem a vida. E sejam românticos e sensuais – sintetizando: galãs feios. Aqueles que não são Pitts, Clooneys, Gianecchinis e, mesmo assim, estabeleceram um padrão de dignidade masculina que causa admiração ou atração.

Desde que a indústria do entretenimento se firmou, houve brechas para os não bonitos. Digamos que o primeiro foi Fred Astaire. Em seu livro História da Feiúra, o escritor e filósofo Umberto Eco reproduziu o parecer de um anônimo diretor da Metro-Goldwyn-Mayer sobre a possível contratação do aspirante a ator pelo estúdio em 1928: “Não sabe representar, não sabe cantar e é careca. Consegue se virar um pouco na dança”.

Fred Astaire

Fred Astaire, em foto de 1941 (reprodução/internet)

O careca Astaire transformou-se numa das maiores figuras românticas de Hollywood nos anos 30, com charme, leveza e masculinidade segura e elegante. E soube fazer muito bom uso do fiapo de voz para ser um cantor cheio de estilo (confira a versão dele para o clássico Cheek to Cheek).

O tal diretor sumiu, mas Astaire manteve-se como protagonista romântico mesmo quando já era bem maduro – como em Cinderela em Paris, de 1957, quando tinha 58 anos.

Houve outros naqueles tempos. As orelhas de abano não impediram Clark Gable de ser o conquistador em vários filmes, especialmente em E o Vento Levou. E Humphrey Bogart, mesmo com suas feições castigadas e a calvície disfarçada com peruca, tornou-se um parâmetro de romantismo com Casablanca.

Mas, apesar dessas exceções, o padrão de galã instituído no cinema americano foi o do bonitão de queixo quadrado e/ou ombros largos e/ou peitoral definido.

A ruptura veio da França. Chamado pelo jornal The New York Times de “hipnoticamente feio”, Jean-Paul Belmondo encantou com magnetismo e atitude em Acossado, marco zero do movimento nouvelle vague filmado pelo diretor Jean-Luc Godard em 1960.

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Jean-Paul Belmondo: “hipnoticamente feio” (Divulgação/Reprodução)

Nem fazer o papel de criminoso impediu que Belmondo fosse considerado irresistível – pelo público e pela personagem principal do longa, interpretada pela graciosa Jean Seberg. Belmondo identificou a qualidade que o ajudou a triunfar: “Charme é a habilidade de fazer os outros esquecerem a sua aparência”.

Mas Belmondo perde para Serge Gainsbourg, o cantor e compositor que ainda é uma glória nacional da França, 26 anos após sua morte. Tudo estava contra ele: além de bastante feio (e complexado quando jovem), abusava de cigarros e bebida.

Porém, ele descobriu como se tornar um mestre em sedução – em suas letras e na vida real. Capaz de conquistar Brigitte Bardot, um dos maiores símbolos sexuais do século 20, num caso tão breve quanto tórrido. BB o chamava de “o rosto do amor”.

É possível vislumbrar o jeitinho de Serge através de uma frase de Jane Birkin, a atriz inglesa que se casou com ele depois do affair com Brigitte: “Ele se importava muito se você gostava disso ou daquilo, e se você se sentiria bem se ele enchesse o quarto de rosas brancas”.

Serge foi um exemplo perfeito de uma frase do escritor checo Milan Kundera em O Livro do Riso e do Esquecimento: “As mulheres não preferem os homens bonitos, mas, sim, os homens que tiveram as mulheres bonitas”. Já Gainsbourg filosofava: “A feiura é superior à beleza porque dura mais tempo”.

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(Divulgação/Reprodução)

A classe segue com bons representantes, como Javier Bardem e Benicio Del Toro. O rosto duro de Bardem combinou tanto com o psicopata de Onde os Fracos Não Têm Vez que lhe rendeu um Oscar.

Mas ele também é convincente ao enfeitiçar mulheres interpretadas por Scarlett Johansson, Penélope Cruz (sua mulher na vida real) e Julia Roberts em filmes como Vicky Cristina Barcelona e Comer, Rezar, Amar.

Ser galã ou não é o de menos para ele. “O que gosto de interpretar são seres humanos, e eles não costumam ser tão belos quanto os astros de cinema”, disse Bardem.

Já Del Toro, que volta e meia é escalado para produções sobre tráfico de drogas, confessou que gostaria de trabalhar em mais filmes sobre relacionamentos como Coisas Que Perdemos Pelo Caminho, que ele fez há dez anos. “Eu gostaria de viver um protagonista romântico. Vestir um terno e ficar com a garota no final”, admitiu.

É claro que, na era das redes sociais, os esteticamente desfavorecidos são celebrados com humor. A página Galãs Feios, criada no Facebook pelo jornalista Helder Maldonado, atraiu 547 mil seguidores em dez meses e já se expandiu para YouTube, Instagram e site próprio. “Resolvi criar a página só para publicar imagens de uns homens que não entendia como poderiam ser considerados galãs”, diz Helder.

Por que tanta atenção aos mal diagramados? Uma boa explicação pode ser a do jornalista galês Stephen Bayley, autor do livro Ugly: The Aesthetics of Everything.

Num artigo de 2015 para o jornal britânico The Guardian, ele escreveu. “Feiura não é um impedimento para o sucesso pessoal. A beleza é chata – mas a feiura, não importa quão difícil seja defini-la, sempre fascina. Coloquemos assim: se tudo fosse bonito, nada seria.”