Pixuleco: o homem do ano

O maior personagem do ano de 2015 é também a melhor síntese possível do Brasil, um país em que praticamente nenhum escândalo existe sem elementos da mais nacional e pornográfica chanchada

Por Ruy Goiaba

Tudo começou com mais um capítulo da Grande Enciclopédia da Esculhambação Brasileira, obra tão interminável quanto a Biblioteca de Babel do Borges e atualizada por sucessivas gerações: em sua delação premiada, o empreiteiro Ricardo Pessoa – espécie de sósia sombrio, e com menos cabelo, do saudoso Miele – disse que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, chamava de “pixuleco” a propina recolhida das empresas com contratos com a Petrobras.

Não há praticamente nenhum escândalo político no Brasil que não contenha elementos de chanchada (os espíritos de Oscarito e Grande Otelo estão sempre se movendo sobre a face das águas), mas nesse caso o paradigma era outro: “Pixuleco” podia ser um amigo da Galinha Pintadinha, um personagem do programa Cocoricó, da TV Cultura, ou um palhaço com programa traço de audiência na Rede Vida (“olááá, amiguinhos! Eu sou o palhaço Pixuleco!”).

A Folha de S.Paulo lembrou que um termo semelhante, “pixulé”, aparecia nos contos do grande cronista da malandragem que foi João Antônio (1937-1996) e significava “dinheiro miúdo”. Mas o pixuleco da Operação Lava Jato, além de nada miúdo – Pessoa declarou ter pago a Vaccari quase 4 milhões de reais -, parecia transformar a propina alegadamente cobrada para abastecer os cofres do partido do governo numa coisa fofinha.

(Crédito: Reprodução/Wikipedia)

Fazia sentido, portanto, que o próximo passo na infantilização do noticiário político fosse a segunda coisa mais legal das festinhas de criança, atrás apenas do brigadeiro: balões. Assim, em 16 de agosto, menos de dois meses depois da delação premiada do “Miele do mal”, a grande atração das manifestações contra Dilma Rousseff não foi nenhum líder de protesto que até anteontem estava no jardim de infância se entupindo de brigadeiro, mas um balão gigante: o próprio criador de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, vestido de presidiário e com uma bola de chumbo no pé, revelado ao mundo na manifestação em Brasília.

Logo o bonecão passou a ser conhecido pelo único nome possível, Pixuleco (ou Pixuleko, grafia que não entendo, a não ser que a intenção seja encher o nome de k e y até transformá-lo em algo que uma boate gay na região do Minhocão, em São Paulo, poderia adotar: “Pyxulekku¿s”. Mas divago, desculpem). As redes sociais deitaram e rolaram – em 24 horas, havia tuítes, posts, montagens e piadas suficientes para abastecer as colunas de humor dos jornais por um mês. Eu mesmo, com a ajuda de uma amiga que, diferentemente de mim, não é analfabeta em Photoshop, cometi uma adaptação da capa de Animals, álbum do Pink Floyd, com o Lulinha inflável flutuando por entre as chaminés. (Roger Waters talvez não aprovasse, mas… paciência.)

Fiéis da religião lulista, como era de esperar, ficaram ensandecidos com a profanação do santo – por não serem nem nascidos no fim dos anos 1990, quando um bonecão inflável de FHC se fazia presente em protestos da CUT, ou por serem impermeáveis a qualquer tipo de humor. Alguns questionaram o custo do Pixuleco (12 mil reais, ou 0,3% do que Pessoa diz ter pago a Vaccari); outros quiseram ver a nota fiscal do boneco, exigência algo surrealista se recordarmos que na origem da história toda está um tipo de transação que não costuma incluir recibo. Outros ainda, como uma estudante de direito de São Paulo, passaram da indignação à ação e esfaquearam o boneco, num gesto celebrado como uma “resposta aos fascistas” – não sei vocês, mas ainda me lembro do tempo em que lutar contra o fascismo era mais que furar um balão.

Fotomontagem de Marcelo Tavares, sobre foto de Madalena Leles, para a matéria “Pixuleco – O Homem do Ano”, da revista VIP.

Alguém mais sensato comentou que o Pixuleco era, de longe, o nome mais carismático da oposição, o que é facilmente constatável pela proliferação de suas versões em miniatura. Não duvido que o bonecão se saísse melhor que Aécio e Marina juntos se pudéssemos votar nele. E até melhor que seu inspirador: o Pixuleco não fala (o que já nos pouparia de coisas como Dilma saudando a mandioca ou elogiando as mulheres sapiens) nem faz discursos com um “nunca antes neste país” e uma comparação com FHC (“inveja do meu sucesso”) por minuto.

O que os odiadores do boneco não conseguem ver é que ao fim e ao cabo o Pixuleco ficou sendo, mais que a personificação das acusações (ou insinuações) contra o ex-presidente – ou do desejo de seus detratores de vê-lo atrás das grades -, uma espécie de carnavalização do petrolão. A corrupção na Petrobras é coisa feia urdida por gente grande, mas o boneco do Lula com roupa listrada é bonitinho: brincadeira de criança na versão míni, Carnaval de Olinda na versão inflada. Dá para escutar ao fundo, como um mantra que resume o país, a clássica frase de O Bandido da Luz Vermelha (“quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha”).

Se eu conheço o Brasil – e minha convivência compulsória com esta terra de samba e pandeiro já dura mais de quatro décadas -, a tendência para os próximos anos é, além da inflação em si, uma inflação de bonecos gigantes de Dilma (que já deu as caras), Aécio, Alckmin, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e outras figuras da gloriosa política nacional, transformando o país num perene Carnaval de Olinda fora de época.

Minha bola de cristal meio embaçada também me diz que, concluída a Lava Jato, será possível mudar o lema da bandeira de “ordem e progresso” para “crime ocorre nada acontece feijoada” – ok, eu não esperava viver para ver donos de empreiteiras presos, mas temo que o máximo que podemos almejar é a situação que Pete Townshend definia como “meet the new boss, same as the old boss”.

Espero estar errado, mas otimismo é um esporte que os médicos não recomendam para gente da minha idade.

*Está matéria foi publicada em Dezembro de 2015 (Edição VIP-370) da revista VIP