Por que Wendell Lira trocou o campo pela tela do videogame?

Ele trocou a Fifa, a organização, pelo o Fifa, o game. Entenda mais sobre as motivações desta drástica mudança de campos

Por Leandro Beguoci

Wendell Lira não é um craque, mas entrou para a história do futebol mundial. Ele ganhou, em 2015, o prêmio Puskas. É algo para poucos, pouquíssimos. Coisa para Cristiano Ronaldo, Neymar e Ibrahimovic, vencedores recentes da honraria dada pela Fifa ao autor do gol mais bonito do ano. Para um atleta que fez carreira em Goiás, o troféu vale como um raio num dia de céu azul. Uma oportunidade inigualável na carreira. Um jeito de mudar de vida.

 Porém, Wendell desistiu. Trocou a Fifa, a organização, pelo o Fifa, o game. Trocou o gramado pelo videogame, o campo pelo console. A partir deste ano, ele é atleta profissional – dos campeonatos de games de futebol. Vai jogar contra uma legião de pessoas que só conhece gramados de pixels.

 Wendell desistiu por duas razões. Primeiro, porque a promessa do prêmio não se efetivou. As lesões o impediram de ter uma sequência de partidas e, quem sabe, completar o sonho brasileiro: o atleta que superou o anonimato, atingiu o brilho e manteve o brilho por algum tempo. O segundo motivo é o talento na tela. Quando foi receber o prêmio Puskas, ele aceitou o desafio do então campeão mundial de Fifa. Jogando com o Real Madrid, ele goleou o rival, que estava com o Barcelona, por 6 a 1. Ele viu mais perspectivas em jogar futebol com as mãos do que com os pés.

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Wendell ainda é jovem. Tem 27 anos. Numa época em que os atletas conseguem ir tranquilamente até os 35, dá para dizer que ele teria pelo menos mais 7, talvez 8 anos de carreira nos gramados pela frente. Por isso, ao abandonar os estádios, ele entra pela segunda vez na história do futebol mundial. Quem sabe, daqui a alguns anos, a gente se lembre dele como um marco, um turning point. Talvez o momento em que o virtual, no futebol, começou a ficar mais importante do que o concreto, o suor, a caneleira.

 Não sabemos o que vai acontecer, mas o movimento de Wendell é um marco. Aos poucos, o futebol está virando outra coisa. O jogo e o jogador, o campo e a torcida. Pouca gente imaginaria, em meados dos anos 1980, o que estamos assistindo hoje. Pouquíssimos acreditariam que atletas se olhariam no telão para conferir a belezura, que as cervejas seriam proibidas nos estádios, que as torcidas teriam regras de conduta e que as pessoas gritariam “senta!” durante uma partida no estádio. Mas tudo isso aconteceu.

Por isso, talvez um dia, a gente diga para os jovens “no meu tempo, não existia esse alvoroço pela Copa do Mundo de videogame”. E talvez Wendell Lira seja para essas pessoas o que Pelé foi para os nossos pais e avós… E aí a promessa do sonho brasileiro, de superação, terá se realizado – de uma forma real e virtual ao mesmo tempo.