Pós-luxo: a conscientização de que a riqueza está além da exclusividade

O après luxe, ou pós luxo, é um movimento de conscientização em um mercado para quem não quer ostentar e pensa no lado social e sustentável

pós luxo

 (Pixabay/Reprodução)

Considerado um setor imune à crise, o mercado de luxo precisa se reinventar. O calcanhar de Aquiles desse nicho tem sido a capacidade limitada de deslumbramentos.

E, na busca por provocar interjeições e atrair cifrões, vale até oferecer uma viagem de 12 dias em órbita em torno da Terra a bordo de uma estação espacial, como anunciou há pouco a americana Orion Span. Uma experiência de US$ 9,5 milhões.

A maioria dos ricos, no entanto, não é tão insaciável. Em boa parte das vezes, as pessoas se cansam do luxo pelo luxo, do consumo vazio de significado, e começam a buscar produtos que tragam outros valores agregados.

É nesse sentimento que algumas empresas apostam para atrair quem tem muito para gastar.

Quando projetou o Botanique Hotel & Spa, em Campos do Jordão, em São Paulo, a empresária Fernanda Ralston Semler tinha uma certeza: fundar um hotel de luxo que não se parecesse com os outros que conhecia pelo mundo.

Seu empreendimento seria um lugar com muita qualidade, mas onde as pessoas não ostentariam.

Pensando nisso, criou um movimento batizado de après luxe (ou pós-luxo), com uma certificação para objetos e serviços no Brasil e no mundo que atenda a critérios rígidos de qualidade de matéria-prima, autenticidade e originalidade.

Nele, há um manifesto que propõe um novo padrão de consumo.

 

Por dentro da ideia

Botanique Hotel & Spa O Botanique Hotel & Spa, local que marca a tendência

O Botanique Hotel & Spa, local que marca a tendência (Botanique Hotel & Spa/Reprodução)

O tipo de consumo que Fernanda descreve nesse manifesto, na verdade, sempre existiu e foi praticado na maior discrição pelo grupo restrito dos ricos tradicionais.

Ele inclui o mundo das peças feitas à mão, dos fornecedores especiais, de pequenos produtores, o consumo do “quem sabe sabe”, como resume a empresária. Um mundo que desperta curiosidade entre mortais que se esforçam para fazer parte dele.

Hoje, no entanto, essa tendência está mais forte. Nos corredores do Botanique Hotel & Spa, um hóspede raramente cruza com outro. Na sala de cinema, há apenas um sofá para um casal, apesar de haver espaço suficiente para dar uma festa.

As saunas e a piscina interna quase sempre estão vazias. Os únicos locais onde há concentração de pessoas são o restaurante e o jardim.

A exclusividade, o silêncio e o sossego são o maior luxo para os hóspedes, que pagam diárias de até R$ 5,3 mil.

Apesar de mirar o consumidor de mesmo poder aquisitivo que o mercado de luxo tradicional, nas mesas do jardim do Botanique, por exemplo, não se vê garrafas de Dom Pérignon.

E, na frente do hotel, não há carrão estacionado ou motos imponentes. Aliás, não há nenhum carro estacionado. Os carros são recolhidos e escondidos assim que os hóspedes entram na propriedade de 80 mil metros quadrados.

Por que, então, existem pessoas dispostas a pagar? Porque os móveis são de design, as paredes têm obras de arte de primeira linha – há um curador para isso, outro para a biblioteca, outro para o cinema e até um para águas minerais brasileiras.

“É o luxo com razão de ser. É caro porque requer pesquisa, desenvolvimento de produto, matérias-primas excepcionais”, diz Fernanda, que reconhece, no entanto, que há um bom número de pessoas que pulou o luxo dourado, principalmente jovens do mercado financeiro, e foi direto para o pós-luxo.

O prestígio do produto nacional costuma atrair o público do pós-luxo. O consumo consciente é um dos pilares dessa pompa, que vem depois do fastio com a gastança.

Nas diárias do Botanique, por exemplo, estão embutidos o custo das obras das estações de tratamento de água e o apoio a projetos sociais na região.

Na gastronomia, essa pegada social e ambiental vem crescendo exponencialmente. “Luxo é, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro poder comer em um restaurante que saiba exatamente de onde vêm todos os ingredientes”, diz o chef Rafael Costa e Silva, do Lasai, restaurante certificado pelo movimento pós-luxo e que conquistou cariocas e forasteiros com sua cozinha sazonal, orgânica, baseada na simplicidade e na pureza dos insumos.

Simplicidade não quer dizer preço baixo: o menu degustação dali custa a partir de R$ 295 por pessoa. “Ingredientes que venham de uma fonte o mais próxima possível: isto, sim, é luxo. Há muito tempo que o luxo deixou de ser caviar, foie gras ou lagosta.”

Segundo Gabriela Otto, professora de marketing do luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de São Paulo, esse mercado costuma se dividir em três segmentos, que ficaram conhecidos como os três “As”:

  • o luxo acessível, marcas mais baratas e mais fáceis de serem assimiladas;
  • o luxo aspiracional, no qual se encaixa boa parte das grifes;
  • e o luxo absoluto, no qual estão algumas marcas, como Rolls- Royce e Maybach, para carros, e Patek Philippe, para relógios.

“Em todos os segmentos, as pessoas consomem luxo por motivos que são divididos em dois grupos: os externos e os internos. Eu posso beber um champanhe numa balada e postar foto com a garrafa. Nesse caso, estou consumindo por motivos externos. Ou beber na minha casa, por puro prazer. Nesse caso, os motivos são internos. É o que chamamos de extra-values e intra-values. O pós-luxo seria o consumo dos intra-values.”

piscina isotonica

 (Mundo Viagem/Reprodução)

O mercado de viagens de luxo, os intra-values são a base do turismo de experiência. Um bom exemplo são os roteiros organizados pela Matueté, uma produtora paulista fundada há 16 anos com o objetivo de customizar viagens nacionais para um público de alto poder aquisitivo.

No início, esses roteiros eram voltados para o turismo de aventura, de contato com a natureza. Então, a produtora levava conforto e luxo, como lençóis de linho egípcio, para locais tão remotos quanto uma casa de ribeirinhos na Amazônia.

Hoje eles continuam vendendo experiências, mas trabalham com roteiros no mundo todo e nem sempre com o turismo de natureza.

O luxo tradicional, porém, continua passando longe dos pedidos. “Nunca é o luxo per si”, diz Gabriela Figueiredo, diretora da Matueté. “O cliente pode até querer alugar uma Ferrari, mas quer também que a gente descubra a melhor estradinha no Mediterrâneo para dirigi-la, quer saber onde está cada curva, onde é bom acelerar, onde parar para comer uma comida local deliciosa… O carro em si, para esse consumidor, não tem tanto valor porque ele tem acesso a esse tipo de veículo no dia a dia.”


Feitos para durar

Objetos de consumo certificados pelo après luxe reúnem atributos que não mudam com a moda: qualidade, durabilidade e design inteligente. Veja algumas marcas que passaram pela curadoria desse movimento

 

Alfaiates modernos

against-nature ny

 (Shopikon/Reprodução)

Os ternos do ateliê nova-iorquino Against Nature combinam a consistência da alfaiataria artesanal com o design moderno.

Fundada em 2009, a marca é fruto de uma colaboração entre quatro designers: os alfaiates Amber Doyle e Jake Mueser, o alfaiate de jeans Simon Jacobs e o joalheiro Ryan Matthew.

Um terno da linha bespoke é vendido a partir de US$ 3,2 mil.

É feito sob medida. Portanto, você tem de ir a Nova York para encomendá-lo.

 

Assinatura de valor

paulistano poltrona

 (Home Decore/Reprodução)

Projetada em 1957 pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, a poltrona Paulistano é uma das mais desejadas.

Uma peça original está na coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

A estrutura é composta de uma única barra de aço.

O assento e o encosto parecem flutuar. Hoje ela é produzida pela Objekto, empresa de origem brasileira instalada na França, que tem em seu catálogo outros nomes famosos como Flávio de Carvalho e Maurício Klabin.

A versão em vaqueta custa em torno de R$ 6 mil.

 

Quase eterno

Land Rover Defender

 (Quatro Rodas/Reprodução)

Para comemorar os 70 anos da empresa, a Jaguar Land Rover lançou uma reedição do seu modelo mais icônico, o Defender.

Foram produzidas 150 unidades do Land Rover Defender Works V8 a partir da reconstrução de Defenders seminovos, aos quais foram adaptados motor, suspensão e uma série de itens novos e mais modernos, aumentando muito a potência do veículo.

Esgotou em um mês. Nem veio para o Brasil.

Na Inglaterra, o preço começava em € 170 mil. Os outros modelos da Land Rover, disponíveis por aqui, também têm um perfil que agrada esse novo consumidor de luxo, o mais caro deles custa mais de R$ 1 milhão.

 

De olho no futuro

Percy Lau óculos

 (Percy Lau/Reprodução)

Os óculos da grife Percy Lau são conhecidos pela qualidade do material e pela inovação.

De Hong Kong, a marca foi fundada em 2013 e a designer homônima foi a mais jovem a ganhar o International Talent Support Award YKK, em 2013.

 

 

Originalidade em utensílios

ceramica Hideko Honma

 (Hideko Honma/Reprodução)

Dona de um olhar apurado, elegante e original, além de um trabalho de pesquisa profundo, a ceramista Hideko Honma cria peças como xícaras e vasos que são obras de arte.

 

Luxo líquido

Mondariz água

 (Termatalia/Reprodução)

A marca Mondariz carrega consigo prêmios e certificações, sem alarde ou ostentação, pela sua captação artesanal e extremamente cuidadosa com o meio ambiente.

Com sabor diferenciado, a água com gás Mondariz é elegante ao paladar, pois tem o número suficiente de bolhas para que se sinta o verdadeiro sabor da água mineral e com
gás natural.

 

Brilho intenso

maneco-quindere

 (Bontempo/Reprodução)

Maneco Quinderé aliou técnica à intuição para criar projetos de luz que, desde a década de 80, dominam a cena cultural brasileira.

Seu trabalho é uma combinação do minimalismo com o experimental.

 

Newsletter Conteúdo exclusivo para você