Quem são e como trabalham os novos CEOs do Brasil

O que une jovens líderes empresariais do Brasil? Pavor a e-mails e reuniões demoradas e estratégias que permitam, por exemplo, ir surfar no meio da semana

 (Divulgação/Revista VIP)

Os números são de deixar qualquer executivo com agenda apertada de cabelo em pé. Em média, recebemos 147 e-mails por dia e apagamos 71. Para eliminar cada um desses últimos, gastamos 3,2 segundos. Ou quatro minutos por dia.

Feitas as contas, lá se vão 16 horas por ano clicando no botão “excluir”. Os dados não descabelam Rogerio Salume – e não só porque ele não conserva um único fio de cabelo na cabeça.

Para não ficar refém dos e-mails, apontados como um dos principais vilões da produtividade no mundo corporativo, Salume, o CEO da Wine.com.br, adotou a seguinte estratégia: abre a caixa de correio apenas três vezes por dia.

Essa cultura de que tudo é para ontem, que não se pode visualizar uma mensagem no WhatsApp sem responder, é uma bobagem” Rogerio Salume, CEO da wine.com.br (Reprodução/Divulgação)

A primeira é logo ao chegar na sede na companhia, a poucas quadras da Praia do Canto, em Vitória. A segunda é após o almoço e a última, antes de encerrar o expediente.

“Essa cultura de que tudo é para ontem, que não se pode visualizar uma mensagem no WhatsApp sem responder, é uma bobagem”, justifica ele, que tem o hábito de deixar o celular na mesa enquanto circula pelo escritório. “É preciso ficar muito esperto para dar atenção só ao que importa”.

À beira dos 45 anos, Salume é um dos CEOs brasileiros mais respeitados de sua geração. Os números da Wine.com.br, da qual ele é sócio e fundador, explicam boa parte do prestígio.

Fundada em 2008, a companhia, que não dispõe de loja física e multiplicou de tamanho graças aos clubes de assinatura, fechou 2017 com um faturamento de cerca de 400 milhões de reais e cresce anualmente na casa dos dois dígitos.

Os associados são 140 mil e os clientes anuais da loja on-line, 450 mil.

O propósito da empresa é democratizar o consumo do vinho no Brasil. “Como se faz isso? Deixando de frescura”, defende Salume, baiano de Itabuna crescido em Salvador.

“Não tem taça para tomar vinho? Usa o copo de geleia, qual o problema?” Coincidência ou não, desde que a empresa abriu as portas o consumo per capita de vinhos finos no país, categoria que exclui o Sangue de Boi e dores de cabeça do tipo, subiu de 400 mililitros para 750 por ano.

“Criou-se a ideia de que só pode tomar vinho quem tem conhecimento. Taça de cristal e decanter são legais, mas só para quem quer se aprofundar. Estava muito chato esse meio”, pondera ele.

As estratégias e o jeito despachado do executivo – aliados ao bom desempenho da companhia – terminam de explicar por que ele virou uma referência entre os CEOs brasileiros.

Ou entre os jovens CEOs, já que a geração de Salume em nada lembra aquela do folclórico executivo workaholic, que de tanto trabalhar não raro terminava vítima de infarto.

Pergunte a qualquer presidente de empresa na faixa dos 40 anos o que ele mais detesta no mundo corporativo. A resposta, provavelmente, será esta: reuniões demoradas e desnecessárias.

Para evitá-las ao máximo, Salume instalou uma segunda mesa no seu aquário de vidro, um dos raros no escritório da Wine.com.br. Ela é ocupada, a cada dia da semana, por um dos diretores da empresa. “Assim consigo alinhar o que preciso com cada um deles de maneira rápida e natural”, afirma o CEO.

Direto ao ponto

A jornalista Barbara Soalheiro, mandachuva da consultoria Mesa & Cadeira, que ajuda empresas a resolver grandes desafios em prazos apertados, propõe uma solução talvez óbvia, mas não muito praticada, para garantir a total atenção dos presentes em reuniões estratégicas: a entrada de celulares é proibida.

Barbara Soalheiro, da consultoria Mesa & Cadeira (Reprodução/Divulgação)

Principalmente nos encontros com clientes dela, que podem durar até 70 horas, divididas em sete dias, até que o objetivo em pauta seja alcançado. Outra dica de Barbara: não chame para uma reunião ninguém que não precisaria de fato estar nela, para evitar falas desnecessárias.”

Ninguém está salvo

Empossado CEO da Aramis em 2014, o paulistano Richard Stad instituiu que quem encosta no celular durante uma reunião precisa desembolsar 20 reais. A quantia amealhada seria gasta depois numa happy hour.

Funcionário há uma década da grife fundada pelo pai dele, o francês Henri Stad, ele começou no estoque, dobrando roupa, e passou por diversas áreas antes de assumir a cadeira mais cobiçada.

A promoção ocorreu após a venda de 47,8% da companhia para a gestora de fundos de private equity 2bCapital, ligada ao Bradesco, que impôs a ele a seguinte condição: se, a cada dois anos, a grife não apresentar crescimento ou estiver desalinhada com a economia, ele está fora.

“Todos os meus diretores sabem dessa regra”, conta Richard.

A cultura da empresa sempre foi a de valorizar resultados, e não as horas sentadas em frente ao computador” Richard Stad, CEO da aramis (Reprodução/Divulgação)

Não que haja motivo para preocupação. Desde que Richard assumiu o comando da Aramis, a marca inaugurou cerca de 40 lojas – e no auge da crise econômica.

Hoje ela soma 77 unidades, parte delas franquias, e está presente em 630 lojas multimarcas. Já são 700 funcionários diretos e outros 300 indiretos. A meta atual é fechar 2019 com 100 lojas no país.

A rotina do executivo espelha o compromisso dos novos CEOs de não abrir mão nem da vida pessoal, nem da saúde. Richard pula da cama às 5h40 e passa uma hora brincando com o filho, de quase 2 anos.

A hora seguinte é gasta na academia ou num ringue de muay thai. O expediente no escritório é encerrado às 19 horas, para que ele possar voltar a tempo de ver o filho acordado.

“Acabo trabalhando um pouco em casa? Claro, mas sem problema algum, porque faço o que gosto e estou perto da minha família.” Vale para todos os funcionários? O executivo garante que sim.

Nem só de trabalho vive o homem

Para aumentar a motivação de seus funcionários, o CEO da Volvo Cars Brasil, Luis Resende, 37 anos, libera todos de trabalhar nas tardes de sexta. “Quando, por algum motivo, precisamos que alguém trabalhe nesse período, a sensação é a de estar pedindo um favor, como se fosse um domingo”, conta.

Luis Resende, chefão da Volvo no Brasil (Pedro Bicudo/Reprodução)

A companhia também mima sua equipe com frutas à vontade, aulas de inglês durante o expediente, pagas pela empresa, e um confortável mobiliário sueco.

No cargo desde janeiro de 2014, Resende foi responsável pela ampliação do portfólio da montadora no país. Trouxe novas versões dos utilitários esportivos XC90 e XC60 e, em abril de 2018, apresentará o recém-lançado SUV compacto da marca, o XC40.

A previsão para 2017 era vender 3 500 unidades, a mesma cifra do ano anterior. Trata-se de uma vitória. “Significa que ampliamos nossa participação no mercado, já que o segmento de carros premium encolheu nesse período”, explica o CEO.

Para debater o que os novos líderes empresariais têm em comum, a Casa do Saber criou no ano passado o curso “A Nova Geração de CEOs”.

Ministrado na unidade paulistana da escola de cursos livres, que também conta com uma filial no Rio de Janeiro, teve duas edições e envolveu empresários como Frederico Trajano, do Magazine Luiza, Carlos Jereissati Filho, do Grupo Iguatemi, Paulo Kakinoff, da Gol Linhas Aéreas, e Eduardo Fischer, da MRV Engenharia.

Este último conversou com a reportagem da VIP logo após sua palestra, regada a taças de vinho e petiscos, como de praxe na Casa do Saber. “Se alguém disser que dá para virar CEO e não trabalhar mais está mentindo”, disse ele, que divide a função com Rafael Nazareth Menin Teixeira de Souza.

Aos 44 anos, Fischer está à frente de uma das maiores incorporadoras imobiliárias do país. Fundada por um tio dele, o empresário Rubens Menin, a companhia é um gigante que emprega por ano cerca de 18 mil pessoas e lucrou 557 milhões de reais em 2016.

“A principal preocupação de um líder hoje deve ser a disciplina e a priorização do que é mais importante”, resume ele, que não larga de um caderninho no qual anota as tarefas mais urgentes.

“Quando chego ao escritório, mais cedo que quase todo mundo, a primeira coisa que faço é resolver as pendências mais importantes. Porque logo virá um caminhão de novos problemas”, afirma.

Lucas Mello, CEO da agência LiveAD (Reprodução/Divulgação)

CEO da agência digital LiveAD, Lucas Mello, 36 anos, há sete não marca nenhum compromisso às segundas-feiras entre 8h e 14h. Ele dedica esse intervalo para ficar em casa, dando conta do trabalho que sobrou da semana anterior e traçando metas para a que acabou de começar.

Resultado: suas semanas agora são bem mais produtivas. O hábito deve ser bastante eficiente.

Ou o executivo, que mora em São Paulo, não teria o costume de passar, em média, uma manhã por semana em alguma cidade no litoral paulista surfando com os amigos. Pode ser qualquer dia útil. Basta a previsão indicar boas ondas.