Viciados em Networking

Nós tecemos o tempo todo – conscientemente ou não – contatos com pessoas que um dia nos poderão ser úteis. Será que a nossa vida privada e as nossas ideias sobre amizade estão minadas pelo networking? Acompanhe agora uma visita guiada pelo mundo do capitalismo social

Festa significa que existe a possibilidade de cometer excessos: música alta, muito álcool. Mais pessoas que espaço, mais amigos que inimigos. Simples assim. Mas a noite em questão foi um convívio algo tenso após um dia de trabalho, que curiosamente se realizou num bar. Eu estava encostada no batente da porta e conversava com uma jovem fotógrafa. Falávamos sobre contratos, pagamentos por trabalhos, preocupações que um freelancer tem. A jovem era simpática, a nossa conversa fluía sem nenhum problema. Era o que eu pensava. A sua atenção já tinha ido embora antes do que ela. Primeiro, o seu olhar procurou algo no espaço. Depois, começou a ficar inquieta; e, por fim, o inevitável: “Você me desculpe, mas vou ali só dizer ‘oi’ ao Marc”.

Revendo a situação, relativizei: pelo menos ela não utilizou o pretexto de ter que ir ao banheiro. Marc era, como eu descobri duas cervejas mais tarde, chefe de uma empresa de design gráfico e que, no ranking da fotógrafa das pessoas mais importantes para conversar, figurava num lugar bem mais alto do que eu. Vi a fotógrafa durante bem mais tempo brincando com o Marc, o “Garanhão do Design”. Ela ria, jogava a cabeça para trás. Mensagem que passava a todos: estou me divertindo muito e amanhã já tenho um contrato de trabalho.

Tirando a minha própria vaidade, difcil de engolir, de não ser uma tão lucrativa companheira de conversa, algo diferente me irritava: o desagradável sentimento de já ter feito a mesma coisa. De ter abandonado pessoas no meio de conversas, à procura de mais glamour e mais vantagens.

Há anos que sociólogos e psicólogos pregam a importância de mais contatos na nossa vida social. Na Alemanha, estudos mostram que 37% de todos os trabalhadores devem o seu emprego a uma forma de network. Nos Estados Unidos, o número chega a atingir os 75%. Eles dizem: referências e recomendações, independentemente de serem formais ou informais, são para os chefes de departamentos mais importantes que as notas da universidade. Eles insistem: não interessa mais o que você sabe, mas sim quem você conhece. Posto de outra maneira: o seu capital social decide se você fica com a vaga ou não. Quanto mais ligações com mais pessoas heterogêneas você tem, mais provável é que um dia você tire vantagens profissionais disso.

As ligações tradicionais desintegraram-se na sociedade individualista. No seu lugar apareceram estruturas rápidas e frágeis que podem ser removidas rapidamente. “Muitas vezes são apenas para uso a curto prazo”, diz Hermann Strasser, professor de sociologia na Universidade de Duisburgo-Essen. Famílias grandes, sindicatos, igrejas, clubes eram contratos para a vida toda que nós rescindimos há muito tempo. Como refúgio, encontramos círculos de conhecidos e ligações frágeis.

Nas pseudofestas, nas quais apenas cartões de visita são trocados, as pessoas se comportam como se estivessem numa cozinha grande, cheia de rumores, onde se alimentam com informações úteis. É mais rápido que procurar contatos na internet, mais perto que um caminho até uma agência de emprego – e com melhores bebidas.

Isso tudo tem seu lado detestável. Temos que aturar pessoas oportunistas que consideram seus currículos uma obra de arte. No escritório, convivemos com os insuportáveis puxa-sacos dos chefes. O capital social mina o desempenho e a ética profissional. Nós consideramos injusto quando alguém menos qualificado passa à frente apenas porque tem melhores contatos. Mas possivelmente essa ideia de meritocracia não é apenas utópica como também errada. “Na vida, especialmente no mundo do trabalho, não podemos desconsiderar os relacionamentos entre humanos”, diz Jörg Fengler, psicólogo da Universidade de Colônia. “Viver significa manter esses relacionamentos. Não é apenas desempenho”, acrescenta Fengler.

Mesmo quem moralmente considera errado o networking enche rapidamente a agenda telefônica do celular. Já há muito tempo interiorizamos o que o sociólogo Mark Granovetter descreveu como “a força das relações fracas”. Em 1973 ele descobriu que quem tem sucesso no mercado de trabalho são principalmente as pessoas com muitas relações – mas relações pouco emocionais. Quem tem relações mais soltas comunica mais, e quem comunica mais ouve primeiro as oportunidades. O professor de sociologia Hermann Strasser diz: “O importante não está na amizade, mas sim no lucro”. Lucro em forma de conhecimento que as pessoas com o maior círculo de amizades possuem.

O risco do capital social é receber um carimbo de “mal agradecido”. “Quem não pode, em algum momento, retribuir o favor não irá sobreviver a longo prazo na rede”, diz Hermann Strasser. “Capital social”, “lucro”, “risco” – vocábulos associados à economia que agora são utilizados em algo que antigamente tinha o nome de “amizade”. Devemos analisar em termos de custo e benefcio os nossos relacionamentos? “Claro que fazemos o balanço”, diz o psicólogo Jörg Fengler. Como se o calculismo não tivesse lado mau: virar as costas numa festa para um grupo de pessoas quando um “alvo” entra na sala; o desconforto de ter que ser simpático com pessoas que consideramos idiotas.

Outro dia, foi o aniversário do meu amigo Jan. Ele convidou alguns colegas de trabalho e os chefes. Jan trabalha há pouco tempo numa agência, um bom trabalho. Começou como freelancer e após vários anos conseguiu ser efetivado. Um velho amigo do Jan, Tobias, chegou como sempre um pouco tarde – ele gosta de ser recebido com pompa. Desde o momento que ele entrou na sala, foi possível vê-lo apenas em diálogos e apertos de mão. “Ah, você também veio, eu sou o Tobias, amigo do Jan, eu trabalho em blablablá.” Tobias falou com todas as pessoas com as quais poderia adquirir algum benefcio – ignorando apenas o anfitrião. A sacola com o presente para Jan ficou guardada debaixo do braço. Só deu os parabéns ao amigo quando a festa estava quase no fim. Diagnóstico: Tobias é um viciado em contatos (um viciado em fase terminal).

Um contato requer trabalho e atenção. Ele tem que ficar ativo. O kit para cuidar dos contatos para capitalistas sociais são comunidades virtuais, como o Facebook, o Linkedin ou até mesmo o Orkut.

A diferença entre essas redes da internet está no nível de encenação que cada um de nós é capaz de realizar: se eu enceno a minha vida privada, isso significa adicionar posts engraçados sobre o meu tempo livre e questionar gostos alheios. Se eu enceno para mostrar que sou um trabalhador pronto para qualquer tarefa, então é necessário preencher com cuidado as informações sobre o meu atual trabalho e sobre o percurso da minha carreira até aqui.

No fim das contas, a fronteira entre a vida pessoal e a profissional está sumindo. E há áreas em que esse fenômeno é ainda mais forte que em outras. Por exemplo, as atividades ligadas à comunicação e à criatividade. Foram principalmente os eufóricos representantes da New Economy que levaram essa redução de fronteira ao auge, com intenção de se divertir a toda hora: durante o dia, com uma boa ideia com a qual se pode ganhar milhões, e à noite, festejando com a turma numa happy hour e criando ainda mais contatos.

A vida profissional se alterou. O trabalho não é mais visto apenas sob o prisma da segurança material. Nas cerca de 70 mil horas que uma pessoa trabalha na vida, é cada vez mais importante conviver com pessoas que consideramos simpáticas e com as quais partilhamos algo mais do que a aversão ao café da lanchonete da empresa. E porque atualmente qualquer “contato” pode passar a ser um “colega”, pensamos que não podemos destruir a rede tecida – e não podemos mais virar as costas, na festa, para pessoas que têm o carisma de uma máquina de café e cospem quando falam. No final, também vamos adicionar o seu número na nossa agenda.

Um olhar para a nossa lista de contatos revela como ela engordou com o tempo. Algumas perguntas cada um de nós precisa responder a si próprio: 1) É mesmo necessário recolocar na nossa vida um colega de escola por meio de uma comunidade na internet? 2) Devemos mesmo juntar números e e-mails sem qualquer seleção prévia?

Apesar dessa multiplicação na rede de contatos, a filósofa Hilge Landweer acredita que ainda temos a percepção de quem é realmente um amigo. “Os filósofos da Antiguidade chamavam ‘amizade’ o sentimento de querer estar perto, de querer ver. Isso ainda hoje acontece, mesmo quando no lugar de querer ver está o querer saber onde está e o que faz.”

Faz pouco tempo, ajudei meu amigo Thomas a mudar de casa. E então ele teve um daqueles momentos de honestidade exacerbada: “Quando eu olho para o meu círculo de amigos, diferencio entre amigos e pessoas que me podem ser úteis no trabalho, ou então numa mudança”. Thomas riu e eu quase deixei cair a caixa com livros que tinha na mão. “Eu normalmente não digo isso às pessoas, é essa a base do sucesso.” Por sucesso, pensei eu, ele se referia a mim e aos outros cinco que estávamos carregando os seus móveis para o terceiro andar.

Claro que todo mundo tem amigos que em determinadas situações podem ajudar. Por exemplo, aquele advogado que nos ajuda a escrever uma carta com detalhes jurídicos. Ou o especialista em PCs que mesmo à noite aparece para formatar o disco rígido. A pergunta é: ainda se pode falar de amizade quando uma das pessoas persegue um interesse? Uns 2 500 anos antes do surgimento do Facebook, Aristóteles escreveu em Formas de Amizade e de Felicidade: “Amigos que têm o benefcio próprio como interesse separam-se assim que o apoio termina. Esses não estão ligados pela amizade, mas pelo lucro”.

Quando amigos nos fazem um favor, há muitas vezes por trás disso a nossa própria insuficiência – geralmente preguiça ou incompetência. Pequenos favores colocam a amizade em tensão, mas geralmente não a põem em perigo. O sociólogo Hermann Strasser fala de contas de cortesia, que vamos acertando com nossos semelhantes. “Se ao longo do tempo uma pessoa só vai dando sem nada receber, a relação não funciona e está condenada ao fracasso”, diz. Também pode durar anos, até uma conta ficar esgotada e começar a cobrar juros.

Entre mim e o Thomas foi diferente. No fim da mudança nos sentamos em caixas no seu novo apartamento, bebendo cerveja. Estávamos contentes, exatamente como os amigos devem ficar quando conseguem fazer algo juntos. Foi divertido ajudar o meu amigo. “Para tudo o que nós fazemos sempre estamos à espera de alguma coisa útil”, disse o psicólogo Jörg Fengler. Enquanto estávamos sentados, pensei mais uma vez na confissão do Thomas. Dentro de alguns dias aconteceria a final do campeonato de futebol, e os ingressos estavam esgotados havia tempos. Mas eu sabia: há uma pessoa que tem sempre um ingresso a mais. Eu teria sido demasiado burra se não tivesse levado umas cadeiras até o terceiro andar.

Dez passos do networking campeão *

1 Mantenha sua agenda sempre atualizada.

2 Estabeleça uma forma de contato permanente com seus colegas e superiores (por exemplo: mandando notícias ou artigos interessantes).

3 Mantenha contato profissional com eles por meio das mídias sociais (Facebook, Twitter, LinkedIn).

4 Compareça a eventos profissionais e sociais frequentados pelo pessoal do trabalho.

5 Tente estar presente em reportagens ou artigos da mídia especializada como entrevistado ou como autor.

6 Tire um tempo e escreva um livro sobre sua área.

7 Responda a todos os contatos profissionais com cordialidade e respeito.

8 Apoie, ajude e colabore com as pessoas.

9 Mantenha contatos em associações profissionais e participe de grupos de estudo.

10 Não negligencie ações sociais. Participe delas – principalmente as promovidas por sua empresa.

*Dicas de José Valério Macucci, mestre em planejamento, organização e recursos humanos pela Fundação Getulio Vargas e professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa)