Weinstein não é o único: Hollywood é um berço de abusos sexuais

A cada dia, uma vítima se apresenta e mais um assediador é deflagrado. Enfim, homens proeminentes, como Ben Affleck e Oliver Stone, estão na linha de fogo

(Getty Images//VIP)

Em pleno domingo, a Weinstein Company  tomou o seu passo mais audaz. Não me refiro a um acordo para girar mais um blockbuster, mas ao ato de demitir sumariamente seu seu co-fundador Harvey Weinstein. 

No dia 5 de outubro o jornal New York Times revelou em primeira página as acusações de assédio sexual contra o Sr. Weinstein desde 1990.

Bastou um sinal de fumaça para que mais mulheres apresentassem queixas semelhantes contra o produtor, que se defendeu dizendo que “seus modos eram os de um ‘dinossauro’ que aprendeu a se comportar assim em outras épocas”. 

Menos de uma semana passou e em 10 de outubro começaram a surgir nomes de peso na investigação. As atrizes Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie disseram ao próprio NYT que estavam na lista de vítimas. Boom! Foi um tiro de canhão. 

Harvey Weinstein e Gwyneth Paltrow

Harvey Weinstein e Gwyneth Paltrow (The Edge/Reprodução)

Conhecido por seu ativismo, que ajudou a moldar a indústria americana cinematográfica moderna, Weinstein perdeu credibilidade. Pior: abriu um buraco negro no obscuro universo do assédio sexual.

Um movimento viral engajado pela hashtag #metoo (eu também, em tradução livre) escancarou a porta para mulheres bradarem em milhares de tweets sobre suas experiências com outros homens proeminentes.

Aqui estão os acusados que surgiram após o terremoto de um dos maiores magnatas de Hollywood. Em pleno século 21, eles ainda existem.

 

Ben Affleck

Apesar de você gostar ou não do ator/produtor/roteirista/diretor, ele é um homem relevante em Los Angeles. Além de ser o atual Batman nas telonas, Ben é dono de dois Oscar.

Ben Affleck

(Stuart C. Wilson/Getty Images)

Prêmios que não condizem com seu comportamento, segundo a atriz Hilarie Burton, que o acusou de apertar seus seios quando ela tinha 18 anos.

Aqui, um crime com provas.

No vídeo ela diz: “Ele passa os braços por trás de mim e agarra meu seio esquerdo”. Em seguida, completa: “Ele usa esse truque”. O clipe voltou à tona após a própria relembrar o caso, que ocorreu no programa Total Request Live. 

Affleck não demorou e se desculpou por meio do seu perfil: “Eu agi de maneira inapropriada com a Senhorita Burton e peço sinceras desculpas”.

Caso encerrado? Não. Em seguida, surgiu a maquiadora Annamarie Tendler afirmando que também entrou em maus lençóis com Ben. Em uma série de tweets, ela acusou o astro de “apalpar seu traseiro” durante a festa do Globo de Ouro 2014.

Relatou a situação como: “Ele passou por mim na festa, pôs a mão nas minhas nádegas e tentou colocar o dedo no meio delas”. 

Foi além: “Eu adoraria ganhar um pedido de desculpas de Ben Affleck”. O ator não comentou as alegações de Tendler e sua assessoria não quis responder sobre o caso.

Affleck é amigo pessoal de Weinstein. Ambos trabalharam juntos no drama Gênio Indomável, um dos mais importantes da carreira da dupla — junto com o ator Matt Damon.

Harvey Weinstein e Ben Affleck e Matt Damon

(Film Independent//Divulgação)

Na sequência, apareceu mais um vídeo constrangedor: a repórter canadense Anne Marie Losique lembrou de uma entrevista realizada em 2004, na qual o artista aparece embriagado e puxa a moça para seu colo e fala atrevidamente dos seios dela.

“Todos irão gostar mais se você fizesse esse programa de topless”, ele diz. Pelo visto, essa história não chegou ao seu capítulo final. 

 

Presidente George H. W. Bush (o pai)

Para ter uma dimensão do problema, ele respingou até na Casa Branca.

A revista americana People publicou uma entrevista com a atriz Heather Lind, que acusa o ex-presidente dos EUA George H.W. Bush (1989-1993) de ter passado a mão em seu traseiro em duas ocasiões, além de ter lhe contado uma “piada obscena”.

Presidente George H. W. Bush

(Al Bello/Getty Images)

A história brotou assim que Heather usou seu Instagram para relatar o incidente, que aconteceu enquanto ela posava para uma foto com Bush pai durante a promoção da série televisiva TURN: Washington\’s Spies, em 2014.

O ponto baixo? Ela apagou a foto onde contava do ocorrido. 

Ali, ela detalhou que estava de pé ao lado do ex-presidente, que tem 93 anos, quando ele, sentado em uma cadeira de rodas, “lhe apalpou” por duas vezes. O inacreditável? Segundo ela, a esposa, Barbara Bush, estava ao lado. 

AMC Heather Lind Bush

Na foto, o elenco do programa da AMC, com o Presidente George H.W. Bush, a esposa Barbara Bush e Heather Lind. (NBC/Divulgação)

O porta-voz de Bush, Jim McGrath, não demorou para responder à imprensa. “Nunca, sob nenhuma circunstância, ele causaria intencionalmente angústia a ninguém.” Ao tentar enterrar o assunto, emendou: “Geroge pede desculpas sinceras se sua tentativa de humor ofendeu a senhora Lind”.

O tema estava quase superado, quando Obama, sem intenção, jogou lenha na fogueira.

Last night, the ex-Presidents got together in Texas to support all our fellow Americans rebuilding from this year’s hurricanes. We’ve seen a lot of hardship and heartbreak in Texas, Florida, Puerto Rico, and the Virgin Islands. But in the darkness, we’ve seen shining examples of what’s best about America. Neighbors pitching in to help their neighbors, veterans dropping in to help people they’ve never met, Americans taking care of one another, looking out for one another, without regard for what we look like, where we come from, or how we pray. If you want to know who we are, what America is, how we step up when required – that’s it. Selflessly. Compassionately. Without fear. And for as long as it takes. Find out how you can help at OneAmericaAppeal.org. Photo by @PeteSouza

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Lind novamente usou seu Insta para mostrar que ficou incomodada depois de ver Barack cumprimentando e dando atenção ao ex-presidente em um evento. No post, escreveu: “O que me consola é que eu também posso usar o meu poder, que na realidade não é tão diferente do de um presidente”.

Estranhamente este foi outro registro excluído de seu perfil. Resta agora confabular atrás de uma explicação.

 

Terry Richardson

O mundo das passarelas também foi afetado. Terry Richardson é certamente um dos fotógrafos de moda mais reconhecidos do mercado.

Estão no seu portfólio contribuições para marcas como Hugo Boss, Levi’s, Gucci. Editorias para Rolling Stone, Harper’s Bazar, Penthouse.

Do outro lado da fama, no entanto, existe um homem que coleciona denúncias de assédio sexual desde 2001.

Terry Richardson

(Dimitrios Kambouris/Getty Images)

Aparentemente o caso Weinstein reacendeu os problemas de Richardson com modelos. Os holofotes viraram para o americano que foi sumariamente banido de trabalhar para um dos maiores grupos internacionais de edições de revistas. 

The Telegraph revelou, em primeira mão, um e-mail do vice-presidente executivo da Condé Nast International desnudando a decisão da empresa: “Estou escrevendo para falar de algo importante. A Condé Nast não vai mais trabalhar com o fotógrafo Terry Richardson. Qualquer ensaio fotográfico que tenha sido encomendado ou qualquer ensaio que já tenha sido feito, mas que não tenha sido publicado ainda, deve ser descartado e substituído por outro material”, diz. 

Um choque. Nova-iorquino de 52 anos, Richardson trabalha há mais de 20 anos como o homem atrás das lentes, inclusive de personalidades da música, como Miley Cyrus, no clipe ultrassexual “Wrecking Ball”. 

 

A resposta veio através de um representante. “Terry está desapontado por saber sobre este e-mail, especialmente porque ele já abordou essas velhas histórias”.

Como ponto final, o porta-voz escreveu: “Ele é um artista que foi conhecido por seu trabalho sexualmente explícito, tantas de suas interações profissionais com assuntos eram de natureza sexual e explícita, mas todos os assuntos de seu trabalho participaram consensualmente”.

Trigger warning ⚠️. He complained I was rude. #MyJobShouldNotIncludeAbuse

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Semana passada, a modelo Cameron Russell convidou suas colegas a dividir experiências de agressão sexual em sua conta no Instagram.

Ela recolheu mais de uma centena de depoimentos. Embora alguns esteja com os nomes apagados, por uma questão de privacidade e segurança, refletem comportamentos semelhantes aos do fotógrafo com suas profissionais. 

 

Oliver Stone

Não demorou para a bronca também bater na porta do diretor Oliver Stone.

Um dia depois de defender Harvey Weinstein (dá para acreditar?) sobre a série de acusações de abusos sexuais, ele acabou entrando na mira de uma investigação após relatos de Carrie Stevens, uma coelhinha da Playboy na década de 90.

Oliver Stone

(Michael Campanella/Getty Images)

“Eu sou um forte defensor de que precisamos esperar até que isso venha a julgamento”, disse Stone em uma entrevista coletiva na abertura do Festival de Cinema de Busan, na Coreia do Sul.

Ao The Guardian, Carrie disse: “Quando ouvi sobre o caso de Harvey, lembrei do Oliver passando por mim e pegando nos meus seios enquanto ele deixava uma festa. Eles [Stone e Weinstein] são farinha do mesmo saco”. 

Já ao The Hollywood Reporter, a modelo deu mais detalhes sobre o episódio e justificou porque demorou 26 anos para trazer o caso ao público: “Aconteceu em uma festa de homenagem ao filme ‘JFK'(1991) dirigido por Oliver. Era na casa de Ted Field (produtor de cinema). Ao me ver, Oliver esticou as mãos, mas ao invés de fazer o que uma pessoal normal faria, cumprimentar, ele apertou meus peitos, sorriu e saiu. Foi humilhante, mas eu me calei e não reclamei na hora. Não falei nada pois era nova na cena de Hollywood e não queria que o anfitrião pensasse que eu era ingrata ao convite”.

Carrie Stevens

Carrie Stevens em um evento da Playboy em 2015 (Charley Gallay)

Na mesma entrevista completou: “Hoje penso em milhões de razões pelas quais as meninas não falam. Graças a Deus, eu nunca fiquei sozinha com o Oliver Stone. Se ele me apalpou assim na frente das pessoas, imagine o que ele faria em particular se tivesse a chance”. 

Aos 71 anos, Oliver Stone soma três Oscars e inúmeras indicações. Falando em nomeações, Carrie não foi a única a reclamar de atitudes inapropriadas do cineasta. 

No Twitter, a atriz Patricia Arquette, vencedora do Oscar por Boyhood, citou um encontro estranho com Stone, que envolve flores, um filme sexual e um namorado indesejado. Veja a sequência postada: 

“Anos atrás, Oliver Stone queria que eu fizesse um de seus filmes. Nós conversamos sobre o material em uma reunião. O material era muito sexual, mas a reunião foi profissional”.

“Depois, ele enviou rosas. Não é algo tão incomum, mas algo sobre as rosas parecia estranho. Eu optei em ignorar”

“A coisa estava ficando estranha, então eu levei meu namorado para a estreia. A sessão estava lotada. Oliver me encontrou na entrada do banheiro”.

“Ele perguntou porque levei meu namorado e eu respondi: ‘Por que seria um problema trazê-lo? Isso não deveria ser um problema. Pense melhor, Olivier’”

Stone não comentou publicamente as alegações de Stevens ou os comentários de Arquette. Mais um que ficou calado.

 

John Besh

Entre na página da Wikipedia  do cozinheiro John Besh. Na primeira linha aparece o currículo: chef de cozinha, personalidade de TV, filantropo, restaurateur e autor de livros (culinários). O reflexo de um homem de sucesso.

Sobre a família, a linha: nascido no Mississippi, casado desde 1991 com Jennifer Besh e quatro filhos. 

John Besh

(Paul Zimmerman/Getty Images)

O nosso assunto aparece no terceiro bloco da página, ali denominado “Controvérsia sobre conduta sexual”.

Uma investigação publicada pela NOLA.com | Times-Picayune confidenciou que 25 mulheres afirmara serem vítimas de assédio sexual por colegas e chefes do sexo masculino enquanto trabalhavam em restaurantes de Besh. 

Uma ex-funcionária prestou uma queixa à Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego, onde dizia que manteve uma relacionamento quase que exclusivamente sexual com o chef, e que enfrentou retaliação de outros funcionários quando tentou acabar com a relação. 

À imprensa, Besh jurou que se tratava de uma relação consensual e mostrou remorso: “Peço desculpas a qualquer um, no passado e presente, que tenha trabalhado para mim, que considerou meu comportamento inaceitável”.

John Besh

(Neilson Barnard/Getty Images)

Em seguida, o conselheiro geral do Grupo Besh Restaurant também falou: “Todos da empresa estão plenamente conscientes dos procedimentos humanos, para proteger contra qualquer um que se sinta ameaçado, um espaço para ouvir preocupações sem retaliação”.

Besh, no dia 24/10, admitiu uma relação extraconjugal, negou a existência de uma cultura abusiva em sua empresa, que conta com 1.200 funcionários, e pediu “demissão” da sua organização.

Falou: “Esse é um bom momento para concentrar todas as atenções à minha família”.

Mais um discurso pronto.

 

A lista continua…

Pensa que acabou? Não importa o ramo, figuras públicas dos mais variados ramos estão no centro de uma tormenta chamada “dia do juízo”.

— Reese Witherspoon relatou que tinha só 16 anos quando foi abusada pela primeira vez por um diretor. “Agentes e produtores que fizeram eu sentir que o silêncio era uma condição para manter meu emprego”

— Mark Halperin, jornalista norte-americano de 52 anos, admitiu ter assediado sexualmente várias mulheres, aproveitando-se da sua posição de poder enquanto estava na ABC News.

— A cantora islandesa Bjork também revelou que sofreu abusos de um diretor de cinema dinamarquês, sem citar o nome.

— Landesman Knight renunciou como editor da revista de arte Artforum no dia 25 de outubro, depois de pelo menos nove mulheres acusá-lo de assédio sexual em uma ação judicial. “Eu nunca amei intencionalmente ninguém. No entanto, estou totalmente empenhado em procurar ajuda para assegurar que meu comportamento com amigos e colegas seja irrepreensível no futuro”, disse a Artnet News.

— No dia 24 de outubro, Leon Wieseltier, editor da revista The New Republic, pediu desculpas após denúncias de abuso sexual. “As mulheres com quem trabalhei são pessoas inteligentes e boas. Estou com vergonha de saber que fiz com que algumas delas se sentissem desvalorizadas e desrespeitadas”, falou ao NYT

— Alice Glass assumiu ter abandonado os Crystal Castles, em 2014, por que o ex-companheiro de banda Ethan Kath abusou dela psicológica e sexualmente desde os 15 anos. “Claudio Palmieri (nome verdadeiro de Kath) era muito manipulador. Ele descobriu as minhas inseguranças e explorou-as: usou as coisas que aprendeu sobre mim contra mim”, disse a Vice

— Chris Savino, criador do desenho The Loud House (segunda maior audiência do canal), foi demitido pela Nickelodeon após várias denuncias de abuso sexual.

— Marilyn Manson despediu o membro de sua banda Jeordie White, acusado de estuprar sua ex-namorada. Fechou com um  recado cínico: “desejo o melhor para ele”. 

— A modelo Natasha Prince acusou o famoso mágico David Blane de a ter violado na sua casa em Londres, no verão de 2004, quando tinha apenas 21 anos. O porta-voz de Blane impugnou o caso. “Meu cliente nega veementemente que ele estuprou ou agrediu sexualmente qualquer mulher, nunca”, disse ao Daily Beast

— A ginasta McKayla Maroney, dona de uma medalha de ouro olímpica, confessou ter sofrido abuso durante anos do ex-médico da equipe de ginastas americanas, Larry Nassar. A CNN traçou um histórico do doutor e lembrou que ele enfrenta na justiça acusações por mais de 20 mulheres diferentes.