‘A noite do galo’, por Elisa Cerqueira

Convidamos quatro escritoras para presentear os leitores da VIP com um pouco de literatura de sacanagem neste fim de ano. Leia a seguir o texto de Elisa Cerqueira, mineira de 28 anos que recém estreou na literatura

Para presentear o fiel leitor do site da VIP, convocamos para este final de ano uma seleção de quatro escritoras para a criação de uma breve série de literatura de sacanagem. Juliana Frank, Clara Averbuck, Lola Benvenuti e Elisa Cerqueira brindam o fim de 2014 e a entrada de 2015 com seus contos eróticos.

A NOITE DO GALO, por Elisa Cerqueira*

Tem um galo que canta às seis da manhã e se eu contar que moro em uma metrópole e acordo todos os dias por causa desse bípede ninguém acredita, mas é exatamente o que está acontecendo agora. Ele (óbvio) não sabe que hoje é o meu (maravilhoso) day off e abre a cantoria para anunciar que é o macho alfa do terreiro – se há um terreiro na Savassi, as galinhas tremem. Mas hoje é dia de ficar vagabundeando longamente na cama.

Boto minhas leituras em dia, estou terminando e achando mais ou menos os 50 Tons, tenho pequenos álbuns de fotos do passado que gosto de olhar e reolhar, são imagens que me remetem a um tempo em que meu pai usava calças boca de sino e eu não entendo muito bem porque isso me deixa segura. Enquanto revejo a vida em fotografias tenho as narinas impregnadas de sexo e álcool, as cobertas estão engolfadas pelo odor sólido dele, perfume amadeirado e esperma.

Não posso reclamar da vida, o day off é a maior conquista da humanidade, uma felicidade suprema que se instalou desde que o meu chefe tomou posse, há uns seis meses. Acho que ele acha que eu acho que ele é o máximo a ponto de comprar sua teoria da fêmea inteligente: a de que um dia nós mulheres acabamos indo morar embaixo das asas de um provedor que seja capaz de enfrentar bravamente o financiamento de uma supercasa localizada no cinturão dos condomínios chiques de Belo Horizonte. Sem chances. O day off, e apenas ele, representa minha verdadeira realização – em um dia como hoje me refaço, recarrego as baterias, agora tenho nas mãos uma imagem que mostra a minha pessoa em trajes de banho sob o sol, eu tive vinte anos e o namorado tem razão quando diz que os meus peitos, a compleição geral e os cabelos se parecem com os da Scarlett Johansson. Pareciam.

Não sei como tirar o assovio do whatsapp. São quase onze horas e não há mais cantar de galo, o som da cidade se instala no interior dos apartamentos, a preguiça testa minha capacidade de saltar da cama e pôr o tênis que o namorado deu para finalmente fazer a matrícula na academia e tentar neutralizar uma parte dos excessos, nutella (sou viciada), o que engorda não é a cerveja mas o aperitivo (adoro) e BH é sabidamente a capital brasileira com o maior número de bares no país, estamos aí, é sempre num desses bares que tudo começa, a gente tinha combinado de ir a um pub – e fomos.

250 reais, acesso ilimitado, inclusive às aulas de zumba. Nome? Carol. Maria Carolina. Maria Carolina Lopes da Veiga. Idade? 32, pode pagar com cartão? Sim e pode começar já. Prefiro começar na segunda-feira. Nunca esqueço a primeira vez em que meu pai mencionou a palavra procrastinação. Ele tinha um sentimento de urgência, uma noção de que as coisas precisavam ser feitas, e toda vez que eu me pego procrastinando me lembro dele.

Talvez seja melhor ficar na cama mais um pouco, ócio irresistível, algumas lembranças vêm em flashes, está ficando séria a coisa e acho que estou gostando, de uns tempos para cá o namorado, enquanto me come, fala no ouvido que quer me ver dando para outro homem, e goza energeticamente quando eu falo que vou dar para um macho na frente dele. E eis que ontem ele decidiu passar o meu whatsapp para um “amigo” e ficamos brincando com aquilo até quando ele me deixou em casa, gosto de sentar nele dentro do carro e o gatilho dispara sempre que eu digo que desejo que o “amigo” me pegue e me trate como uma cadela. Boa noite, safada, até amanhã.

Amadeirado, vamos pensar, tem cheiro de loser. Ou talvez seja simplesmente um tom dos mais de cinquenta possíveis entre as fragrâncias masculinas, sejam loções francesas ou nacionais, quem poderá dizer, o fato é que o perfume familiar de uma clássica ressaca emana das paredes e recapitular o que se passou na noite anterior agora me parece uma questão de sobrevivência.

Devia ser quase uma da manhã, estava na cama quando o assovio do whatsapp rompeu o silêncio, é o namorado, pensei, mas em primeiro plano havia só a foto do perfil do “amigo”, a imagem de um homem bem chegado aos quarenta, espessas sobrancelhas, meio árabe (?), espera, ele está com o braço atrás da cabeça para exibir uma tatuagem no bíceps, a conversa vai, vou ao espelho do banheiro fazer um selfie da minha bunda, o homem fica louco, abro um prosecco, duvido que você venha me comer agora, algumas deliberações formais e em meia hora ele toca a campainha, perfume amadeirado e um belo volume nas calças.

Ele veio só para foder, nada mais, foder como um galo, em todos os cômodos da casa. Faz o tipo all inclusive, primeiro beijou por horas até viciar no cheiro da saliva e depois chupou até enjoar. Não bastasse ter servido o prato principal com fôlego de um fundista queniano, em pouco tempo quis meter outras duas vezes aquele belo pau grosso que ainda sinto. Tem certa obsessão por falar coisas sujas, dar palmadas na bunda e fotografar as marcas da mão no meu traseiro. Gosta de possuir as imagens do sexo. Secamos duas garrafas de prosecco até que os primeiros laivos de luz do dia entraram pelas frestas e ele partiu.

Prosecco é um problema. A gente faz um monte de coisa sob o efeito de prosecco. Em segundos o telefone vai tocar e ainda não sei como narrar ao namorado os detalhes dessa noite de devassidão.


*Elisa Cerqueira é mineira, tem 28 anos e há pouco estreou na literatura. É gostosa por natureza, e quem diz isso é ela própria.