Brigitte Bardot: a deusa que criou Saint-Tropez

Estivemos lá para entender por quê ele continua sendo o balneário europeu mais badalado

(Reprodução/Divulgação)

Em 1956, o mundo assistia, embasbacado, ao nascimento de, provavelmente, a estrela mais sensual de todos os tempos.

Com a estreia nos cinemas de Et Dieu… Créa la Femme (ou E Deus Criou a Mulher, em português), que trazia Brigitte Bardot como Juliette – uma moça com, digamos, muita energia sexual –, a francesa foi catapultada instantaneamente ao posto de mulher mais desejada do planeta.

A primeira cena do longa já transformou Brigitte em uma bombshell. E, por extensão, também apresentou ao mundo aquele pequeno pedaço de paraíso, por acaso o preferido da própria BB.

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O carro branco de Eric Carradine estaciona na subida da ladeira estreira. Ele, um tanto ansioso, desce em direção ao quintal de casa. Lençóis brancos pendurados no varal deixam escapar a visão de um par de pezinhos descalços, deitados no chão. Por trás da cortina improvisada, a órfã Juliette Hardy toma sol, em todo o frescor de seus 18 anos. Completamente nua, seduzindo Carradine. Como cenário, ao fundo, a paisagem deslumbrante da baía de um vilarejo ainda desconhecido de pescadores, localizado na Riviera Francesa.

Saint-Tropez entrava, assim, no roteiro de turistas, celebridades e endinheirados do mundo todo.

Saint-Tropez, e seu mar de águas cristalinas, ora verdes, ora azuis, não foi exatamente uma ideia inédita de Brigitte Bardot.

O local já era refúgio de artistas desde o século 19, quando o pintor pontilhista Paul Signac retratava suas paisagens em telas.

Mais tarde, nos anos 1940 e 50, a região atraiu o cubista Pablo Picasso e o filósofo Jean-Paul Sartre – que escreveu Os Caminhos da Liberdade em um café local.

Mas só depois de Brigitte e E Deus Criou a Mulher é que aquelas praias da Riviera nunca mais foram as mesmas.

(Photo by George W. Hales/Fox Photos/Getty Images) (Divulgação/Getty Images)

Hoje, passadas décadas, a cidade de pouco mais de 5 mil habitantes no inverno continua sendo o balneário europeu mais badalado, de acordo com o jornal britânico The Telegraph.

Na alta temporada, Saint-Tropez chega a receber incríveis 11 milhões de pessoas, que estão lá para ver e ser vistas. 

O ator Leonardo DiCaprio, por exemplo, é figurinha fácil. Em julho, ele organizou, em uma mansão tropeziana, seu Leonardo DiCaprio Foundation Annual Gala, evento para arrecadar fundos para a pesquisa de clima e biodiversidade.

Como convidados, desembarcaram na cidade nomes conhecidos como Mariah Carey, Paris Hilton, Tobey Maguire, Bono e Naomi Campbell – muitos deles frequentadores assíduos do balneário.

Navegar pela baía com iates luxuosíssimos é o passeio predileto deles.

Presença marcante

Impossível estar na cidadezinha da região da Côte d’Azur (ou Costa Azul) e dissociá-la da imagem da atriz francesa.

Brigitte Bardot, hoje uma senhora de 82 anos, embora totalmente reclusa em sua casa à beira da baía (com dificuldades de locomoção e opiniões polêmicas e ultraconservadoras), é quase onipresente em Saint-Tropez.

A ponto de os dois lugares mais icônicos de lá terem um dedo dela.

(Photo by Keystone Features/Getty Images) (Divulgação/Getty Images)

 

Apesar de todo ano aparecer algum novo lugar incrível em Saint-Tropez, o Le Club 55 permanece como a principal escolha.

Hoje, é tocado pelo filho de Geneviève, Patrice, um senhor elegante que nos recebe vestido à moda tropeziana, com camisa azul-clara e calça branca de linho (aliás, as cores predominantes na decoração do estabelecimento).

Sobre a mesa, uma travessa de madeira rústica com cogumelos e vegetais crus, como cenoura, alcachofra e tomate (embora pareça exagero elogiar tanto um fruto, este é o melhor da vida, acredite).

O cardápio é bem leve, com saladas, carnes e a especialidade da casa, peixes. Os pratos custam, em média, entre 30 e 40 euros.

Fotos de Brigitte Bardot no auge de sua juventude enfeitam as paredes do Le Club 55, que, embora seja frequentado por algumas das pessoas mais ricas e famosas do mundo, é um local despojado.

Pé na areia de verdade, tem cobertura de palha, como um quiosque, e aproveita a sombra fresca de diversas árvores.

A poucos passos, provavelmente o trecho mais disputado da praia de água claríssima – em outros locais de Pampelonne, moças costumam fazer topless.

O Le Club 55 é notório por, durante eventos como o Festival de Cinema de Cannes, ter em sua porta filas de Bentleys e Ferraris conversíveis e, em suas cadeiras, gente como o ator Brad Pitt.

Outro patrimônio de Saint-Tropez que também deve sua existência a Brigitte – sempre ela – é o Hôtel Byblos, que completa 50 anos em abril de 2017.

O Hotel Byblos, erguido com a intenção de seduzir Brigitte

O Hotel Byblos, erguido com a intenção de seduzir Brigitte

 

Ele foi construído por um empresário libanês, Jean-Prosper Gay-Para, que já tinha um empreendimento do tipo em Beirute, o hotel L’Excelsior.

Gay-Para, segundo rumores à época, estava encantado por Brigitte Bardot, e quis fazer na colina mais alta da aldeia preferida da francesa um palácio no estilo Mil e Uma Noites que também tivesse características do porto de Byblos, uma das cidades mais antigas do Líbano.

As obras do palacete terminaram na primavera de 1967, e o resultado foram 5 500 metros quadrados de construção em uma área de 17 000 metros quadrados.

Sua forma remete a uma aldeia provençal de pequenas construções, cobertas com telhas romanas e genovesas.

Como dizem ainda hoje, é um “vilarejo dentro do vilarejo”. Dois restaurantes, várias butiques e uma boate fazem parte do complexo.

Aparentemente, o investimento do libanês não teve qualquer efeito sobre Brigitte Bardot, então casada com o multimilionário alemão Gunter Sachs (que, para conquistá-la, gastou consideravelmente menos: jogou, de helicóptero, pétalas de rosa sobre sua piscina em Saint-Tropez).

Não foi apenas por causa do desprezo de Brigitte que Gay-Para voltou para o Líbano: ele também estava abalado pela Guerra dos Seis Dias, que opôs Israel a uma série de países árabes.

O hoteleiro vendeu o Byblos a um empresário francês, Sylvain Florait. A negociação foi um tanto inusitada. Gay-Para ofereceu o hotel a Florait pelo preço que ele quisesse.

O francês fez um lance mínimo, achando que desanimaria o bilionário. O libanês aceitou a oferta sem fazer qualquer contraproposta.

Hoje, o bisneto de Sylvain toca o negócio. O Byblos sofreu uma ampliação e, em 2012, recebeu o selo Palace para acrescentar às cinco estrelas – o que significa que faz parte do seleto grupo de hotéis mais belos do mundo.

Ele tem 91 quartos e suítes, um charmoso restaurante à beira da piscina (o Le B), o restaurante principal (o Le Rivea), comandado pelo chef estrelado Alain Ducasse (mas tocado diariamente pelo chef Vincent Maillard), e um spa, que leva a assinatura da marca francesa Sisley.

O restaurante Rivea

O restaurante Rivea

 

Sem contar o club Les Caves du Roy, o mais famoso e bombado de Saint- Tropez, onde, na temporada, você pode topar com a modelo Claudia Schiffer ou com o rapper Jay-Z.

O hotel, assim como toda Saint-Tropez, fecha em outubro e só reabre em abril.

Para as celebrações de meio século, o restaurante Rivea ganha um novo menu, com opções de refeição a partir de 68 euros, por pessoa, com entrada, prato principal e sobremesa (não é preciso ser hóspede para frequentá- lo).

No hotel, há pacotes para 2017 por preços a partir de 420 euros por duas noites. As tarifas comuns podem chegar a mais de 3 000 euros (no quarto mais luxuoso na alta temporada).

 

Networking brasileiro

Saint-Tropez é um dos principais destinos de luxo de brasileiros, inclusive dos que desejam fazer networking mesmo durante as férias.

“Como o Huffington Post disse no artigo ‘O que os brasileiros podem ensinar ao mundo sobre viver bem?’, a prioridade é a felicidade. Além disso, a celebração é um estilo de vida”, afirma o britânico Simon Mayle, diretor da feira de turismo de luxo Travelweek, sobre nós.

“É uma mistura de vontade de agregar e de celebrar que faz com que Saint-Tropez seja um destino popular entre os brasileiros. Vocês gostam de estar onde as outras pessoas estão.”

 

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Para Mayle, Saint-Tropez tem um glamour old style e um charme irresistíveis.

“As comparações com Búzios têm sentido: o pequeno vilarejo de pescadores em que, no fim de tarde, há uma luz maravilhosa. É o perfeito grand finale para os viajantes que estão fazendo o circuito europeu no verão ou a segunda parada para quem vai a Paris.”

Ou seja, Saint-Tropez está para a capital francesa como Capri está para Roma ou Ibiza para Barcelona e Madri. É nas ruas de Saint-Tropez que os ricos e famosos cruzam com aristocratas e oligarcas.

“É esse tipo de diversidade de personagens fascinantes de todo o mundo que faz com que lá seja o local de encontro global para aqueles que querem beber rosé no Club 55 durante o dia e Dom Perignon no Les Caves du Roy à noite. Os predinhos coloridos que cercam a piscina central do Byblos en- quanto se ouve jazz ao pôr do sol fazem com que lá seja uma das escolhas principais dos brasileiros”, afirma o especialista.

“É extravagante? Sim. Tem as melhores praias do mundo? Não. Mas é a quintessência da Riviera Francesa e um vilarejo francês de pescadores com todo seu charme e suas belas cores.”