Com elenco negro, Calendário Pirelli 2018 recria conto infantil

O fotógrafo Tim Walker foi convocado para reinterpretar o clássico infantil "Alice no País das Maravilhas"

A modelo Australiana Duckie Thot como Alice

A modelo Australiana Duckie Thot como Alice (Tim Walker/Divulgação)

Uma breve introdução. O Calendário Pirelli do ano que vem conta com 18 celebridades negras, entre cantores, rappers, atores, ativistas, e modelos.

O tema foi uma releitura de Alice no País das Maravilhas, não qualquer versão, mas aquela baseada nas ilustrações fantasiosas de John Tenniel para o livro, em 1865. Quem fotografou foi o britânico Tim Walker, dono de uma estética lúdica, poética, com cenários superproduzidos. Ponto.

A modelo sul-africana Thando Hopa, a Princesa de Copas, e a atriz americana Whoopi Goldberg, a Duquesa Real

A modelo sul-africana Thando Hopa, a Princesa de Copas, e a atriz americana Whoopi Goldberg, a Duquesa Real (Tim Walker/Divulgação)

Corta para a apresentação do calendário, no The Pierre A Taj Hotel, em Nova York, em meados de novembro. Naomi Campbell está implacável.

Na folhinha e na vida real. Nas fotos da Pirelli, ela é uma das decapitadoras da rainha. “Adorei meu papel. Sou autoritária e simplesmente amei posar com aquele machado na mão, tipo ‘se você mexer comigo eu corto sua cabeça fora’”, diz ela, no bate-papo com os jornalistas.

Naomi Campbell com o cantor americano Sean “Diddy” Combs, como os degoladores da rainha

Naomi Campbell com o cantor americano Sean “Diddy” Combs, como os degoladores da rainha (Tim Walker/Divulgação)

Em outro momento da conversa, se exalta, levanta a voz rouca: “Já me senti muita frustrada pela ausência de negros na moda, mas sinto que houve uma mudança significativa este ano, e não é uma onda, é algo duradouro, é como as coisas devem ser”.

Say it loud, I’m black and I’m proud, já dizia James Brown no fim dos anos 60.

A diversidade é um tema que está no ar, nos debates políticos, na campanha da Gucci. É um assunto só de agora? De jeito nenhum.

Não é novidade nem mesmo no Calendário Pirelli, que também teve apenas personalidades negras na sua edição de 1987.

A diferença é que aquele ensaio, assinado por Terence Donovan, mostrava o orgulho negro na sua raiz, toda a imponência dos filhos da mãe África, reis e rainhas de um império do passado.

Eram os anos 80 e as modelos estavam com os seios à mostra, a meia nudez exposta, sem realçar o busto mas sem esconder. Mulheres retratadas como objetos, apesar da altivez da pose, diriam alguns.

Um detalhe: Naomi está naquele calendário, menina-moça de 16 anos. Curiosidade do detalhe: foi seu primeiro ensaio. “Eu era tão nova que tive de pedir permissão para minha mãe”, conta Naomi, na sala de conferência do The Pierre. “Quando dava um certo horário, eu precisava ir para a cama.”

A modelo britânica Naomi Campbell no calend´årio de 1987

A modelo britânica Naomi Campbell no calend´årio de 1987 (Tim Walker/Divulgação)

O que é novidade agora é a forma como o assunto é tratado, e esta talvez seja a principal qualidade do Calendário Pirelli, uma espécie de crônica de nossos tempos em forma de fotografia.

O ensaio atual com personalidades negras, ideia do genial Tim Walker, é puro devaneio, um universo de faz de conta, de certa forma uma pintura escapista em contraponto aos ventos conservadores de Trump e Brexit.

As cores fortes, as distorções de imagens, as brincadeiras com as proporções, o figurino rebuscado, a impecável direção de cena, as expressões caricatas, tudo isso faz do calendário de 2018 uma obra de arte.

A modelo americana Slick Woods como o Chapeleiro Maluco

A modelo americana Slick Woods como o Chapeleiro Maluco (Tim Walker/Divulgação)

O making of do editorial traz na trilha a canção White Rabbit, do Jefferson Airplane, uma comparação entre os efeitos alucinógenos do LSD e a fábula de Alice.

“One pill makes you larger, and one pill makes you small; And the ones that mother gives you, don’t do anything at all; Go ask Alice, when she’s ten feet tall…”

A história nonsense da menina que cai na toca do coelho de colete, recebe conselhos de uma lagarta azul e bebe chá com um chapeleiro maluco leva então os jornalistas na apresentação do calendário a perguntar às celebridades reunidas: qual é sua Wonderland, o seu mundo das maravilhas, o seu universo mágico?

A melhor resposta foi da personagem principal do calendário, a modelo australiana filha de refugiados sudaneses Duckie Thot, retratada como uma espécie de Alice em versão drag, com enormes botas plataforma.

“Minha terra das maravilhas começou no dia em que saí do avião”, contou.

“Eu olhei para Nova York, com 400 dólares no bolso, e disse: ‘Vamos lá’. Não tinha ideia das coisas lindas que iriam florescer na minha carreira. Sou muito sortuda e muito abençoada por poder viajar o mundo, me conectar com tanta gente, compartilhar sonhos. Esse é o meu trabalho, esse é o meu mundo das maravilhas.”

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