Da fama ao caos: o legado de Frank Zappa

Depois de passar pelo céu, o ilustrador Ramon Muniz enxergou o inferno que ronda a família de uma das maiores lendas do rock

Frank Zappa

Frank Zappa: liberdade de expressão acima de tudo. (Gijsbert Hanekroot/Getty Images)

Voltando do almoço numa quarta-feira, decidi conferir meu Facebook para relaxar, evitando assim retomar a colérica briga com o call center da operadora de TV a cabo. Havia 23 conversas.

Entre respostas de papos pessoais, algumas postagens de grupos, uma mensagem se destacava: “Great stuff, Ramon! Do you think we can do something together some day?”. Elogios e convites para possíveis jobs são sempre bem-vindos, mas a foto – e principalmente – o nome, ou melhor, sobrenome do meu interlocutor eram algo surreais: Dweezil Zappa, guitarrista virtuoso, ator e apresentador americano, filho de Frank Zappa, gênio da guitarra e da composição.

Horas antes, havia enviado – sem pretensão (pelo menos consciente) – uma mensagem elogiando-o como guitarrista virtuose e contando ser ardoroso fã de seu pai desde os 10 anos. Havia anexado desenhos do falecido guitarrista, dono de rosto único, filho de um imigrante siciliano com a mãe de ascendência grega e árabe. 

Muitos anos antes

Minha paixão pela música e a figura de Frank Zappa, quase uma doença, foi provocada por dois eventos distintos: em Curitiba, onde morava, passava as tardes na sala de música na casa do primo suíço Keller entre admirar a variada coleção de instrumentos musicais e uma boa quantidade de discos de vinil.

Em uma dessas tardes de descobertas musicais, veio aquela que viria a definir tudo o que se passou depois: “perdida” entre discos de intérpretes de música clássica a capa de um disco mostrava um sujeito – mistura de Tarzan com Dom Quixote – cercado por várias mulheres seminuas que o tratavam como um rei, deus ou algo que só muito depois vim a compreender. Eu precisava ouvir esse estranho no ninho.

Anos mais tarde, ouvindo a extinta Estação Primeira de Curitiba – rádio também meio “perdida” na mesmice do dial paranaense – reencontro a música daquele Tarzan para nunca mais perder contato com sua civilização.

Os cartazes desenhados pelo ilustrador Ramon Muniz para Dweezil: de fã do pai a colaborador. (Ramon Muniz/Reprodução)

Como não curtir o cara? 

Meu mergulho nessa civilização monoteísta foi de cabeça. Ainda adolescente já era colecionador de tudo que se refere a Zappa.

Fiquei admirado e me identifiquei também com as opiniões e atitudes do maestro. Alguém ao mesmo tempo louco, inovador, fantástico guitarrista, amante de groupies – a quintessência do rock and roll – era casado e pai de uma família com quatro filhos!

Depois de alguns anos estudando Zappa, comecei a vislumbrar seu processo de criação: era algo alquímico. Ele misturava coisas incomuns, fazia colagens, Stravinski com boogie woogie, juntava estilos e fazia disso tudo uma obra de arte nova e única.

Como ele mesmo dizia, eram esculturas no ar. Tudo isso temperado com muito humor e verborragia. Com sarcasmo e ao mesmo tempo curtição. Como não gostar de um cara que colocava microfones de sax na guitarra? De alguém que fazia solos mirabolantes e ainda por cima tirava sarro de tudo e todos?

Zappa era um roqueiro admirado por seus pares que avançava vorazmente sobre a música clássica e transubstanciava ambos os gêneros em uma outra coisa: música de Frank Zappa. Como não curtir um cara que escreve uma música sobre uma garota tendo um orgasmo?

Ele não tinha papas na língua, nem pra criticar o governo. Se posicionava, veja só, contra as drogas. Mas também contra a censura. Mandava Ronald Reagan à… cadeira elétrica! Com tudo isso, não é difícil imaginar por que não via seu moustache com mais frequência na MTV.

Zappa fazia tudo isso combinando produtividade ímpar com seu parâmetro exagerado/obsessivo pela qualidade final de tudo. Se apresentou ao vivo ao redor do mundo e deixou tudo gravado. Durante 30 anos parecia que nada iria detê-lo.

Em 4 de dezembro de 1971, um fã alterado por sua música inebriante – e por maconha – disparou uma pistola de sinalizador dentro do Montreux Casino (Genebra, Suíça). O saldo desse gesto impensado foram alguns fãs feridos e uma pilha de cinzas que incluía o auditório e todos os equipamentos e instrumentos musicais. Ah, sim, e a música Smoke on the Water, da banda Deep Purple que estava gravando na cidade e viu o fogo do outro lado do lago.

Apenas quatro dias depois, em 10 de dezembro, Trevor Charles Howell, o namorado ciumento de uma fã, não estava muito interessado no que havia na cabeça de Frank Zappa: subiu no palco do Rainbow Theatre, em Londres, e jogou o músico no fosso da orquestra, o que colocou o americano de Baltimore numa cadeira de rodas por oito meses e deixou sua voz mais grave.

A voz pode ter baixado de timbre, mas a energia continuou em alta. Muitos, inclusive eu, acham esse o período mais legal de Zappa. Foi quando produziu dois discos, incluindo The Grand Wazoo, para os quais formou uma inédita big band fusion com 21 músicos e escreveu a partitura de cada instrumento. O namorado? Passou ano e meio na cadeia.

Volta ao futuro… incerto

Também em 4 de dezembro, porém 42 anos depois do incêndio em Genebra, deu-se aquela primeira conversa com um membro do clã Zappa – primeira de muitas. Mandei a mensagem com várias ilustrações do Frank Zappa anexadas. Sou ilustrador profissional formado em Curitiba. Em São Paulo, trabalhava na agência WMcCann. 

Logo após o primeiro contato recebi o e-mail de Dweezil Zappa encomendando um pôster para a turnê Zappa Plays Zappa. Agora alguém disparava uma pistola de sinalizador dentro da minha cabeça. Um incêndio geral!

Foram dois meses de um trabalho de forte peso emocional, de comunicação quase diária entre Dweezil e eu. Ele é muito educado, mas ao mesmo tempo muito exigente, principalmente quanto à fidelidade da reprodução das guitarras: sua FZ-Roxy SG criada especificamente sob encomenda e uma Gibson SG customizada pelo próprio Zappa pai para as gravações do álbum Babe Snakes (1979). Fetiche é fetiche…

Enquanto as ilustrações para o cartaz da turnê iam tomando forma, Dweezil me enviou uma mensagem perguntando se eu conseguiria fazer um outro cartaz de um dia para outro. Eu disse que seria difícil, mas que seria possível se ele me desse feedbacks rápidos. Uma nevasca havia fechado as estradas e ele teria que adiar um show por uma semana, daí a urgência do pedido (precisava refazer a comunicação do show). 

Após os dois meses de pauleira na prancheta finalizei a arte do pôster inicial, que incluía entre outras coisas o desenho do rosto de Frank Zappa. Traços que eu já havia rabiscado milhões de vezes desde adolescência, sem nunca imaginar que algum dia eles fariam parte de um trabalho profissional, prestado para a própria família Zappa.

Nas reflexões naturais que acontecem ao fim de projetos como esse fiquei me indagando sobre o quão intrigante a vida era e quanta sorte eu tinha em poder realizar aquele job. Voltei às mensagens para relê-las e notei que havia enviado a mensagem em 4 de dezembro, dia do aniversário da morte de Frank.

Frank e Dweezil

Frank e Dweezil: o velho incluía os filhos no projeto. (Brian Rasic/Getty Images)

Há algo de podre na Zappamarca

Os primeiros odores de que algo estaria errado no clã Zappa surgiram nas redes sociais. O lançamento do projeto Who the F*** Is Frank Zappa? agitou os fãs e a imprensa tanto pelos objetivos audaciosos como pelas justificativas apresentadas por seu criador, Alex Winters (Bill & Ted – Uma Aventura Fantástica, Os Garotos Perdidos) e o Fundo da Família Zappa.

Além da produção de um longa-metragem sobre Frank Zappa, os recursos levantados iriam iniciar um trabalho de recuperação e preservação da obra do guitarrista e maestro. O projeto revelaria o estado de abandono de O Cofre (um porão imenso cheio de arquivos de música e filmagens da vida, carreira e produção do artista) e ofereceria recompensas aos doadores.

Uma prometia transformar a Mansão Zappa (a UMRK, Utility Muffin Research Kitchen, que inclui O Cofre e um estúdio de um milhão de dólares construído pelo mestre) em uma espécie de Graceland.

Visitas guiadas por Joe Travers (baterista da banda dos filhos de Zappa, a Z Band), profundo conhecedor d’O Cofre, era outra das recompensas prometidas.

O Projeto de Winters aqueceu o assunto Frank Zappa, mas foi o comentário de Dweezil sobre ele que iniciou um turbilhão que culminou com o nome de Frank Zappa sendo trending topics mais de 20 anos após sua morte. Zappa era responsável por algo inédito novamente. Nenhuma surpresa.

Dweezil Zappa havia gravado o álbum Via Zammatta (a rua onde viveu a família de Frank Zappa, em Partinico, Sicília) utilizando também o crowdfunding para custear a produção. Mas fez questão de deixar claro que não participava do projeto Who the F*** Is Frank Zappa? e não apoiava a decisão da ZFT (Zappa Family Trust).

Além disso, correram as notícias de que a mansão Zappa estava à venda; de que queriam transformar O Cofre em uma espécie de Graceland; de que Dweezil não apoiava a família; e que a obra de Zappa estava apodrecendo. Tudo isso já me alertava para algo de errado. Até que a explosão final trouxe a dimensão real da escala. 

Um artigo do New York Times esparramou um mundo de problemas que estavam se acumulando, represados enquanto Gail Zappa esteve à frente dos negócios da família.

Os anos, e depois décadas, de uma beligerância litigiosa que começou ainda com Frank e suas lutas contra a censura e a feérica defesa da integridade de sua obra; além de equívocos – ou fraudes – junto ao imposto de renda americano, haviam enterrado o legado de Zappa em dívidas multimilionárias e no dia a dia essa situação determinava a relação entre os herdeiros.

Com a morte da matriarca, o fundo familiar dos Zappa foi reorganizado e o controle financeiro e administrativo passou para os filhos mais novos, Ahmet e Diva. O que nos leva aos anos 1970.

De um lado, o pai famoso excursionando pelo mundo por sete meses a cada turnê, sob holofotes, groupies e todo o pacote de um astro do rock. Do outro, a mãe em casa lidando com fraldas sujas, crianças, vida doméstica. Mais tarde, Zappa começou a incluir os filhos mais velhos em seus projetos.

Gravou com a filha Moon a música Valley Girl – um de seus maiores sucessos. Assim, talvez Gail tenha visto uma forma de compensar os filhos mais novos pelas oportunidades que não tiveram junto ao pai. Síndrome de Medéia?

Agora a guerra estava instalada. De um lado, o primogênito Dweezil – que comandava desde sempre uma série de iniciativas para manter a obra de FZ em execução com a máxima fidelidade possível e era reconhecido pela base de fãs como o herdeiro natural do talento de Frank – revelava ao mais importante jornal dos Estados Unidos que seu show Zappa Plays Zappa teria que mudar de nome, pois a família Zappa – leia-se o irmão mais novo, Ahmet, por meio de seu fundo fiduciário – havia lhe notificado para não usar mais o nome de propriedade do fundo, ou teria de pagar multas de até 150 mil dólares por música que tocasse sem licença.

Como uma barragem que rompe, o artigo – Dweezil era a fonte – transbordou o mar de lama de um relação havia muito tempo contenciosa entre os membros da família. Isso pegou boa parte dos fãs de surpresa, pois não se tratavam apenas de irmãos – Dweezil e Ahmet foram verdadeiros “brothers” que chegaram a gravar dois discos com a Z Band e apresentaram o game show Happy Hour juntos na USA Network.

Steve Vai e Dweezil Zappa

Steve Vai e Dweezil, na turnê Zappa Plays Zappa. (Brian Rasic/Getty Images)

Agora se sabia que um lado da família pretendia cobrar – e muito – para o outro usar a obra do próprio pai. Soube-se que até mesmo guitarras presenteadas pelo pai ao filho mais velho haviam sido retomadas pela mãe, Gail Zappa, e incorporadas ao ZFT.

Enfim, a admirada veia de lutador, sempre pronta para a briga, iniciada pelo próprio Frank, depois levada a ferro e fogo pela sua viúva, Gail, tinha levado a família à beira da falência e colocado em risco todo o legado do artista. Pior: o espírito guerreiro agora voltava-se para dentro do núcleo familiar, aparentemente com o mesmo apetite.

O artigo não ficou sem resposta. Ahmet Zappa divulgou uma carta aberta endereçada ao irmão mais velho em que rebatia e descreditava virtualmente tudo o que o artigo – e Dweezil – afirmavam.

Definitivamente, acabou aí a ilusão dos fãs a cerca da família ideal do rock: o casamento cool entre um roqueiro genial e suas atitudes rebeldes e a linda e sexy secretária da lendária casa de shows Whisky a Go Go grávida de oito meses; a sensação de família unida ao longos dos anos  mostrando para o público o pai presente, colocando desde cedo os filhos nos projetos.

Essa impressão de harmonia seguiria até bem mais tarde reforçada pela parceria dos meninos Zappa em bandas, discos e programas de TV. Castelo de areia.

A partir do artigo e da carta aberta, não só os problemas financeiros vieram à tona. Uma linha divisória se estabeleceu na história e no seio da família Zappa. Estavam definidos novamente os times Zappa como no começo: Ahmet e Diva versus Dweezil e Moon. 

A filha mais velha do casal Zappa, Moon Unit Zappa, declarou em sua conta no Twitter que Ahmet dificultava sua vida e a do irmão Dweezil, cobrando altas somas para que eles usassem a marca registrada do pai, impossibilitando possíveis fontes de renda.

Em outro momento, Moon acusou a mãe de gananciosa e controladora e que a atitude de Ahmet era uma continuação desse comportamento. Aqui vale lembrar a clara distinção que o controle de Gail sobre o legado de Frank Zappa causou em sua obra. Tudo o que ele lançou em vida é muito superior aos lançamentos póstumos, que sempre tiveram o dedo da Gail.

Os irmãos remanescentes de Frank Zappa, Bob e Candy, têm posicionamentos um tanto diferentes. A irmã, Candy Zappa, mantém-se neutra enquanto Bob enfileira-se ao lado dos sobrinhos Dweezil e Moon. Tio Bob é reforço de peso, já que o ex-mariner foi responsável pelo primeiro instrumento que Frank Zappa teve. Ele havia comprado um violão em uma venda de garagem em Lancaster, Califórnia, e acabou lixando demais o braço do instrumento, acabando com os trastes e deixando difícil de tocar. Deu o violão a Frank. Mais de 50 anos depois, ainda falamos da música de Zappa.

Os Zappa são osso duro de roer mesmo. Mike Keneally e Bryan Beller, amigos de Frank que participaram da Z Band, revelaram em seus blogs que a genética de Frank ia além da sonoridade e que sentiram o peso da mão de ferro com que os irmãos Dweezil e Ahmet conduziam as coisas.

Muitos músicos, inclusive ex-integrantes das formações clássicas de Zappa, passaram a prestar tributos ao mestre após sua morte prematura, em 1993, por causa de um diagnóstico tardio de câncer na próstata. Em um caso emblemático, o  Zappanale, maior festival em tributo a Frank Zappa (BadDoberan, Alemanha) desde 1990, teve que se defender de uma ação movida por Gail Zappa. O evento ganhou a ação e mais uma vez a herança de Zappa arcou.

Num primeiro momento, a maioria dos fãs tomou o lado de Dweezil, e dentro desse UFC familiar a pressão para se posicionar era grande. Eu mesmo notei muitos blocks e unfriends após algumas de minhas manifestações. Fui questionado por um grupo de fãs: “Quem é você para opinar sobre quem estava certo ou errado nessa história toda?”. Respondi o que aprendi com o próprio Frank Zappa: nós somos o chefe, a audiência, quem paga pelas músicas, os shows, os DVDs.

Dweezil hoje pena com advogados para poder levar as músicas do pai a novas audiências – não pode usar o nome Zappa para tocar. Cansado de mudar o título de sua turnê, lançou a tour Cease and Desist: Dweezil Zappa Plays Whatever the Fuck He Wants.

Fico pensando sobre o que Alex Winter mostrará no filme Quem Diabos Era Frank Zappa? A vida de um artista prolífico e criativo, considerado gênio, com uma família despedaçada?

A mim fica a gratidão com a generosidade de Dweezil, que permitiu que eu participasse do universo Zappa. Moon tem uma filha, Mathilda Plum Doucette Zappa, nascida em 21 de dezembro de 2004. Ahmet Zappa nunca retornou minhas mensagens.