“É muita conexão e pouco olho no olho” — Leia nosso papo com Paulo Miklos

Sucesso há 30 anos como um dos Titãs, Paulo Miklos já atuou no cinema, TV e no teatro. Conexão com plateia é com ele mesmo - a crítica sobre relacionamentos não é gratuita

Por Ronaldo Albanese

Empatia e conexão

Encarar o público ao vivo como protagonista de uma peça de teatro é o desdobramento natural da minha carreira de artista. Mas é cedo pra afirmar que eu esteja completamente confortável com a novidade. Estou, sim, fascinado. Pode parecer clichê, mas cada dia no palco é uma experiência nova. Além disso, essa relação direta com a plateia sempre me atraiu muito, desde o início – há mais de 30 anos – com os Titãs. Sentir a pulsação das pessoas ali, bem de perto, é o máximo. Não poderia ser melhor estrear no papel de um músico genial, cheio de contradições como o Chet Baker. Isso me ajudou a encarar o desafio.

Talento multifacetado

Transitar da música à arte de representar no cinema, TV e agora também no teatro é possível pelo fato de eu ser uma mistura bem dosada de determinação e de instinto à flor da pele. Acredito na minha percepção e não tenho pruridos de me jogar no improviso. Tenho ido bem.

Foto: Luiz Maximiano

Sucesso longevo

A gente deixa a vida nos levar. Os Titãs continuam enquanto houver a atitude rock and roll de sempre, a química entre nós e, evidentemente, público para nossa música. Mesmo com a saída de quase metade da formação original, ainda somos um grupo grande de amigos que até hoje tem muito prazer em tocar junto. Desde o lançamento do Cabeça Dinossauro, há cerca de 30 anos, ocupamos uma posição de destaque no cenário do rock nacional. Mas na época não tínhamos total consciência da quebra de padrões que esse trabalho significou. A banda surgiu no fim da ditadura militar, com o país cheio de manifestações pelas Diretas Já, e nós chegamos metendo os dois pés na porta pela liberdade de expressão. Até hoje isso se mantém.

Relação a dois

É preciso que os dois queiram muito. Sou catedrático. Fui casado durante 30 anos com a mesma mulher (Raquel Salem, falecida em 2013), fato raro hoje. Além disso, se não tiver amor, respeito e admiração mútua, não vai pra frente. Disponibilidade para o outro também é imprescindível. As pessoas estão muito conectadas e ao mesmo tempo distantes como nunca. Com redes sociais, internet e chats, há uma falsa sensação de que a convivência é real. Falta presença, olho no olho, toque, sentir o cheiro, perceber o olhar. Isso não quer dizer que eu não use a tecnologia no meu cotidiano.

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Sexo, drogas e rock and roll

Apesar de todo interesse pelas experimentações no passado, sempre fiquei alerta para os riscos. É preciso não se deixar levar de maneira nociva. Antes de tudo, tem que ter prazer. A partir do momento que vira paranoia, não serve mais. Na medida em que as pessoas se conhecem melhor, vem a maturidade e o bom senso para passar por elas sem grandes problemas. Sou pela descriminalização A política antidrogas no Brasil é falida. Em casa, em família, o tema nunca foi tabu. Sempre conversei muito sobre drogas e sobre tudo com minha filha única, a Manoela [de 30 anos].

A indústria e a Internet

É evidente que houve certa “burrice” por parte da maioria das gravadoras ao não avaliarem com precisão o alcance e a importância da internet em todos os processos de produção e comercialização. Mas não tem problema: a tecnologia avança cada vez mais rapidamente e a música sempre encontra o seu espaço de um jeito ou de outro. A tendência é surgir uma nova ordem que, aliás, já vem sendo esboçada para regular remuneração, direitos autorais e tudo mais. Não tenho do que reclamar. Jamais deixei de receber os meus direitos.