Hollywood Rock 1975: as loucuras do primeiro festival no país

Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas o Hollywood Rock de 1975 levantou os padrões dos festivais udigrúdis da época e deu asas ao rock Brasil

Público no Hollywood Rock de 1975, no campo do Botafogo Público no Hollywood Rock de 1975, no campo do Botafogo

Público no Hollywood Rock de 1975, no campo do Botafogo (Rogério Carneiro/VIP)

A guerra do Vietnã ainda estava bombando, só chegaria ao fim em abril, com a captura de Saigon. A ditadura militar brasileira, mesmo em lenta distensão, seguiria produzindo cadáveres ilustres como o do jornalista Vladimir Herzog, espancado até a morte em outubro.

De alguma forma, porém, aquele começo de 1975 prometia certas liberdades para a juventude do país. Em 11 de janeiro, no Estádio General Severiano, no Rio de Janeiro, começava a rolar um tal festival Hollywood Rock, patrocinado pela marca de cigarros da Souza Cruz.

Tirando o nome, nada a ver com o megaevento realizado sete vezes no Rio e em São Paulo entre 1988 e 1996, com atrações do nível de Rolling Stones, Bob Dylan, Jimmy Page & Robert Plant e Nirvana (no auge, em 1993).

“Demorou, mas pintou”, lia-se no cartaz oficial, que vendia a coisa como “o primeiro grande concerto de rock brasileiro”. Durante quatro sábados, sempre às 21h, o campo do Botafogo deveria receber shows de Rita Lee & Tutti Frutti (11 de janeiro), Mutantes e Veludo (18), O Terço, O Peso e Vímana (25), e Erasmo Carlos, Cely Campello e Raul Seixas (1º de fevereiro).

Os ingressos custavam 15 cruzeiros, o equivalente a 2 dólares no câmbio da época, e começaram a ser vendidos somente na véspera do primeiro show, nas bilheterias do estádio.

Público no Hollywood Rock de 1975 A garotada na porta do Estádio General Severiano

A garotada na porta do Estádio General Severiano (Rogério Carneiro/VIP)

Superstars internacionais passavam longe do horizonte financeiro da produção, orçada em 280 mil cruzeiros (cerca de 34 mil dólares). O esquema estava apenas alguns passos adiante do brancaleônico, mas o interesse ia além da mera celebração de uma geração ou cena.

“Eu tinha loucura por fazer festivais de rock, um sonho que vinha de 1969, quando soubemos de Woodstock. Era loucura, não podia dar certo tecnicamente. Mas era o que a gente tinha”, lembra o hoje conhecido escritor, compositor, jornalista e produtor Nelson Motta.

Naqueles dias, o jornalista e idealizador do projeto surfava onda de popularidade como porta-voz da nova nação roqueira: na TV Globo, comandava o programa Sábado Som, trazendo com o senso de atualidade possível, ídolos e novidades americanas e inglesas do ramo. No jornal O Globo, mantinha coluna e promovia o evento sem maiores pruridos éticos – outros tempos, claro.

Em 10 de janeiro, a nota “É por aqui, moçada” citava a equipe de “quase 100 pessoas” para orgulhosamente anunciar a “realização – em termos rigorosamente profissionais – do primeiro festival de rock brasileiro”. A ênfase no profissionalismo denunciava os maus antecedentes (veja box no final da matéria).

Em 1974, quando a crise do petróleo abalou contratantes europeus, Alice Cooper arriscara uma incursão pelo semivirgem mercado sul-americano. No auge da popularidade nos EUA, ele varreu São Paulo e Rio de Janeiro com apresentações que marcaram época.

Impressionou não só pelo shock rock que envolvia uma jiboia enroscada no corpo e decapitação simulada no palco: soava e brilhava como coisa de outro mundo para os roqueiros locais. Instrumentos e amplificadores de fora eram sonhos inacessíveis mesmo para alguns de nossos principais artistas.

Erasmo Carlos tentou comprar guitarras e baixo de músicos da banda de Alice, sem sucesso. “Disseram que era impossível, porque estavam no meio da turnê”, lembra o Tremendão.

A empresária de Rita Lee na época, Mônica Lisboa, também chegou junto da trupe e se deu melhor. Descolou equipamentos de luz e o engenheiro de som Andy Mills, que viria a se fixar no Brasil, namorar brevemente Rita e produzir discos, começando por Fruto Proibido (Rita Lee & Tutti Frutti, de 1975).

A desinformação na imprensa pop gerava notas como a publicada pelo jornal Última Hora: “Rita Lee chegou ontem de São Paulo para uma temporada no Rio. Trouxe 18 figurantes de sua equipe, cinco jovens e fortes guarda-costas, uma onça e duas cobras que ganhou de Alice Cooper”.

O show era aguardado pacas pelos cariocas. Dois meses antes, um temporal danificara parte de seu equipamento e impediu a realização do show que ela faria com Erasmo Carlos no estádio do Fluminense, em Laranjeiras.

Rita Lee com os integrantes da banda Tutti-Frutti Rita Lee com os integrantes “magrinhos” da banda Tutti-Frutti

Rita Lee com os integrantes “magrinhos” da banda Tutti-Frutti (Rogério Carneiro/VIP)

Desta vez, garantia Nelson Motta em O Globo, não haveria frustração ou prejuízo: “Toque majestade – o palco que está sendo montado no campo será totalmente coberto, o que quer dizer que os concertos acontecerão com qualquer tempo, já que a garotada do rock não liga muito para lances meteorológicos”.

Na estreia do festival, 9 mil pessoas piraram com Rita andrógina, bowieana, acompanhada por um Tutti Frutti um tanto nervoso – decorrência de um estresse entre o guitarrista Luiz Carlini e a empresária Mônica Lisboa no camarim.

Na avaliação de Nelson Motta, problemas técnicos atrapalharam, mas a performance valeu por outro aspecto: “A primeira vez em que vi Rita Lee como uma mulher sexy foi cantando Splish Splash com a Lucinha Turnbull no filme”.

Sim, há um filme que registra parte do evento, Ritmo Alucinante (1976), dirigido pelo cineasta Marcelo França, morto em 2011 (existe também um LP, ao vivo fake, lançado pela Som Livre meses depois).

Muito criticado pelo som e outros aspectos técnicos – a câmera bizarra e taradamente se fixa um tempão no corpo de Rita, cortando a cabeça dela -, o documentário impediu o primeiro Hollywood Rock de cair no esquecimento. Ao longo dos anos, fãs de Raul Seixas fizeram circular cópias da fita, hoje acessível no YouTube.

“Sabe Deus como o maluco [Marcelo França] captou aquilo. Ainda tive que pagar a revelação… Mas tem 15 minutos de som bom, no show do Raul, e vale por isso. Ele estava possuído, genial”, lembra Nelson Motta.

Para Sylvio Passos, autoridade em raulseixismo que fundou, em 1981, o Raul Rock Club, registros anteriores e posteriores mostram a mesma verve: “O Raul de estúdio era um; o dos palcos, outro, com mais rock’n’roll”. Mas, de alguma forma, para ele, a atuação do baiano no encerramento do filme o faz lembrar Hendrix em Woodstock.

Raul entra sob luz estroboscópica e cacofonia da banda, canta Como Vovó Já Dizia, Al Capone e As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, antes da apoteose. Dez mil pessoas cantam o refrão de Sociedade Alternativa (parceria com Paulo Coelho) e Raul pega uma espécie de papiro e lê um discurso libertário baseado no Livro da Lei, do ocultista inglês Alesteir Crowley (1875-1947).

“Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei (…) Não existe Deus senão o próprio homem / todo homem tem direito de viver como quiser / De trabalhar como quiser e quando quiser / (…) O homem tem direito de pensar / de pensar o que quiser/ De dizer o que quiser”, brada. E conclui: “Viva o novo Aeon! De cantor o Brasil já tá cheio!”.

Raul Seixas cantando no Hollywood Rock 1975 Raul Seixas leu um discurso libertário durante o festival

Raul Seixas leu um discurso libertário durante o festival (Rogério Carneiro/VIP)

A jornalista e crítica Ana Maria Bahiana estava lá e contradiz levemente a máxima que consta em seu Almanaque Anos 70 (“se você realmente viveu a década, não lembra”): “Me recordo de Rita e de Raul. Eu era muito próxima dos dois na época, e ambos ficaram na minha memória com performances porretas e pesadas”.

Faz muito sentido que uma das fontes mais acuradas para pesquisa sobre o festival não seja arquivos de imprensa nem testemunho de fã.

O relatório de 5 de fevereiro de 1975 do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) do Estado da Guanabara (a fusão com o Estado do Rio de Janeiro viria logo em março) contextualiza bem: “A partir do sucesso do conjunto Secos & Molhados, conseguido com sua apresentação no Maracanãzinho em 10 de fevereiro de 1974, deflagrou-se no país uma epidemia de rock”.

Fatos do segundo sábado de shows, dia dos Mutantes, são assim descritos pelo araponga da repressão: “A maioria dos jovens faz uso de cigarros que, pelo modo com o qual os manipulavam, dava a nítida impressão de tratar-se de maconha”. Outro trecho: “Jovens de ambos os sexos apresentavam sinais de se encontrarem sob dependência psíquica; uns dançavam e contorciam-se no chão: olhos esgazeados, avermelhados, balbuciando frases desconexas”.

Banda O Peso tocando no Hollywood Rock de 1975 A banda O Peso tocando no Hollywood Rock de 1975

A banda O Peso tocando no Hollywood Rock de 1975 (Rogério Carneiro/VIP)

O que o Dops não menciona é que, em 18 de janeiro, depois do show do grupo Veludo, os Mutantes não puderam tocar por nem meia hora. Tinha mais gente do que na estreia, sinal da popularidade do progressivo (Veludo e Mutantes, que lançaria meses depois Tudo Foi Feito pelo Sol, eram assumidamente filiados a essa escola).

Mas uma baita tempestade fez parte da cobertura do palco desabar. “Aquilo foi traumático, o povo correu bonito. Claro, tirando os que estavam chapados demais para se dar conta. Mas desses os deuses das ervas cuidavam”, conta Ana Maria Bahiana.

Nelson Motta escreveu em O Globo que não houve tumulto e que pessoas do público ajudaram os músicos a tirar o equipamento exposto ao aguaceiro. Fato confirmado por outros relatos. Hoje, porém, ele cita como emblemática outra cena semelhante, de antes do show: “Lembro de algo que traduz a precariedade das coisas na época: Serginho Dias e Dinho, dos Mutantes, ligando eles mesmos os instrumentos e montando o palco. Os caras eram roadies, técnicos, tudo… “.

“Sabíamos que poderia chover. Então, depois de alguma briga, consegui um teto e uma lâmpada. Tinha ali duas mesas de som Pavey, uma de nove canais e outra de seis, ambas com amplificadores para as caixas. Uma câmara de eco Binson, talvez um cassete… Era o maior equipamento da época. Normalmente, tínhamos espírito esportivo para enfrentar as intempéries. Mas com os raios, deu medo”, reconstitui Pena Schmidt, o Peninha, que pilotava o som do festival.

Em uma reportagem da revista VEJA de 5 de fevereiro, o coordenador de produção Carlos Alberto Sion observava: “Olha que temos conjuntos bem melhores que o da Suzi Quatro, Slade etc. Mas o que pinta de grilo não tá no gibi”.

Na terceira noite de show, também houve zebra – na apresentação do Vímana, grupo carioca recém-fundado que tinha como frontman Lulu Santos (Ritchie e Lobão só entrariam depois). O progressivo funkeado não agradou aos fãs da pauleira de O Peso, e, para piorar, o moog de Luiz Paulo Simas pifou logo no comecinho.

A banda Vímana, do então desconhecido Lulu Santos A banda Vímana, do então desconhecido Lulu Santos

A banda Vímana, do então desconhecido Lulu Santos (Rogério Carneiro/VIP)

Sob vaias, Lulu se viu obrigado a ensaiar um minidiscurso – bem diferente do que faria em 1985, no Rock in Rio (quando passou um pito nos metaleiros que haviam hostilizado atrações brasileiras). “Nós não somos uma banda de rock pesado. O rock ainda tem mil anos pela frente, vocês acabam se acostumando. Mas tudo bem, tudo bem…”

Segundo anunciado à reportagem da Folha de S.Paulo, havia 40 seguranças dentro do estádio e a polícia militar ficaria do lado de fora, “só entrando para conter eventuais abusos”. O guitarrista Fred Nascimento, que tocou com Legião Urbana, tem até hoje marcas de cassetete na mão.

“Tentei pular o muro e me dei mal. Mas na segunda tentativa consegui. Lembro que o Sergio Hinds (guitarrista de O Terço) trocou ele mesmo a corda que arrebentou. A gente tinha ido de trem até Guapimirim (perto de Magé, a 80 km do Rio) para pegar cogumelos. Ficamos sentadinhos viajando no show. Quem levantasse ouvia ‘senta!’. Acho que fomos os primeiro bebês do Clube da Esquina.”

Como lembra Ana Maria Bahiana, a cocaína ainda não tinha chegado com tudo: “Maconha, cogumelo e ácido eram as drogas du jour”. Convivência pacífica em todos os níveis, conforme atestou o relatório do Dops: “As moças, ao fazerem necessidades fisiológicas, dada a inexistência de sanitários na proximidades do campo, as faziam sob as vistas dos rapazes, sem que eles as importunassem”.

No último dia, o clima família juntou, nas palavras de Nelson Motta, “vovó Celly, papai Erasmo e filhinho Raul – embora os três tivessem praticamente a mesma idade”.

Celly Campello (1942-2003) foi um achado. Depois de longo período de reclusão à vida familiar, ela só havia cantado dois anos e meio antes, em um festival em Juiz de Fora. “Mas voltou muito bem, bonita como nunca e sem perda vocal”, lembra o irmão Tony Campello.

Celly Campelo cantando no Hollywood Rock 1975 Os pioneiros do rock Celly e Tony Campelo

Os pioneiros do rock Celly e Tony Campelo (Rogério Carneiro/VIP)

Mesmo essa ala supostamente bem comportada do rock teve sangue no palco – “Ganhei um violão da Giannini e não tive tempo de amaciar o bicho, machuquei o dedão”, conta Tony – e muita farra nos bastidores. “Lembro que ficamos hospedados no Hotel Glória, e o Eduardo Assad [pianista com quem tocaram, 1950-1990] divertiu a todos rebolando de tanguinha e salto plataforma.”

Celly, que no ano seguinte reconquistaria o Brasil com Estúpido Cupido batizando novela da Globo, aparece no filme Ritmo Alucinante sendo entrevistada por Scarlet Moon. E lacra uma velha polêmica até hoje requentada sobre rock nacional: “Uma vez que se cante na nossa língua é música brasileira”.

Erasmo teve um bandaço, a Cia. Paulista de Rock de Liminha, com Rubão Sabino (baixo), Ronaldo Leme (bateria) e Ion Muniz (sax e flauta) e o reforço de Sergio Kaffa (piano, O Terço). “Foi minha primeira entrega à música de músicos. Nunca tinha tocado com instrumentistas desse nível.”

O tremendão Erasmo Carlos no Hollywood Rock de 1975 O tremendão Erasmo Carlos parecia um indie dos anos 2000

O tremendão Erasmo Carlos parecia um indie dos anos 2000 (Rogério Carneiro/VIP)

Chegou a ser noticiado que o Hollywood Rock se estenderia por mais 30 shows, com uma turnê juntando de Erasmo a Rita e Tutti Frutti. “A estreia seria no autódromo de Tarumã (RS). Mas aí prenderam um cara cheio de LSD em um hotel, associaram ao show, e a Souza Cruz tirou o time”, reconstitui o Tremendão. Para Motta, provavelmente o incidente se refere a outro evento.

Passados 40 anos, o desencontro nas memórias é inevitável. Mas nada supera a conclusão mucho loca do Dops sobre aqueles dias de rock no Rio: “Os fatos acima relatados demonstram em que ponto se encontra nossa juventude, sendo corroída pelo vírus das drogas. Isso vem corroborar a existência do uso de tóxicos como arma política, visando o aliciamento, envolvimento e dependência química da juventude, tornando-a escrava da droga para, mediante chantagem e comprometimento, formá-la como novos informantes de agentes fiéis do comunismo internacional”.

Que viagem, bicho!

Os outros udistóques da taba

SP, PR e RS viveram seus dias de rock – bem, quase isso…

  • Em 17 de janeiro de 1975, seis dias depois de iniciado o Hollywood Rock, outro festival, bem mais espelhado em Woodstock, atraía roqueiros e hippies a uma fazenda em Iacanga, a cerca de 400 km de São Paulo. O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Moto Perpétuo e o grupo argentino Burmah eram algumas das atrações. Ao longo de três dias, cerca de 15 mil pessoas circularam pelo lugar, sem maiores sobressaltos ou perrengues.
  • Seis anos depois, em 1981, o evento retornou com patrocínio de banco e perfil diferente (Gonzagão, Gil, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti), fortalecido por outra geração de bandas (14 Bis, A Cor do Som). Em 1983, teve até João Gilberto, misturado a Paulinho da Viola, Sivuca, Premê e Língua de Trapo, e, em 1984, ainda rolaria uma derradeira edição.
  • De certa maneira, Águas Claras e o Hollywood Rock limparam a barra de tumultuados eventos anteriores como o Festival de Guarapari (ES), em 1971, e o de Cambé (PR), em 1973. “A desonestidade e o amadorismo dos empresários era gritante”, lembra Erasmo.
  • Nelson Motta tentou a sorte outra vez em 1976, em Saquarema (RJ), com o Som, Sol e Surf. “Entrei em outra loucura”, define. A chuva atrapalhou de novo e todas as atrações tiveram de ser concentradas em um dia: Rita Lee, Raul Seixas, Made in Brazil, Vímana, Flavio Y Spírito Santo e os novatos Ronaldo Resedá e Angela Ro Ro.
  • Em 1982, foi a vez do Woodstock gaúcho Cio da Terra: 15 mil pessoas se reuniram em Caxias do Sul, nos três últimos dias de outubro, para ver Jorge Mautner, Ednardo, Milton Nascimento e artistas locais como Nei Lisboa, Bebeto Alves e Nelson Coelho de Castro, entre outros.