Livro Fogo e Fúria é um retrato cru sobre o primeiro ano de Trump

Sucesso-relâmpago nos Estados Unidos, Fogo e Fúria é um retrato impiedoso do primeiro ano de governo do presidente americano

 (Nur Photo/Getty Images)

Em um trecho de Fogo e Fúria, cuja publicação no Brasil está inicialmente prevista para março pela editora Objetiva, o jornalista Michael Wolff faz uma associação que cria uma imagem perfeita da candidatura do bilionário Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, sua vitória inesperada e o caos de seu governo.

O autor compara a aventura de Trump à comédia Primavera para Hitler (1967), de Mel Brooks – refilmada e adaptada para o teatro na década de 2000 com o nome Os Produtores.

Assim como os produtores no filme, a candidatura de Trump foi planejada para ser um fracasso, segundo Wolff, e gerar lucros. No caso do bilionário, ele esperava faturar mais em seus negócios após a atenção recebida na campanha.

Em Primavera para Hitler, o espetáculo péssimo fez sucesso e estragou o golpe dos produtores. Nos Estados Unidos de 2016, Trump venceu a eleição sem ter se preparado para governar de verdade.

Com acesso à Casa Branca se fazendo de jornalista amigo, Wolff levantou histórias que expõem toda a loucura do governo.

Trump não lê relatórios, só se informa pela TV, não presta atenção quando o assunto lhe parece chato (quase todos), contraria conselhos da equipe mais próxima, detesta experts e está mais interessado em tuitar e criar impacto midiático.

 (Reprodução/Divulgação)

Na parte puramente fofoqueira, Wolff indica que o casamento de Trump com a ex-modelo Melania é de aparências e que ele realmente está careca. E há as intrigas palacianas.

De um lado, Steve Bannon, ícone da nova direita populista e rancorosa. Chefe do site Breitbart, assumiu a parte final da campanha e, depois, o posto de conselheiro estratégico. Bannon imaginava Trump como uma marionete para pôr em prática suas ideias ambiciosas.

Do lado oposto, o casal Jarvanka – apelido para Jared Kushner e a esposa Ivanka Trump, filha do presidente. Mais para democratas que republicanos, eles tentavam conter Trump e anular Bannon.

No meio, um político profissional da direita tradicional, Reince Priebus, chefe de gabinete da Casa Branca. Que detestava Bannon e Jarvanka, e teve de se demitir em julho.

Já Bannon duraria até outubro no governo. Principal fonte para o livro, Bannon foi demitido pelos proprietários bilionários do Breitbart poucos dias após a publicação.

Fogo e Fúria esgotou 250 mil cópias em menos de uma semana. A segunda tiragem foi de 1 milhão. Wolff sofreu críticas dos colegas.

Sua ética foi questionada ao trair a confiança de pessoas que lhe contaram segredos sob anonimato. Também foram apontadas incorreções. E as recriações de diálogos foram colocadas em dúvida.

Quanto a essa última crítica, Wolff pode se amparar nos mestres do jornalismo Gay Talese e Tom Wolfe. Em seus livros, eles também reconstituíram diálogos baseando-se na memória, anotações ou relatos de terceiros.

O contexto pesa mais que as palavras literais. E é fácil acreditar no teor de Fogo e Fúria.