No dia da poesia ruim, um duelo lírico entre Sarney e Temer

Uma data ideal para um país em que José Sarney e Michel Temer, dois beletristas inspirados, chegaram à Presidência

 (Andre Dusek/Agência Estado)

Entre tantas datas comemorativas bizarras existe o Dia da Poesia Ruim, que ocorre em 18 de agosto. Celebração muito adequada ao Brasil, cuja Presidência da República já teve como ocupantes dois magnânimos políticos que se aventuraram pela escrita poética, José Sarney (1985-1990) e o (ainda) atual Michel Temer.

Enquanto Temer tem apenas um livro lançado, Sarney conta com 21 obras publicadas e uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Diante de figuras de tal estatura, só nos resta comparar seus estilos.

Michel Temer

 (Lula Marques/)

Temática
Anônima Identidade foi lançado em 2012 e, segundo Temer, era uma compilação de poemas escritos por ele em guardanapos e outros papéis durante seu sexto mandato de deputado federal. Alguns de seus versos ainda são bem atuais. Como os do poema Em Fuga:

Está
Cada vez mais difícil
Fugir de mim!

Ou os de Passou:

Quando parei
Para pensar
Todos os pensamentos
Já haviam acontecido

O ápice é a natureza das motivações que Temer expressa em Pensamento:

Um homem sem causa
Nada causa

Crítica
Diferentemente de seu estilo de discurso como figura pública, cheio de mesóclises e linguagem rebuscada, o poeta Temer opta por versos curtos e concisos em seus aforismos superficiais.

José Sarney

 (Geraldo Magela/Revista VIP)

Temática
As poesias de Sarney são muito calcadas em seu querido Maranhão. Porém, o ex-presidente (1985-1990) não é adepto da louvação. Tomemos como exemplo o começo do poema Meditação sobre o Bacanga, de 1954:

As águas passam
É lua e as casas aparecem
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece

A saga de Narciso maranhense prossegue mais adiante:

Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
Buscam
O que não existe mais

Ignoremos o erro de concordância acima (“o brilho… buscam”) e nos deixemos tomar pelo fim do poema:

Meus olhos fenecem e o presságio dorme
No espelho das águas que
Escorrem

Crítica
São definitivas as palavras que o humorista Millôr Fernandes dedicou ao livro Marimbondos de Fogo, o mais conhecido de Sarney: “É um livro que, quando se larga, não se consegue mais pegar, né?”.