O que Ferris Bueller nos ensina em “Curtindo a Vida Adoidado”

Deliciosa fantasia de liberdade, o filme que conta o dia de vadiagem do adolescente Ferris Bueller merece ser relembrado e vivido

Ferris 1

 (Marina Stivi/VIP)

Bem, pouco mais de 30 anos já passaram e Ferris Bueller, o protagonista da comédia Curtindo a Vida Adoidado, continua sendo o herói de sua geração, tendo conquistado o status de ícone do cinema – uma posição que Michael Corleone, Luke Skywalker ou Indiana Jones levaram trilogias e vidas inteiras para atingir.

Tudo o que sabemos de Ferris se passa em menos de 24 horas: sem dilemas ou sofrimentos, sua saga se resume a uma folga da escola que ele mesmo se concede, levando junto a namoradinha e o melhor amigo. Nunca matar aula foi tão gostoso como naquela manhã ensolarada em Chicago.

Clássico instantâneo com cenas inesquecíveis (como a de Ferris dublando Twist and Shout, dos Beatles, no meio de um desfile de rua), Curtindo a Vida Adoidado é cultuado desde seu lançamento no segundo semestre de 1986.

Depois dos cinemas, manteve-se presente em videocassete, DVD, TV aberta e canais a cabo. E ainda é capaz de provocar em seus fãs o desejo de uma sequência.

Parece improvável, já que o obscuro roteirista independente Rick Rapier tentou convencer o mundo em 2011 de que existiam estúdios de Hollywood interessados no script de Curtindo a Vida Adoidado 2, mas o que vimos no final foi apenas um divertido comercial (2012) da Honda com o Ferris repetindo a dose aos 40 anos de idade.

A ideia do roteirista no fim não virou filme, no entanto, o que importa é que Ferris ainda tem o poder de estimular o ideal de liberdade masculina. Por isso, vale relembrar esse clássico do cinema. E o que as peripécias do rapaz podem nos ensinar.


Golpe de mestre: inventando o motivo para se dar uma folga

Um dia perfeito deve ser bem planejado – e, eventualmente, uma mentirinha é necessária. Curtindo a Vida, de maneira didática, ensina como enganar os pais e mestres. Mas a metodologia vale para driblar chefes, esposas e qualquer um que imponha uma agenda de obrigações em detrimento da pura diversão. Principais pontos:

1. Faça uma boa atuação: lance mão de sintomas não específicos, como mãos molhadas e gemidos, em vez das manjadas febre ou dor de cabeça (“É infantil e estúpido, mas a escola também é”, adverte Ferris).
2. Monte o circo: bonecos que reviram por um engenhoso sistema de roldanas, som ambiente, fita com resposta automática no interfone, invadir o sistema de controle de frequência, vale tudo.
3. Envolva sempre um terceiro para sustentar sua mentira: no caso, a morte de uma avó teve de ser confirmada através de ligações telefônicas falsas e secretárias eletrônicas customizadas (inclusive chegando à agência funerária).
4. Conte com o acaso: sempre chegará alguém na hora certa para livrar sua cara.
5. Plante boatos: eles reforçarão sua situação.

Três boatos sobre a saúde de Ferris

– Sofreu desmaio na sorveteria
– Passará por transplante de rim
– Ao morrer, doará seus olhos para o Stevie Wonder


O amigão do peito

Às vésperas de se tornar universitário, Cameron Frye é hipocondríaco, tímido, ignorado pelos pais e não iniciado sexualmente. Mesmo assim, é sério candidato a personagem coadjuvante mais famoso do cinema – afinal, é o melhor amigo de Ferris Bueller.

À primeira vista, ele parece apenas explorado por Ferris (principalmente por ter uma Ferrari à disposição em casa!). Mas, ao longo do filme, Cameron é o único personagem que passa por uma transformação, sendo o responsável pelo clímax do filme, quando decide romper com a pasmaceira de sua vida e enfrentar seu pai ausente.

curtindo a vida adoidado

 (Youtube/Reprodução)

Alan Ruck tinha 29 anos quando fez Cameron. Apesar da idade inadequada, era nascido em Chicago, cidade que abriga o filme, e o astro Matthew Broderick era seu melhor amigo na vida real.

Algumas lições que Cameron pode dar a qualquer marmanjo

1. Fique abaixo do radar. Cameron mata aula do mesmo jeito que Ferris, mas ninguém o caça.
2. Dissimule. Fingir catatonia para ver a namorada do amigo pelada pode parecer escroto, mas é tão ridículo que Ferris e a namorada Sloane levam numa boa.
3. Bote as coisas em perspectiva: com pais que se odeiam, Cameron vê tudo pelo lado positivo.
4. Tome uma atitude. Se uma Ferrari rara é motivo de discórdia na família, resolva o problema se livrando dela.


A mulher nota 1.000

Sloane Peterson é a namorada perfeita. A gata de Ferris topa qualquer parada, tem senso de humor e, acima de tudo, entra na piscina de lingerie.

 (Youtube/Reprodução)

No fundo, é romântica como era de se esperar e quer casar com Ferris – mas tem a delicadeza de fingir ser moderninha e desinteressada. Mia Sara, a atriz que vive Sloane, virou mito como a namorada de Bueller, mas resolveu sumir do mapa, deixando-nos desamparados.


O inimigo

Até um cara legal como Ferris tem um antagonista: Edward Rooney, o diretor sádico da Glenbrock North High School que tenta pegar o aluno no flagra da cabulação.

diretor curtindo a vida adoidado

 (Youtube/Reprodução)

Apesar de passar o filme quebrando a cara, o diretor tem a ilusão de que o futuro de Ferris está em suas mãos: “Daqui a 15 anos, quando sua vida estiver acabada, esse rapaz se lembrará de mim”


O passeio ideal

No filme, o trio gazeteiro passa por várias atrações de Chicago, de um restaurante a um jogo de beisebol. O momento mais lírico é no Art Institute.

O diretor John Hughes queria fazer a cena com o maior número de obras de arte da história do cinema. Por isso, os personagens passeiam entre obras de Picasso, Modigliani, Pollock, Gauguin, Rodin, Matisse… E Ferris e Sloane se beijam no vitral America Windows, de Marc Chagall.


O carro dos sonhos

Ferris lança a questão: “Se você tivesse um carro como este, o levaria direto para a garagem? Nem eu”. E Cameron nos apresenta a máquina: “Ferrari 250 GT California 1961. Menos de 100 foram feitas. Meu pai passou três anos reformando o carro. É seu orgulho, é seu amor, é sua paixão”.

ferrari curtindo a vida adoidado

 (Youtube/Reprodução)

A descrição não é exagerada: um exemplar original desse conversível não custaria, hoje, menos de US$ 10 milhões! No filme, foram usados quatro carros: um original, exibido parado, e três réplicas – uma foi destruída numa cena fundamental; outra está exposta num Planet Hollywood; e a terceira foi vendida num leilão na Inglaterra por £ 80 mil.

Uma má ideia… Voltar o hodômetro

Pegou um carro “emprestado” e quer encobrir a quilometragem? Não perca seu tempo suspendendo o carro com um macaco e engatando a marcha à ré. Ferris e Cameron testaram esse método e não obtiveram sucesso.

Ferris pensou em quebrar o vidro do painel e voltar a quilometragem no dedo, mas Cameron preferiu assumir a responsa… Ele está certo: adulterar o hodômetro é crime, infringindo o Código de Defesa do Consumidor e também o famoso artigo 171 do Código Penal, podendo render até cinco anos de prisão.


O principiante Charlie

Curtindo a Vida Adoidado também se destaca por ter sido um dos primeiros filmes do hoje notório Charlie Sheen. Ele faz uma participação curta como um rapaz detido na delegacia para onde a irmã de Ferris é levada.

charlie sheen

 (Youtube/Reprodução)

Curto e grosso, ele explica por que foi parar lá: “Drogas”. Visto hoje, parece até um papel autobiográfico…


Isto é Ferris Bueller

Tudo e mais um pouco sobre o guru dos gazeteiros de ontem, hoje e sempre

O ator

Matthew Broderick já foi o ator mais promissor de Hollywood. Aos 23 anos (mas com um físico de adolescente), vinha de uma série de peças na Broadway e tinha estreado no cinema em 1983.

Teve o primeiro sucesso comercial com Jogos de Guerra e, então, ganhou o papel de sua vida: Ferris Bueller, o maior de todos os grandes personagens criados pelo diretor John Hughes. Seu charme preguiçoso e fanfarrão e suas tiradas perfeitas foram integrados à cultura pop.

curtindo a vida adoidado

 (Curtindo a vida adoidado/Divulgação)

Hoje, Broderick é orgulhosamente lembrado por esse papel – mais do que por ser marido de Sarah Jessica Parker, a Carrie de Sex & the City.

O pensamento de Ferris

  • Eu tinha uma prova hoje, sobre socialismo europeu. Quem liga se eles são socialistas? Eles poderiam ser fascistas-anarquistas, e isso não  mudaria o fato de eu não ter um carro.
  • Não que eu apoie o fascismo, ou qualquer outro ‘ismo’. Na minha opinião, os ‘ismos’ não são bons. Não se deve acreditar em ‘ismos’, mas em si mesmo. Cito John Lennon: ‘Não acredito nos Beatles; só acredito em mim’. Falou tudo.
  • Pedi um carro e ganhei um computador. Isso é que é ter nascido num dia de azar.
  • Não pergunte o que vamos fazer; pergunte o que não vamos fazer.
  • Não se respeita alguém que puxa seu saco. Não funciona.
  • A compreensão é o que faz pessoas como nós tolerarmos pessoas como você.
  •  “Só os fracos se entregam; os mais fortes sobrevivem.

Ferris, o 5º Beatle?

Curtindo a Vida Adoidado é coalhado de citações e influências dos Beatles:

  • Enquanto dirigia o filme, John Hughes ouviu o Álbum Branco todos os dias, ao longo de todos os 56 dias de filmagem.
  • Ferris cita a letra de God, de John Lennon.
  • O número de faltas de Ferris – “Nine times!” – ao longo do semestre é repetido na mesma entonação de Revolution #9, faixa maluca do Álbum Branco.
  • Cameron usa uma camiseta do time de hóquei Detroit Red Wings. Referência aos Wings, banda de Paul McCartney nos anos 1970, e ao violão que Paul usava para tocar Yesterday naquela época, que tinha um adesivo com o distintivo dos Red Wings!
  • Ferris dubla Twist and Shout no meio da tradicional parada do dia de Von Steuben, que acontece todo ano em setembro no centro de Chicago, na cena mais memorável do filme.

A trilha sonora alto-astral

Love Missile F1-11Sigue Sigue Sputnik

Beat CityFlowerpot Men

Please Please Please (Let Me Get What I Want)The Dream Academy

Danke SchoenWayne Newton

Twist and ShoutThe Beatles

Oh YeahYello


O “pai” de Ferris

John Hughes é um “Woody Allen da juventude”. Com textos inteligentes e nenhuma apelação, engatou uma série incrível de comédias entre 1983 e 1986: Gatinhas e Gatões, Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado, A Garota de Rosa Shocking, Alguém Muito Especial e Mulher Nota Mil.

hughes curtindo a vida adoidado John Hughes e Matthew Broderick

John Hughes e Matthew Broderick (Youtube/Reprodução)

Em 1990, depois de fazer Esqueceram de Mim, aposentou-se. Morou numa fazenda até morrer em 2009, aos 59 anos.