O que tem de errado no culto às celebridades?

Sempre que encontro coisas assim universalmente desprezadas, sinto vontade de defendê-las, já que ninguém quer fazer isso. Então, lá vai

o que tem de errado no culto as celebridades

Há um tipo de homem que não aguenta companhia feminina. Três mulheres na mesa conversando, eles levantam e vão ler o caderno de carros do jornal. Isso por mais bonitas que as mulheres sejam – não importa, eles não se interessam pela mente das mulheres.
E não os culpo, porque os sexos quando separados ficam muito chatos. Só juntando homens e mulheres é que ambos fazem um esforço para se tornarem interessantes e diversificar os assuntos. Às vezes, até param de arrotar e peidar por tempo suficiente para conseguir levar alguém para cama. Só há civilização na mistura dos sexos.

Mas esse tipo de homem não acha isso. Companhia 100% masculina é agradável para ele. É tão másculo que casaria com outro homem igualmente másculo só para nunca mais ter que ouvir dez segundos de conversa sobre esmalte.
Se você é assim, talvez seja melhor não ir ver o filme novo de Sofia Coppola, The Bling Ring. Quatro garotas, a mãe sonsa de duas delas e um menino gay. Às vezes, aparece um pai, mas, assim, de longe. É o filme mais girly desde Quatro Amigas um Jeans Viajante (2005).

Digo isso mas não quero comparar os dois: The Bling Ring é um filme excelente. Se o estrogênio todo não o incomoda, assista. É a história de uma gangue de garotas de classe média alta que em 2009 entrou nas casas de Paris Hilton, Orlando Bloom, Lindsay Lohan e Megan Fox para roubar joias, bolsas e sapatos. Não neutralizavam alarmes nem forçavam trancas: inacreditavelmente, encontraram essas casas abertas, ou com a chave debaixo do capacho.

Quase todas as críticas ao filme e até o relatório da polícia de Los Angeles usam a expressão “culto a celebridades” para explicar a história. Isso não pode ser completamente verdade. As garotas parecem ter sido motivadas mais por um desejo normal por roupas de grife. Escolheram a casa de Paris Hilton, por exemplo, por ela ser “burra” e portanto ter uma casa fácil de entrar – e, de fato, foi Paris Hilton que deixou a chave da casa debaixo do capacho (o filme zomba generosamente de Hilton, que aparece em uma cena. Ela não percebeu que estavam zombando dela? É bem capaz).

Mas é verdade pelo menos no caso da líder da gangue, uma menina americana elegante de origem coreana, que passou tempo demais cobiçando as roupas que aparecem em Gossip Girl, chama Lindsay Lohan de sua “ídola fashion” e admira o estilo das roupas de Megan Fox e Audrina Patridge (famosa por reality shows). No filme, a menina tem algo de admirável no sangue-frio com que invade as casas e na facilidade com que manipula todas as amigas.

“Culto a celebridades” é uma dessas expressões (como “neoliberal” ou “hipster”) sempre usadas como acusação. Ninguém nunca se diz “neoliberal” ou “hipster”, nem ninguém diz que faz “culto a celebridades”. Sempre que encontro coisas assim universalmente desprezadas sinto vontade de defendê-las, já que ninguém quer fazer isso. Então, lá vai.

Qual o problema com o “culto a celebridades”? Não vejo o problema de se interessar pela vida de pessoas muito mais bonitas do que as que vivem no seu prédio. Que elas tenham personalidades tão estragadas a ponto de sempre fazerem escândalos, e dinheiro suficiente para que os escândalos sejam em larga escala, só as tornam mais interessantes, como gravuras antigas de deformidades de pele. É um interesse natural. Não compreendo quem não o tenha – deve ter muita falta de curiosidade. E de qualquer modo é bem menos chato observar os rituais de acasalamento de Scarlett Johansson do que o de dois periquitos-testinha no alto de uma sibipiruna. Sei porque já tentei fazer os dois.

Como todos os impulsos normais, é claro que passa a ser ruim se se transformar no centro da sua vida. É o que acontece com a líder da gangue, Rachel Lee na vida real, chamada Rebecca Ahn no filme. Presa, pergunta ao policial se ele falou com as vítimas. “Falei com todas”, ele diz. “É? E o que a Lindsay disse?”, ela pergunta de olhos arregalados. (Conheci várias garotas que passavam pelo menos uma hora por dia lendo sites de fofocas, mas esse costume americano de chamar celebridades pelo primeiro nome, “Lindsay”, “Orlando”, “Vivica”, felizmente não pegou por aqui, acho, e é bastante sinistro.)

É o retrato de uma vacuidade perfeita. Nenhuma das garotas tem nada na sua vida além desse amor por sapatos e celebridades. Nem arte, nem religião, nem laços afetivos existem para elas. Sua arte é rap e séries de TV (não necessariamente as melhores); religião é O Segredo, que a mãe das meninas menciona com reverência. A amizade entre elas se desfaz na primeira revista policial às suas casas. A única pessoa com alguma coisa mais real no espírito, o menino gay (mas para de ler se não viu o filme) que ama a líder da gangue “como uma irmã” e a acompanha nos roubos mais para agradá-la que qualquer coisa, é também o único que termina com o coração partido. Seu horror final, pelo menos no filme, é a percepção da vacuidade da pessoa que amava.

E é a vacuidade de toda uma cultura – nossa também, já que não nos caracterizamos por nenhuma arte antiga ou sabedoria profunda. Sem nada na cabeça, admiramos atletas, políticos, modelos, atores e outros tipos de pessoas cujo maior talento é ter uma boa pele. Sofia Coppola conseguiu fazer um bom filme com esse tema, essa admiração deslocada e tola. É o seu melhor filme desde Encontros e Desencontros (2003).