Os gringos redescobrem LP’s raros de Erasmo e Gal

Antigos LPs de MPB que andam meio jogados de lado por aqui ganham novas prensagens nos Estados Unidos e no Reino Unido

Erasmo Carlos, Gal Costa e Roberto Carlos. Erasmo Carlos, Gal Costa e Roberto Carlos: enquanto os dois primeiros são redescobertos, o outro é figura carimbada no mercado fonográfico latino

Erasmo Carlos, Gal Costa e Roberto Carlos: enquanto os dois primeiros são redescobertos, o outro é figura carimbada no mercado fonográfico latino (Fernando Seixas/Reprodução)

Um novo boom brasileiro: discos de MPB dos anos 60 e, principalmente, dos 70 estão ressurgindo nos Estados Unidos e no Reino Unido com novas prensagens feitas por lá.

Em muitos casos, são LPs dificílimos de ser encontrados em nosso próprio país.

Mas alguns selos pequenos, com foco em colecionadores e DJs à procura de novos beats, decidiram fazer seus próprios relançamentos de sons valiosos.

Os mais recentes são três LPs de Erasmo Carlos e um de Gal Costa que teve sua capa censurada no Brasil pela ditadura militar (leia mais ao lado).

Nos Estados Unidos, há até um grande especialista em música brasileira que escreve para publicações como Pitchfork e Rolling Stone.

É Andy Beta, cuja porta de entrada para nossa música deve-se a uma descoberta acidental de David Byrne, ex-líder da banda Talking Heads.

De acordo com a lenda, Byrne procurava discos de samba num sebo no Rio de Janeiro quando se deparou com o arame farpado que ilustra a capa de Estudando o Samba, LP de 1975 do baiano Tom Zé.

Byrne comprou o disco e apaixonou-se pelos sons bizarros.

Tratou de lançar nos Estados Unidos por seu selo próprio uma coletânea de Tom Zé. Aí começa a paixão de Andy Beta.

“Foi em 1993. Já escutava bandas estranhas como Sonic Youth e Butthole Surfers quando ouvi Brazil Classics 4: The Best of Tom Zé, disco que era do meu pai. Acostumado com ruídos e gritos em música, aquilo soou muito bem.”

Nos anos 70 Erasmo era só paz e amor. Hoje é cult no exterior

Nos anos 70 Erasmo era só paz e amor. Hoje é cult no exterior (Divulgação/Revista VIP)

Hoje, Beta é um dos principais expoentes do resgate da música brasileira nos Estados Unidos. A mídia especializada endossa a descoberta explicando o momento que o Brasil atravessava quando os discos saíram.

Um movimento como a Tropicália tem grande apelo aos “brasilianistas” pela musicalidade.

“A música da Tropicália é singular e direta. Percebe-se que há muita inteligência nos arranjos, assim como uma noção quase erótica nas canções”, avalia Beta. Ele aponta que os artistas daqueles tempos são referência sonora hoje.

Produtores atuais encontram novos sons para seus samples ou composições. Luiz Bonfá teve um sample usado no hit internacional Somebody That I Used to Know. E Gal Costa teve sua música Pontos de Luz transformada na eletrônica Lite Spots pelo DJ Kaytranada.

No Reino Unido, uma loja-selo fundada por um DJ de Londres em 1989 é hoje o grande fornecedor de sons do Brasil. O Mr. Bongo faz reedições de LPs e compactos de 45 rotações.

Na série Brazil 45s, é possível encontrar raridades de artistas como Cassiano ou Antonio Adolfo.

“É música que você pode dançar”, elogia David Buttle, o criador do Mr. Bongo. Ele explica que busca obter permissão com os detentores dos direitos – uma grande gravadora ou o próprio artista (ou sua família, caso tenha morrido).

“Queremos mostrar como a música do Brasil é rica. Acho que surpreendemos até alguns colecionadores brasileiros com a quantidade de músicas ótimas que estavam por ser redescobertas”, diz Buttle.


As “novidades”

Discos de Erasmo relançados em Seattle e um clássico LP censurado de Gal ressurge no Reino Unido

Erasmo paz e amor

 (Divulgação/Revista VIP)

A Jovem Guarda já era passado quando saíram os LPs Erasmo Carlos e Os Tremendões (1970), Carlos, ERASMO… (1971) e Sonhos e Memórias 1941-1972 (1972).

Neles, Erasmo mostra todo seu potencial como compositor e arranjador, abandonando o rock pop simples do início de carreira por um som malicioso, cheio de groove e soul.

Os três foram relançados pela Light In The Attic, pequena gravadora de Seattle, que reproduziu a arte original e acrescentou notas e traduções das letras. Os LPs custam US$ 19 ou US$ 20 individualmente e a compra dos três juntos sai por US$ 50.

 

Gal proibida

 (Divulgação/Revista VIP)

O selo inglês Mr. Bongo fez o que não foi feito no Brasil: relançou Índia, LP de Gal Costa de 1973, com a capa original que foi proibida pela ditadura militar brasileira na época.

A imagem traz um close nada discreto de uma tanga (e, na contracapa, Gal aparecia como indígena, com os seios à mostra).

A censura do regime impôs que o disco só podia ser vendido com um plástico escuro que escondesse as fotos. Mas o conteúdo do vinil traz Gal no auge de sua carreira com faixas como Índia, Presente Cotidiano e Desafinado.