Esportes

24 Horas de Le Mans: vanguarda e velocidade na mais longa prova do mundo

(Wikipedia Commons/Reprodução)

O futuro está no passado. Automóvel como conhecemos vai acabar.

Os jovens já não gostam de dirigir. Quem mora em grandes cidades não quer mais saber de carro. O motor a combustão é vilão do ambiente.

A audiência da F1 vem despencando.Ninguém diz que as afirmações acima estão equivocadas – pelo contrário, elas sinalizam uma tendência que já vem sendo apontada por especialistas há vários anos.

Mas basta ficar dois dias no meio de uma simpática cidade no interior da França para entender.

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A questão é bem mais complexa – e surpreendente, mostrando que esse cenário pode até mesmo trazer mais glamour ao já concorrido mundo do esporte a motor.

VIP esteve na edição 2018 das 24 Horas de Le Mans, a prova de longa duração mais importante do planeta.

Criada em 1923, ela reúne a nata do automobilismo e, assim como a F1 fez a fama da Ferrari, dá para dizer que sua rival, a Porsche, criou a aura de melhor carro do mundo no solo francês.

Não por acaso, a marca de Stuttgart é a maior vencedora da prova, com 19 vitórias.

Mais de 300 mil pessoas estiveram no evento que todos aguardam como o dia mais especial do ano – ou de uma vida (pergunte àqueles que tentaram e jamais venceram a corrida).

Milhões de euros foram investidos em uma festa que só tem paralelo nos grandes eventos esportivos – não é exagero a comparação com uma espécie de Copa do Mundo ou Olimpíada que ocorre todo ano.

Há nomes que transcendem o esporte, e esse é o caso de Senna. Falam muito dele hoje, vão falar daqui 10, 100, 200 anos, até no dia em que a F1 for disputada em foguetes no espaço” Martin Brundle, piloto (Wikipedia Commons/Reprodução)

Mas será que todos não leram as afirmações que abrem este texto?

Será que tanta gente assim está enganada?

Não: ao contrário, a impressão que se tem em Le Mans é que, quanto mais longe o automóvel estiver do nosso dia a dia, mais cool será o esporte a motor.

Isso talvez não seja tão simples de se explicar, então vamos voltar ao tempo de Steve McQueen, chamado de “King of Cool” há cinco décadas.

Em 1971, ele estrelou o filme As 24 Horas de Le Mans, dirigido por Lee H. Katzin.

E quando dizemos que ele é cool, não é só figura de linguagem.

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Ele dispensou o dublê nas cenas pilotando o carro e quis o destino que aquela edição das 24 Horas tivesse a volta mais rápida de todos os tempos, com o célebre Porsche 917, praticamente um F1 em forma de protótipo.

Os carros eram tão velozes que, por segurança, foram adicionadas no ano seguinte chicanes no traçado para cortar as retas (e, obviamente, o recorde nunca mais foi batido).

Todos os elementos que transformaram McQueen em um símbolo cool ainda estão em Le Mans em 2018 – os quais seguem altamente explorados hoje por marcas como Porsche, Toyota, Rolex e TAG Heuer.

“As 24 Horas de Le Mans são uma referência, uma ótima vitrine de produtos e uma oportunidade de relacionamento com os clientes. É algo único”, diz Frank-Steffen Walliser, vice-presidente de motorsport da Porsche, que participou da prova deste ano com 10 dos 60 carros inscritos.

Desafiar os perigos de um carro a mais de 350 km/h, dirigir em condições extremas, na chuva e à noite, com a perícia de não poder cometer um único erro em uma prova de mais de 5 mil quilômetros…

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É por isso que pilotos são tão admirados – e no Brasil temos um exemplo perfeito dessa identificação de um grande esportista nos carros como um herói nacional: Ayrton Senna.

Isso é algo global e que durará séculos, como disse à VIP Martin Brundle, rival do brasileiro na F3 inglesa.

“Há nomes que transcendem o esporte, e esse é o caso de Senna.

Falam hoje dele, vão falar daqui a 10, 100, 200 anos, até no dia em que a F1 for disputada em foguetes no espaço”, disse o atual comentarista da TV britânica.

E quando poucos quiserem dirigir carros?

Quando o mundo estiver se deslocando em veículos autônomos?

“As equipes oficiais apostam em Le Mans porque aprendem mais em um dia de competição aqui do que em um ano em pistas de testes e laboratórios”- Tom Kristensen, nove vezes campeão de Le Mans (Daily Sport Car/Reprodução)

A aposta é que, para a grande maioria da população, o ato de pilotar será ainda mais admirado.

Pense em um filme de faroeste, por exemplo.

Se hoje eles parecem fora de contexto, certamente criaram um modelo a ser seguido – que o diga Clint Eastwood

Domar um cavalo pode parecer selvagem hoje, e tudo indica que domar uma máquina de centenas de cavalos de potência pode, em pouco tempo, ser um ato igualmente admirado.

“Dirigir já é um ato cool, pilotar um carro de corrida no limite é ainda mais incrível. Isso fascina milhares de pessoas e vai continuar fascinando”, explica o ator Patrick Dempsey, que também já pilotou nas 24 Horas de Le Mans e hoje comanda equipes da Porsche na categoria GT-AM.

(Porsche Newsroom/Reprodução)

Além de produzir heróis, Le Mans também ajudará a desenvolver o futuro das competições – até com tecnologias que venham a ser descobertas.

Em 2018, foi anunciada uma futura categoria para carros movidos a hidrogênio.

“As equipes oficiais aprendem mais em um dia de competição em Le Mans do que em um ano em pistas de testes e laboratórios”, afirma o maior vencedor da prova, o dinamarquês Tom Kristensen, que acumula nove vitórias nas 24 Horas mais famosas do mundo.

O evento não é tão popular no Brasil quanto a F1 e a Indy-500, algo talvez explicado pelo fato de o país nunca ter vencido na classificação geral, tendo apenas o segundo lugar como o melhor resultado (feitos de José Carlos Pace, Raul Boesel e Lucas di Grassi).

Mas, para os europeus, a competição é tão valorizada quanto um título na F1, em que torcedores acompanham suas marcas e seus pilotos favoritos.

“Quem vence a tríplice coroa, com o GP de Mônaco da F1, Indy-500 e 24 Horas de Le Mans, sem dúvida é o piloto mais completo”, aponta Fernando Alonso, bicampeão da F1.

Ele mesmo está atrás desse recorde – no mês passado, venceu em Le Mans com a Toyota e agora busca a vitória na Indy-500 para se igualar ao até hoje único a atingir esse feito: o britânico Graham Hill.

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