Abre a guarda, Muricy

Quatro títulos brasileiros em cinco anos. Workaholic assumido. Fama de bravo, de rabugento, de fechado, de ranzinza com a imprensa. Mas aqui o técnico que disse “não” à Seleção para ser campeão pelo Fluminense se abre com as Matadoras

Dani – O Fluminense conquistou o Brasileiro 2010. E este ano?
Temos que melhorar a estrutura. Quando cheguei, me levaram para treinar num lugar horrível, sem a mínima condição. Se eu tivesse pegado pesado mesmo, tinha voltado na hora para São Paulo. Não é porque ganhamos o Brasileiro que não precisa ter estrutura. A gente conseguiu encaixar um bom campeonato. O grande problema é conseguir se manter. É isso que eles não entendem e vão ter que entender, senão eu vou embora. Não dá para fazer milagre e o ano passado foi um milagrezinho.

Dani – Não tem medo de bater de frente com dirigente?
Para agradar dirigente, sou o pior. Comigo não tem conversa. Eu cobro até a alma deles. Eles cobram a minha alma! Quando eu não aceitei a Seleção, um dirigente veio: “Ah, Muricy, nunca vi um cara  como você…”. Eu falei: “Psiu, não vem me agradar, não. Amanhã, se eu não ganhar, você vai me mandar embora”.

Dani – Se o Flu não tivesse conquistado o título, você teria continuado?
Sou meio teimoso, gosto de ir até o final do contrato. Não desisto das coisas. Quer dizer, não desisto se a diretoria que estiver trabalhando comigo for parceira. Se eu sentir que o cara ao lado não é de confiança, não tem acordo.

Mônica – Você é bom vendedor quando tem que “autonegociar”?
É. Eu cobro o que eu dou. Se foram em São Paulo me buscar, eles tinham confiança que eu daria resultado. Consegui isso nos primeiros seis meses e já valeu o investimento deles. Não baixo um centavo nos meus contratos. Não sou daqueles que pedem alto para depois chegar em um valor na contraproposta.

Mônica – Você acha que hoje é o melhor técnico do Brasil? Sem falsa modéstia, hein?…
Estou entre os feras, não devo para ninguém. Mano, Felipão, Vanderlei… Estou no mesmo patamar deles.

Dani – Como o técnico se atualiza?
Vendo jogos, lendo. Precisa ficar atento se o esquema tático não está defasado. Aí vai buscar onde? Jogos. O mais importante é assistir às partidas. A coisa mais dura é a rotina. Se você for muito repetitivo, os jogadores não te aguentam. Tem que ser criativo para não virar um mala, um chato.

Dani – Falando em chato, você pega no pé dos jogadores?
Fora de campo, não quero saber se o jogador é veado, se usa brinco, se sai, o que faz e o caramba… Quero saber dele dentro de campo. E vou sugá-lo! Se eu percebo que o rendimento está ruim, eu chamo de lado. Eles pensam que a gente não sabe das baladas? A gente sabe. Já fui muito bom nisso…

Mônica – Você era da farra?
Gostava, gostava… Eu aproveitava. Gostava de rock, era cabeludo. Não tinha tantas facilidades porque jogador, na minha época, não era bem visto, não entrava nos lugares famosos como hoje. Mas as mariaschuteiras não mudam. Eram iguais. Eu ia pegar meu carro depois do treino, tinha dez em volta. Elas sabiam os bares que a gente frequentava, iam atrás, davam presentes.

Mônica – Então era namoradeiro?
Eu era f***… Era jogador, né? Boleirão, cabeludo! Naquele tempo era moda, hippie. Usava boca de sino. Lembro até hoje: pedi para uma costureira fazer uma calça verdemusgo com um bocão. Era a maior onda, fazia sucesso com as meninas! Quem chegava nos lugares com essas bocas de sino arrastando no chão era o fera!

Mônica – Então você sabe como domar os caras.
Eu sei como jogador é. Sou duro. Não acredito nesse negócio de motivação, de passar vídeo na preleção com a avó, a mãe do cara falando… Eu vou cobrá-los porque são pagos para isso. Podem fazer o que quiserem, mas aqui quero retorno. O Adriano, por exemplo, jogou comigo no São Paulo. Ele queria fazer a mesma coisa que fazia aqui no Rio. O Adriano é um cavalo para treinar, não faz corpo mole em campo, não escolhe quando quer jogar. Mas, no “pós-jogo”, não quer treinar. Por quê? Porque vai para a balada mesmo. Ele falava para a gente. Aí eu dizia para ele: “Vai, mas amanhã tem que vir treinar, porque em São Paulo é duro. Se a imprensa chegar e você não estiver, o que vou falar? Então vem aqui, dá uma olhadinha para eles, mostra a cara, dá um miguezinho e vai embora…” Eu não ia proibi-lo de beber e sair. Não ia adiantar mesmo, eu ia ficar com cara de otário.

Mônica – Tem muito jogador burro?
Estão melhorando. Eles têm que acreditar que tudo isso que estão vivendo acaba rápido, é uma mentira, é uma ilusão. Sei disso. Eu joguei, passa de repente. Muitos profissionais como eles acabaram mal. Eu orientei, o Telê [Santana] orientava… Sei que eles olharam para minha cara e pensaram: “Ah, o que esse bobão está falando? Para não comprar carro importado?”. O Telê cansou de falar para comprarem antes uma casa, largarem o aluguel…

Dani – Seu maior sonho era ser técnico da Seleção Brasileira. Você recebeu o convite. Que aconteceu?
Eu saí da reunião com o Ricardo Teixeira [presidente da CBF] já como o técnico da Seleção. Um dia antes, um representante tinha conversado comigo no Maracanã depois do jogo contra o Cruzeiro. Falou que o presidente queria tomar café comigo. Pensei: “Vou lá para ver qual é a do cara” [risos]. No dia seguinte, conversamos quase três horas sobre estrutura, sobre o centro de treinamento que vão fazer, sobre calendário, sobre “renovar”… Ele falou que eu era a primeira opção dele. Só que, antes de ir embora, falei que tinha um problema: a mania de cumprir meus contratos até o final. Eu precisava conversar com o Fluminense, não podia simplesmente ligar e dizer “não vou mais”. Quando falei isso para o Ricardo, senti que existia uma confusão entre ele e o presidente do Fluminense [Roberto Horcades, que deixou o cargo no final de 2010]. Era o caso de o Teixeira dar uma ligadinha… Mas não ligou e eles falaram que não iam me liberar. A única chance era que o Teixeira ligasse para o Horcades. Não aconteceu e tive que cumprir meu contrato.

Dani – E hoje, quando você pensa que não foi…?
Ah, eu fiquei contente depois do jogo em que vencemos o campeonato [1 x 0 sobre o Guarani, na última rodada]. A pessoa que é correta vai ser recompensada. O Homem lá em cima não me deixa de castigo por muito tempo.

Dani – Você ia ganhar quanto?
Não sei, não chegamos a falar em dinheiro. Sei lá, é uma coisa deles, não falam em salário. Um técnico de Seleção Brasileira não ganha tanto, mas ganha por outras coisas. Patrocínio, por exemplo. É uma coisa diplomática: quando o cara é chamado para dirigir a Seleção, nem pergunta quanto vai ganhar. Você está representando um país, né? Vamos combinar que somos profissionais, tudo é dinheiro. Mas não é legal falar sobre isso primeiro.

Dani – Dizem que muitos treinadores escalam jogador para ganhar uma porcentagem quando ele for vendido. Você acredita nisso? Ou faria isso?
Eu não converso com empresário. Não tenho acordo com coisa ruim. Não faço esse tipo de acordo. Só quero saber se o meu time vai ganhar. Se você for ver, está muito claro no Brasil quem faz esse tipo de coisa e quem não faz. Sei quem faz, tem um monte. Jogador e clube acabam prejudicados. Porque, às vezes, escalam uns caras que não jogam nada.

Mônica – O que você faz com o dinheiro que ganha?
Eu aplico. Compro imóveis.

Mônica – Você gosta de luxo?
Eu ando no Rio de Janeiro de táxi. Ando na rua de bermuda e chinelo. Não compro roupa, não tenho vaidade de me vestir bem, por isso nem gosto de ir a programas de televisão. Não gosto nem de sair, prefiro jantar em casa.

Mônica – Você cozinha?
Quando estou em casa, abro uma cervejinha ou um vinho e gosto de ver programa de culinária, como o do Olivier [Anquier, no canal pago GNT]. Aprendi a fazer risoto. Fui atrás dos queijos importados que ele usou para deixar igualzinho. Ele espalhou o risoto no prato e fez uma decoração. Quis fazer no meu também! Coloquei a calabresa com molho de tomate no meio, coloquei azeite, uns verdinhos… porque não é só comer, tem que decorar o prato, né?! Ficou bonito para caramba! [Risos] Faço um filé mignon bom também.

Mônica – E outras habilidades?
Ah, ajudo a minha mulher nos serviços de casa. Um dia, chegou uma empregada nova e eu estava lavando a louça [risos]. Ela ficou olhando, estranhou. Eu sou assim, não tenho frescura. Pego a vassoura, varro a casa, não fico quieto. E cuido das minhas cachorras, são como filhas para mim.

Mônica – Você tem cara de ter umas manias chatas…
Eu tenho mania de ver jogo. Sento no sofá e não deixo ninguém chegar perto. Não  enjoo, é meu trabalho. Assisto a jogo de terceira divisão, 11 da manhã do domingo. Cada p*** jogo ruim que eu vejo!…

Mônica – Você faz exame cardíaco com frequência?
Faço todos. Eu perdi meu pai de infarto. Nos jogos, parece que eu vou infartar. Mas sei que minha pressão é boa, meus exames estão bons. O problema é a ansiedade. Vocês não imaginam como estava isso aqui [o Fluminense] no final do campeonato. Um barril de pólvora. Mas eu achava que a gente ia ganhar.

Dani – Antes ou depois do sonho que teve com o Telê Santana [Muricy foi auxiliar de Telê no São Paulo nos anos 1990]?
Antes eu já achava. Depois do sonho [na noite anterior ao último jogo do Fluminense no Brasileirão], mais ainda. O Telê era o cara mais chato do mundo, sempre bravo, nunca dava um sorriso. O que me chamou a atenção no sonho é que ele estava dando muita risada, muito feliz. Ele me abraçou, parecia muito real. Aí tive certeza de que ia ganhar.

Dani – Voltando ao outro sonho… a Seleção ainda é seu maior sonho?
A Seleção é muito boa para qualquer treinador, como continua sendo para mim. Mas eu sou um cara realista. Temos um treinador lá agora, ele tem um projeto, vai ter tempo para preparar o time. Não vai sofrer com Eliminatórias como o Dunga.

Dani – Você acha que o Dunga fez besteira na Seleção?
O retrospecto dele é bom para caramba! Até o fim do primeiro tempo contra a Holanda, na Copa do Mundo, a aceitação do Dunga era altíssima! Mas você percebia que tinha um clima de “nada pode”. Eu não gosto. Não acho que jogador tem que viver preso. Mas não foi por isso que o Brasil não ganhou. Posso falar? Se ele tivesse ganhado a Copa, seria o melhor do  mundo. Perdeu em 45 minutos, ninguém chama o cara para trabalhar. No Brasil, quem perde está morto. Quem ganha pode tudo. O Felipão não xinga vocês?

Mônica – Quem é mais mal-humorado, você ou Felipão?
Acho que é ele. Ele briga mais com vocês do que eu! Fico bravo em entrevistas, mas não xingo, não destrato. O Felipão briga, chama os caras de palhaços! Adorei isso [risos]. A maioria da imprensa é muito chata. O torcedor me para na rua e diz: “Muricy, eu assisto às entrevistas por sua causa”. Torcedor gosta, tem que pôr uma pimentinha para ficar legal. E quer saber? Os caras da imprensa adoram,  porque dá audiência! Já me encheram o saco para fazer terapia. Mas só vou ficar calmo no dia em que largar o futebol.

Mônica – Com todo o respeito, Muricy, precisamos fazer uma pergunta: você é matador?
[Risos] Eu não sou ruim, não! Você perguntou para o cara certo! Só que eu sou matador em casa. Sou fiel para caramba. Mas sou matador!