Braguinha: o maior fazedor de ídolos do esporte brasileiro

Ex-banqueiro, ele é o maior mecenas do esporte brasileiro: patrocinou, por pura paixão, atletas como Senna, Guga e a geração de prata do vôlei

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Braguinha, aos 90 anos: o homem que deu força a Pelé, Fittipaldi, Senna, Guga, a turma do vôlei e medalhistas olímpicos. Quer mais? (Adriano Fagundes/Revista VIP)

Em seu apartamento em Nova York, numa tarde de 1970, o então empresário Antônio Carlos de Almeida Braga recebeu um jovem estreante na Fórmula 1. Braguinha, como era conhecido, já era um milionário: havia ajudado a transformar a seguradora Atlântica, criada por seu pai em 1935, em uma potência ao comprar 30 outras seguradoras.

Quando Emerson Fittipaldi chegou, o anfitrião estava diante de quatro TVs, uma ao lado da outra – e cada uma ligada em um canal esportivo. “Ele me procurou e ofereceu ajuda”, conta o ex-piloto, que ficou assustado com a oferta desinteressada vinda de um sujeito que ele nem conhecia.

O episódio é apenas um dos diversos que revelam o amor deste que é o maior mecenas da história do esporte nacional.

Além de Fittipaldi, Braguinha apoiou financeiramente, por meio de sua empresa, nomes como Ayrton Senna, Torben Grael, Guga Kuerten e Pelé. O capital vinha de seus negócios.

Depois de assumir a Companhia Atlântica, ele a expandiu com a compra da Boavista. No início dos anos 80, a empresa fundiu-se com a Bradesco Seguros. Braguinha tornou-se então um dos maiores acionistas e presidente do Bradesco, até se aposentar no fim daquela década.

“O Braga me apoiou desde o início. Em 1972, quando ganhei meu primeiro título em Monza, ele estava lá”, relembra Fittipaldi. “Não era só dinheiro, não era burocrático. Ele ia, torcia, ficava na pista. E em 1973, quando ganhei o Grande Prêmio Brasil pela primeira vez, fiquei hospedado na casa dele de Angra dos Reis. Ele me falou para convidar o Jackie Stewart, meu maior rival na época, para ficar lá também. Só o Braguinha para conseguir isso: os dois pilotos que disputavam o título hospedados na mesma casa, na maior amizade.”

Nos anos 70, Braguinha lado a lado com os dois maiores nomes do esporte nacional naquela época: Emerson Fittipaldi e Pelé, tricampeão do mundo

Nos anos 70, Braguinha lado a lado com os dois maiores nomes do esporte nacional naquela época: Emerson Fittipaldi e Pelé, tricampeão do mundo (DEDOC/Reprodução)

O bicampeão de F1 foi o primeiro de muitos esportistas – alguns de renome, outros nem tanto – a desfrutar da amizade de Braguinha. Em sua quinta em Sintra, em Portugal, mantinha um quarto para um deles em especial: Ayrton Senna.

“Não era um quarto de hóspedes, era o ‘quarto do Ayrton’. O Braga tratava-o como filho. Uma das filhas dele me disse: ‘Papai tem o Ayrton como o filho esportista que não teve’”, conta Jayme Brito, produtor executivo de F1 na Globo há 25 anos, lembrando que Braguinha estava em Ímola quando Senna morreu, em 1994. “Ele ia a todas as corridas na Europa e no Brasil. Depois daquele dia, levou anos até pisar em um circuito novamente.”

No fim de abril daquele ano, o então jovem tenista Gustavo Kuerten chegou a Lisboa para um torneio. O técnico Larri Passos recebeu um recado para ligar para Braguinha, que já apoiava seu pupilo, e ouviu um convite: “O Senna vai correr na Itália no domingo e depois vem passar uns dias comigo em Portugal. Venha aqui em casa com o Guga para conhecer o Ayrton”.

Era o fatídico Grande Prêmio de San Marino. “Dias depois da notícia da morte do Senna, estava jogando contra um português na final do torneio quando vi Braguinha na plateia”, relata o ex-tenista em seu livro, Guga, Um Brasileiro.

“Primeiro fiquei abalado, pois ele personificava para mim a perda do maior esportista brasileiro em atividade. Depois, preocupado. Como estaria o meu amigo? Provavelmente destruído depois da morte de uma pessoa que ele considerava um filho. Ao mesmo tempo, me senti lisonjeado por ele estar ali para me ver. Naquela época eu não tinha a mesma amizade, proximidade ou afinidade, mas queria vencer para dar ao Braguinha o mesmo tipo de alegria que o Senna lhe dava. Ganhei a partida e fui campeão pela primeira vez num torneio satélite. Aquele troféu foi para ele.”

Geração de prata

O carinho com que cada atleta procurado pela VIP fala de Braguinha impressiona. De medalhistas olímpicos ao menino que hoje, aos 19 anos, faz faculdade nos Estados Unidos graças a ele.

O tenista Gabriel Dabdab tinha 15 anos quando sua mãe pegou suas duas irmãs gêmeas pelas mãos e resolveu pedir ajuda a Braguinha. Ela tinha lido que ele morava na Vieira Souto. Como não sabia em qual prédio, foi de portaria em portaria. Até que chegou ao edifício em que morava o filho dele, Luís Antônio Nabuco de Almeida Braga. O porteiro recebeu a carta que ela havia escrito para o empresário – e ela chegou ao destinatário.

“Logo depois, a Ana Teresa, secretária dele, entrou em contato. No início de 2013, ele passou a pagar todas as minhas viagens. Joguei 15 ou 16 torneios naquele ano. No fim de 2014, já era o 2º no ranking brasileiro da minha categoria graças às viagens que ele me proporcionou. E recebi proposta de bolsa nos Estados Unidos por isso”, diz Gabriel, que cursa finanças na Carson-Newman University, pela qual compete no circuito universitário. “Ele me deu a biografia do Guga, viu vários jogos meus e nunca pediu nada em troca. Porque ele ama o esporte. Apoia o atleta por amor.”

O nadador Djan Madruga, o treinador de vôlei Bernardinho e o iatista Torben Grael fazem parte de uma extensa lista de atletas olímpicos apoiados por Braguinha.

Braguinha e Ayrton Senna: o piloto tinha quarto próprio em sua casa, em Portugal

Braguinha e Ayrton Senna: o piloto tinha quarto próprio em sua casa, em Portugal (reprodução/Reprodução)

Bernardinho, por exemplo, foi o capitão do Atlântica Boavista, o primeiro time-empresa do Brasil, cuja criação teve início num jogo da seleção masculina na Olimpíada de Moscou, em 1980. “Ele se apresentou como amigo de um amigo do meu pai. Me deu um cartão, agradeci, mas nem olhei. Peguei um lanche e corri porque tinha jogo contra a Polônia, a campeã olímpica de 1976. Nós vencemos aquele jogo de virada e, na comemoração, vi aquele homem sentado ao lado do Nuzman, presidente da CBV [Confederação Brasileira de Voleibol] na época. Naquele dia, ele abraçou o vôlei. Ali surgiu a geração de prata”, diz Bernardinho, prata como jogador em Los Angeles 1984 e ouro como treinador em Atenas 2004 e Rio 2016.

Atualmente presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Carlos Arthur Nuzman lembra a conversa com Braguinha naquele dia memorável: “Quando a seleção brasileira ganhou da Polônia, ele se virou para mim e perguntou: ‘O que é necessário para o Brasil ganhar uma medalha em 1984?’. Respondi na hora: ‘Você montar uma equipe para manter os jogadores no país’. Fiz então um pedido ao Conselho Nacional de Desportos para que autorizasse empresas a terem equipes. Em 1981, foi formado o time Atlântica Boavista. Nesse rastro, surgiram a Pirelli e outras equipes. Foi uma transformação porque os atletas puderam se dedicar ao vôlei sem precisar ir para a Europa. E, em 1984, ganhamos a prata”.

Já Djan Madruga conquistou sua medalha (bronze no revezamento 4x200m) em Moscou, mas antes ficara em 4º lugar nos 400m e nos 1500m livres em 1976, em Montreal, com apenas 17 anos.

Ao voltar do Canadá, criticou a falta de apoio de seu clube, o Fluminense, numa mesa redonda na TV. No dia seguinte, recebeu uma ligação de Braguinha, tricolor apaixonado.

“Ele soltou uma penca de palavrões, me mandando parar de falar mal do Fluminense, mas ao mesmo tempo criticou os dirigentes”, ri Djan. Ele marcou de ir com o pai ao apartamento de Braguinha, na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, no Rio de Janeiro, sem entender o que o empresário queria com um adolescente.

Ao chegar, deparou-se com um sujeito de short, camiseta e sandália, que perguntou: “Do que você precisa? O que você quer?”. Com uma bolsa recém conquistada numa universidade americana, Djan pediu dinheiro para se manter por lá.

“Nem lembro quanto pedi, uns 500 dólares por mês. Disse que queria também ajuda para o meu irmão Roger, que se destacava na base. Meu pai sugeriu que ele nos colocasse como funcionários da empresa, com carteira assinada. E assim foi feito. Fui funcionário da Atlântica Boavista e, depois, da Bradesco Seguros, por 11 anos. Tive tranquilidade para estudar e treinar. Conquistei uma medalha em 1980 e ele celebrou comigo. Outros medalhistas daquela edição também eram ajudados por ele, como o João do Pulo e os caras da vela, Marcos [Soares] e Eduardo [Penido]. Ele rompeu com o paradigma do amadorismo no esporte nacional, permitiu que a gente vivesse para o esporte”, afirma Djan.

Braguinha esteve em todos os 12 Jogos Olímpicos entre 1972, em Munique, e 2016, no Rio. E todas as Copas do Mundo desde a do Brasil de 1950 – um total de 17.

Vibrou com cada conquista brasileira e sempre fez questão de mostrar pessoalmente seu apoio aos atletas. Em 2016, foi um dos condutores da tocha olímpica.

“Há empresários apaixonados por esporte, mas nenhum com a entrega dele. Ele estava lá quando ganhei minha prata em Los Angeles e foi a todas as minhas premiações”, lembra Torben Grael, que, além da prata citada, é dono de dois ouros (Atlanta 1996 e Atenas 2004) e dois bronzes (Seul 1988 e Sydney 2000).

Algo comum em todas as histórias, além do carinho recíproco entre patrocinador e patrocinado, é o início da relação. “Lembro de quando ele olhou para mim, para o meu irmão Lars e para o Pedro Bulhões e perguntou: ‘O que vocês querem? Do que precisam? Botem num papel e voltem aqui’. Voltamos, com medo de estarmos pedindo muito, mas ele nem negociou. Era um empresário atarefado, mas estava sempre disponível para nos atender”, diz.

Além da amizade com Guga Kuerten, Braguinha admira tanto o esportista que deu a biografia dele para o jovem tenista Gabriel Dabdab, que tem seu apoio financeiro

Além da amizade com Guga Kuerten, Braguinha admira tanto o esportista que deu a biografia dele para o jovem tenista Gabriel Dabdab, que tem seu apoio financeiro (DEDOC/Reprodução)

Esporte na fazenda

Há cerca de quatro anos, quando comprou a Fazenda das Palmas, em Engenheiro Paulo de Frontin (RJ), Braguinha reparou em uma escola municipal logo na entrada da propriedade.

Virou-se para Luiza, sua mulher há quase meio século, e disse: “Fala para essas crianças entrarem aqui uma vez por semana para fazer esporte. Vamos organizar isso”. Desde então, toda quinta-feira, cerca de 75 meninos e meninas podem escolher entre equitação, tênis, golfe, atletismo e badminton, com direito a estrutura e professores.

Pai de Maria do Carmo (a Kati), Luis Antônio, Sílvia e Lúcia, do casamento com Vivi Nabuco, e de Joana e Maria, com Luiza Konder, Braguinha foi, segundo o filho, um empresário inteligente, corajoso e rápido nas decisões.

Após a aposentadoria dele, Luis Antônio se uniu às três irmãs mais velhas e à mãe para fundar a Icatu Seguros. “Papai tem uma vivacidade impressionante, uma enorme capacidade de agregar amigos”, diz Luis. Tanto que os atletas que foram patrocinados por Braguinha fazem questão de estar por perto. Bernardinho conta que recentemente saiu para jantar com ele e Luiza.

Torben diz que seu filho Marco, também velejador, é patrocinado pela Icatu. Gabriel Dabdab telefona sempre para saber como ele está. Todos acreditam que o esporte brasileiro deve muito ao empresário. Se deu tanto, o que recebeu de volta? O próprio Braguinha responde, emocionado: “O esporte me deu alegrias, muitíssimas. Alegrias e amigos”.

Hoje com 90 anos, ele mantém como rotina assistir a todas as partidas de futebol, vôlei e tênis na TV. Como naquela tarde de abril em que fomos a sua casa.

“Seu Braga, vai começar o jogo do Barcelona em 15 minutos. A TV já está preparada”, avisou uma funcionária. Na cadeira de rodas, com a saúde debilitada após passar por pequenas cirurgias, Braguinha não perde o bom humor e brinca: se vai ter que fazer fisioterapia, que ao menos seja vendo um bom jogo.