Como o golfe está se tornando um esporte popular entre os brasileiros

Celebridades e esportistas de outras áreas adotam a modalidade como hobby - e a ajudam a divulgá-la para que perca a fama de elitista e sem graça

BILL MURRAY

 (Getty Images/Reprodução)

Para quem vê de fora, a coisa parece muito chata: dar bordoadas em uma bolinha cheia de covinhas até embocá-la em um buraco, depois de fugir de obstáculos como árvores e lagos. Pior: repetir isso outras 17 vezes, por quatro horas.

Mas não é só – o golfe é também, no senso comum, um esporte de ricos e velhos. O que explica então a paixão que ele desperta em mais de 50 milhões de pessoas ao redor do planeta?

“Comecei a praticar golfe em 2000, aos 28 anos. Meus sogros jogam e resolvi tentar”, diz o piloto de Stock Car Rubinho Barrichello.

“Como todo mundo, achava que era meio lento e não tinha empenho e tal. Quando fui jogar, vi que era difícil. É um taco enorme, precisa acertar uma bolinha minúscula. Pode ter certeza de que é muito mais difícil jogar golfe do que pilotar um carro de corrida”, conta ele, hoje frequentador do São Paulo Golf Club, na capital paulista.

Movidos como Barrichello especialmente pelo desafio, vários atletas de outras modalidades e celebridades brasileiras adotaram o esporte como hobby. E, apaixonados, ajudam a popularizar o golfe aqui, participando e organizando torneios.

É o caso do locutor Galvão Bueno, um dos maiores entusiastas, que promoveu no fim de 2017 o Galvão Bueno Invitational – cuja atração, além dos vários famosos, foi um um Porsche 718 Boxster S como prêmio.

Padrão Galvão

Galvão Bueno

 (Reprodução/Fonte padrão)

Tadeu Schmidt, apresentador do Fantástico, da TV Globo, foi um dos convidados.

“Aos 40, conheci o golfe, e esqueci os outros. Depois que comecei a jogar, vi como era difícil e desafiador”, conta.

Ele pratica pelo menos duas vezes por semana no Gavea Golf, em São Conrado, no Rio de Janeiro, onde é sócio. Sempre a pé e carregando sua bolsa de tacos nas próprias costas, dispensando o caddie (carregador da taqueira e auxiliar do golfista).

A paixão é tanta que Schmidt colocou grama artificial na varanda de seu apartamento para treinar putts (tacadas curtas) nas horas vagas. Quando assiste a uma partida de golfe de seu ídolo Jordan Spieth na TV, vibra e comemora como se estivesse assistindo a um jogo de futebol.

Ele, aliás, vibrou muito em outubro do ano passado: fez um hole in one (embocar em uma só tacada) no torneio de confraternização que antecedeu o Aberto do Brasil, a principal competição do golfe nacional, no Campo Olímpico de Golfe, no Rio. Foi o primeiro da sua vida – e o único da competição.

Ah, sempre em companhia do Maninho, seu cavalinho particular, feito pelo mesmo produtor daqueles que representam os times de futebol brasileiros nos gols do Fantástico. Com uma diferença: Maninho serve de capa de proteção para o driver de Tadeu – aquele taco bojudo para as tacadas longas – e, em vez de vestir camisa de futebol, usa sempre uma polo igual à do apresentador.

Tadeu Schmidt

 (Reprodução/Fonte padrão)

Para seu azar, Tadeu não repetiu seu hole in one no evento de Galvão Bueno – se o tivesse feito, especificamente no buraco 16 do São Fernando Golf Club, onde ocorreu o torneio, levaria o Porsche para casa.

Quem passou mais perto do feito, aliás, foi o próprio Galvão, golfista há quase 20 anos que reuniu no evento, além de Tadeu e Barrichello, o ator Marcos Pasquim, o apresentador Otávio Mesquita, os ex-jogadores de futebol Tita e Zé Sérgio, a ex-atleta do basquete Hortência e a ginasta Daniele Hypólito, todos apaixonados pelo golfe.

Outros notórios apreciadores também foram convidados, mas não puderam comparecer por questões profissionais, como Ronaldo Fenômeno e os atores Rodrigo Lombardi e Humberto Martins. Até o cantor e ator Evandro Mesquita jogou. “É muito difícil, mas estou animado”, disse no torneio.

Galvão ficou o tempo todo no tee (ponto da tacada inicial) recepcionando os convidados – e, claro, narrando as tacadas. Ninguém acertou o buraco 16 e levou o prêmio (“É o buraquinho mais desejado do Brasil!”, dizia Otávio Mesquita).

“O golfe cresce a cada dia, mas precisamos de uma grande estrela, um grande ídolo. Precisamos achar o nosso Guga do golfe”, diz Galvão, referindo-se ao tenista Gustavo Kuerten. O locutor prometeu incentivar um projeto para identificar possíveis talentos entre as crianças, dando todo o apoio necessário para o desenvolvimento escolar e esportivo.

Golfe Corporativo

clubhouse

 (Divulgação/Reprodução)

A popularidade do esporte também pode ser medida pelo aumento da procura de grandes empresas pela única casa de golfe indoor do país, a The Clubhouse.

Localizado na nobre região dos Jardins, em São Paulo, o centro é um ambiente sofisticado escolhido por marcas como a relojoaria suíça Baume & Mercier, a confecção VR, a montadora japonesa Lexus e as empresas de tecnologia americanas Microsoft, Dell e Intel, entre outras, para realização de eventos com clientes e parceiros.

O local foi idealizado pelo ex-piloto de Fórmula Indy Mario Romancini, ele próprio um praticante de golfe por hobby, há quase dois anos. “Há uma dificuldade grande para praticar”, conta ele.

“A pessoa que sai do trabalho às 6 horas da tarde não tem aonde ir, primeiro porque os campos são afastados dos grandes centros comerciais, e depois pela questão da iluminação. Pensei então em abrir um campo indoor para quem gosta e também quem quer aprender.”

Mario conheceu em uma feira os simuladores Full Swing, os mesmos que o fenômeno do golfe Tiger Woods usa em casa, com vários dos melhores campos do mundo, e os trouxe para seu negócio. O simulador funciona com câmeras e sensores infravermelhos que percebem os movimentos e fazem um cálculo praticamente exato da bola em uma situação real – a margem de erro é de 0,5%.

“A ideia era que as pessoas viessem para cá fazer uma happy hour, já que tenho toda estrutura de gastronomia, e batessem bola. O conceito já existe na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Mas o que me surpreendeu foi a grande procura das empresas. Elas perceberam que a experiência que proporcionam aos clientes e parceiros é única. O golfe é perfeito: é um esporte em que a educação e o cavalheirismo são uma constante. Só há momentos de alegria com o adversário, não tem briga. Por isso ele é tão importante no networking.”

Hoje, praticamente metade do rendimento mensal do The Clubhouse vem de eventos assim. “O público está mudando bastante. Vejo cada vez mais gente na faixa dos 30 anos jogando.”

golf

 (Getty Images/Reprodução)

Iniciativas

Fortalecer a base do esporte é o objetivo da Confederação Brasileira de Golfe (CBG). Com o Golfe para a Vida, a entidade já colocou mais de 90 mil crianças em contato com o esporte dentro de suas escolas.

“Nossa meta é difundir o golfe no Brasil e identificar novos talentos”, conta Euclides Gusi, presidente da CBG.

Ele sabe que popularizar o esporte pode trazer excelentes frutos: o golfista número 1 do ranking amador brasileiro, Herik Machado, 21 anos, foi descoberto em um projeto social no Clube Campestre de Livramento, em Santana do Livramento (RS).

Henrik machado

 (Reprodução/Fonte padrão)

De família pobre, hoje coleciona dezenas de títulos importantes, como campeão sul-americano juvenil e bicampeão nacional da Argentina, país com 100 mil golfistas.

Em breve, Herik irá seguir carreira profissional, tentando repetir o feito do também gaúcho Adilson da Silva, que representou o Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016.

Também de origem humilde, Adilson trabalhava como caddie para o fazendeiro e milionário Andy Edmondson, do Zimbábue, que visitava Santa Cruz do Sul (RS) para comprar fumo.

Adilson da silva

 (Reprodução/Fonte padrão)

Quando não tinha parceiros, Edmondson convidava Adilson para jogar com ele. Ficaram amigos, e ele viu que o menino levava jeito.

Nos jogos, foi Adilson quem deu a primeira tacada do torneio – a primeira do golfe em uma Olimpíada em 112 anos. Para ele e para quem acompanhou a cena, o golfe definitivamente não tem nada de chato.

Como Começar

golf

 (Getty Images/Reprodução)

Jogar golfe, de fato, não é fácil. São necessárias diversas aulas para aprender os fundamentos – na primeira delas, acertar a bolinha já é lucro.

Há vários campos abertos ao público no Brasil, em que não é necessário ser sócio para frequentar. A taxa para jogar 18 buracos (ou uma partida oficial) é chamada de green fee e varia de R$ 80 a mais de R$ 300.

O site da Confederação Brasileira de Golfe (cbg.com.br) lista os campos do país.

Unidos pelo golfe

Bill Murray

 (Getty Images/Reprodução)

Celebridades golfistas não são uma novidade brasileira.

Daria para fazer um filme e tanto com os atores e atrizes apaixonados, como Bill Murray, Morgan Freeman, Nicole Kidman, Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones e Hugh Grant.

Esportistas de várias áreas acham o golfe desafiador, como Kelly Slater (surfe), Michael Jordan (basquete), Rafael Nadal (tênis) e Peyton Manning (futebol americano).

Já os músicos golfistas dificilmente dividiriam o mesmo palco, como Justin Timberlake, Kenny G, Alice Cooper e Justin Bieber.

Golfe e poder andam de mãos dadas nos EUA: Donald Trump, Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton são fanáticos.

Uma curiosidade: Getúlio Vargas frequentava o Itanhangá Golf Club, no Rio. Depois das partidas, ele tirava uma soneca em um banco de madeira no clube.

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