De Pelé a Gabriel Jesus, os sustos das contusões pré-Copa

Aqui começa nossa série Copa VIP, que vai resgatar fatos, personagens e conexões curiosas na história do mundial de futebol

Gabriel Jesus Manchester City

Gabriel Jesus contundido no jogo do Manchester City em 31 de dezembro (Catherine Ivill/Getty Images)

Gabriel Jesus entrou para o clube dos jogadores da seleção brasileira que sofrem contusões preocupantes antes de uma Copa do Mundo.

Alguns tiveram tempo bastante para se recuperar para a disputa, mas outros tiveram problemas mais graves ou muito em cima da hora e acabaram cortados.

Aparentemente, a lesão no joelho esquerdo que Gabriel Jesus sofreu jogando pelo Manchester City em 31 de dezembro foi apenas um susto.

A previsão inicial feita na Inglaterra era de cerca de dois meses de recuperação.

Após novos exames em Barcelona com um especialista indicado pelo técnico Pep Guardiola, a estimativa melhorou: de duas a três semanas.

Ou seja, tempo de sobra para o jovem Jesus ir à Copa na Rússia em junho.

A história da seleção nas Copas têm vários momentos de apreensão às vésperas da estreia. Quanto mais importante o jogador, maior o dilema.

 

Zizinho

Zizinho, com o joelho esquerdo enfaixado, no jogo contra a Iugoslávia em 1950 (Youtube/Reprodução)

O primeiro grande drama foi com o meia Zizinho – ídolo de infância de Pelé – na Copa de 1950, disputada aqui no Brasil.

Cerca de um mês antes do torneio começar, sofreu uma lesão no joelho esquerdo após uma pancada num treino. Falou-se em corte.

Mas o técnico Flávio Costa decidiu inscrever seu craque mais talentoso na Copa, mesmo que ele não pudesse jogar na estreia.

Zizinho realmente ficou ausente das duas primeiras partidas – 4 x 0 contra o México e 2 x 2 contra a Suíça.

Como o Brasil precisava vencer a Iugoslávia para se classificar para o quadrangular final, Costa escalou Zizinho no sacrifício.

“Quando chegou a hora de enfrentar a Iugoslávia, Flávio Costa me disse: ‘Você vai ter que entrar.’ E eu: ‘Mas não posso!’ Mas, como ele disse que eu tinha de entrar, me amarraram o joelho todo com esparadrapo”, contou Zizinho ao jornalista Geneton Moraes Neto no livro Dossiê 50 (2000).

Ele acrescentou: “Deram-me um remédio que, segundo Augusto [o capitão da seleção de 1950], era de cavalo, um troço que botavam nos animais no jóquei. Não sei como os animais aguentavam. Queimava que não era brincadeira, a pomada”.

Zizinho jogou, fez um dos gols do 2 x 0 e foi o melhor jogador do Brasil na Copa, cujo título foi perdido para o Uruguai na final no Maracanã.

 

Pelé

Em 1958, situação parecida com a de Zizinho ocorreu com Pelé, menino-prodígio de apenas 17 anos.

O garoto do Santos tomou uma forte pancada no joelho direito no último jogo-treino antes do embarque da seleção para a Europa, disputado contra o Corinthians no Pacaembu.

O técnico Vicente Feola tinha a opção de cortá-lo e chamar Almir Pernambuquinho, do Vasco – talentoso, mas nenhum Pelé…

Como Pelé já demonstrava fazer a diferença quando entrava no time, Feola apostou que poderia usá-lo a partir do terceiro jogo.

O menino não jogou no chocho 3 x 0 sobre a Áustria nem no tenso 0 x 0 com a Inglaterra.

Mas entrou – junto com Garrincha, que também não tinha jogado ainda – contra a União Soviética.

Pelé mandou a bola na trave logo a 1 minuto e foi decisivo para a vitória de 2 x 0.

Com seis gols marcados nos três jogos restantes, Pelé foi o maior artilheiro da seleção que ganhou a primeira Copa para o Brasil.

E recebeu da imprensa francesa o “título” de rei – que não foi desmentido nas duas décadas seguintes.

 

Tostão

Capa da revista PLACAR com Tostão às vésperas da Copa de 1970 (Revista PLACAR/arquivo Abril)

O problema de Tostão não foi numa das pernas. Foi num dos olhos.

Numa parceria de grande sintonia com Pelé, Tostão foi o artilheiro mundial das Eliminatórias para a Copa de 1970 com 10 gols nas seis vitórias do Brasil.

Em setembro de 1969, um mês depois da classificação para o mundial, o meia-atacante jogava pelo Cruzeiro contra o Corinthians no Pacaembu.

Tostão recebeu uma bolada no rosto quando o corintiano Ditão deu um chutão para a lateral.

Com o impacto, Tostão teve descolamento da retina do olho esquerdo.

Com apenas 23 anos, Tostão corria risco de nunca mais poder jogar – ou até ficar cego, como se especulava na época.

Foi fazer cirurgia com o especialista brasileiro Roberto Abdalla Moura em Houston, Texas, na esperança de poder estar bom até a Copa no México.

João Saldanha, então técnico da seleção, jurava que esperaria pela recuperação de Tostão até o apito inicial do juiz no jogo de estreia.

Realmente, Saldanha convocou Tostão para a preparação final no começo de 1970, ainda sem poder escalá-lo.

Às vezes, Tostão ficava com o globo ocular todo vermelho de sangue. Apesar do aspecto meio assustador, era nada grave.

Saldanha foi demitido em março de 1970 por seu temperamento esquentado. Zagallo assumiu e manteve Tostão entre os convocados.

Só que, ao contrário do antecessor, Zagallo não pretendia escalar Tostão junto com Pelé.

Para Zagallo, os dois eram meias-atacantes, por isso um jogaria e o outro seria reserva.

E assim foi no 0 x 0 contra a Bulgária no Morumbi em 26 de abril – o primeiro jogo de Tostão após sete meses parado.

Tostão entrou com a camisa 10. Depois foi substituído por Pelé, que vestiu a 13.

Já no jogo seguinte (1 x 0 sobre a Áustria, no Maracanã), Zagallo se rendeu às evidências e escalou Tostão e Pelé juntos.

E assim foi na Copa inteira, em que o Brasil conquistou o tri. Tostão arrebentou em campo.

Em 1973, quando estava no Vasco, ouviu o parecer médico de que ele poderia agravar o problema na visão se seguisse jogando.

Tostão preferiu encerrar a carreira de jogador. Aos 26 anos.

 

Reinaldo

Reportagem de PLACAR em janeiro de 1978 dá noção da importância de Reinaldo na época (Revista PLACAR/arquivo Abril)

Atacante de talento raro, Reinaldo era um prodígio que subiu ao time principal do Atlético Mineiro com apenas 16 anos, em 1973.

Quatro anos depois, estava voando e bateu o recorde de artilharia do Brasileiro com 28 gols (superado 20 anos depois por Edmundo).

Só que Reinaldo tinha um problema. Ou melhor, dois problemas: os joelhos.

Contusões forçaram a extração dos meniscos dos dois joelhos quando Reinaldo tinha apenas 17 anos.

Ele sofreria com a fragilidade deles pelo resto da carreira. Inclusive às vésperas da Copa de 1978 na Argentina.

Convocado como titular absoluto, Reinaldo voltou a ter dores nos joelhos na fase de preparação.

Fazia fisioterapia diariamente na Granja Comary, a concentração da seleção em Teresópolis, para reforça-los.

Mas havia a dúvida se era boa opção levá-lo para a Copa e perdê-lo por contusão no primeiro jogo.

Prestes a ser cortado, Reinaldo ganhou uma “última chance” do técnico Cláudio Coutinho contra o Peru no Maracanã em 1º de maio.

No segundo tempo, Reinaldo entrou no lugar do então titular Nunes. Mesmo com dores, marcou dois gols na vitória de 3 x 0.

A superação garantiu sua ida à Copa. Curiosamente, Nunes foi cortado por contusão e Roberto Dinamite ficou com a vaga.

Reinaldo foi escalado como titular na estreia contra a Suécia e até fez o gol do Brasil no empate por 1 x 1.

Mas teve uma atuação péssima no 0 x 0 com a Espanha e foi sacado para a entrada de Roberto Dinamite pelo resto do torneio.

Como consolação, Reinaldo ainda entrou no segundo tempo na decisão de 3º lugar, na qual o Brasil venceu a Itália por 2 x 1.

Ficou uma sensação de que a história poderia ser diferente se Reinaldo estivesse em forma como no Brasileirão de 1977.

Ele ainda manteve o bom futebol e chegou a ser titular nas Eliminatórias e nos amistosos na Europa em 1981.

Reinaldo fazia uma combinação dos sonhos com Zico e Sócrates no ataque.

Mas Reinaldo começou a curtir a noite e fazer declarações sobre política que desagradaram ao técnico Telê Santana.

Com isso, foi descartado completamente dos planos para a Copa de 1982.

Careca, atacante com características parecidas, era a aposta de Telê, mas sofreu uma distensão e foi cortado quatro dias antes da estreia.

Os atacantes de área em 1982 acabaram sendo Serginho Chulapa e, novamente, Roberto Dinamite.

No fim, O Rei do Mineirão, como a torcida atleticana chamava Reinaldo, é um caso de potencial não realizado nas Copas.

 

Zico

A luta de Zico para jogar a Copa em reportagem de PLACAR de maio de 1986 (Revista PLACAR/arquivo Abril)

Em 1986, a saga da contusão aconteceu com Zico.

Em 29 de agosto do ano anterior, o craque do Flamengo sofreu uma entrada violentíssima do zagueiro Márcio Nunes, do Bangu.

Zico teve cinco lesões nas pernas – a pior foi o rompimento do ligamento do joelho esquerdo, submetido a três cirurgias.

Inacreditavelmente, Zico voltou a jogar menos de um mês depois, num 0 x 0 com o Fluminense de meio de campeonato.

Resultado: agravou a lesão no joelho com esse retorno precoce.

Zico resolveu fazer as coisas do jeito certo e dedicou-se totalmente à recuperação para ir à Copa. Fazia oito horas diárias de musculação.

O camisa 10 retornou em fevereiro de 1986 em outro Fla-Flu – e foi recebido pela torcida rival com um coro de “Bichado!”.

Ele respondeu com três gols numa vitória de 4 x 1. Mas ainda havia dúvidas e Zico seguia em tratamento.

Telê Santana apostou nele para a Copa e deu todo o tempo necessário para Zico ficar em forma.

O Galinho finalmente foi escalado nos 4 x 2 contra a Iugoslávia em Recife, em 30 de abril. Marcou mais três gols.

Um dos gols foi uma pintura em que ele driblou quatro adversários antes de marcar.

Mas, uma semana depois, num amistoso contra o Chile em Curitiba, Zico sentiu dores no joelho com apenas 13 minutos de jogo.

Foram dias difíceis para Telê. Primeiro, Leandro abandonou a seleção no embarque para o México.

Depois, Mozer, Cerezo e Dirceu foram cortados por contusão. Mas Zico foi mantido e inscrito.

A esperança era de que Zico estivesse bom o bastante para entrar no segundo tempo de algumas partidas.

Foi assim nos 3 x 0 sobre a Irlanda do Norte no terceiro jogo do grupo, nos 4 x 0 contra a Polônia pelas oitavas e contra a França nas quartas.

Zico entrou no lugar de Muller e, dois minutos depois, foi marcado um pênalti para o Brasil, com o jogo empatado em 1 x 1. Ainda frio e sem ritmo de jogo, Zico cobrou e o goleiro Bats defendeu.

A partida foi para os pênaltis. Desta vez, Zico acertou o seu, mas o Brasil perdeu por 4 x 3 e foi eliminado.

 

Romário

O Baixinho criou suspense não apenas em uma, mas em duas Copas.

Em 1990, fraturou a tíbia jogando pelo PSV Eindhoven da Holanda em março.

Uma das principais peças-chave do ataque da seleção – autor do gol do título da Copa América em 1989 – virou dúvida.

Romário não botou fé nos médicos do PSV e contratou o fisioterapeuta Nilton Petrone, que tinha um método de recuperação acelerada.

“Falou-se em cinco meses para recuperá-lo. Em trinta dias, ele estava na seleção”, disse Petrone em entrevista à revista PLACAR (publicada pela Editora Abril como a VIP) de agosto de 1996.

Durante os trabalhos, o fisioterapeuta ganhou do jogador o apelido de Filé, pelo qual é conhecido até hoje.

Porque Petrone era tão magro que Romário disse que ele parecia um “filé de borboleta”.

Anos depois, Filé cuidaria da recuperação de Ronaldo Fenômeno após contusões nos joelhos.

Romário foi inscrito na Copa. Só que o técnico Sebastião Lazaroni optou por Careca e Muller como dupla de ataque titular.

Romário ganhou a chance de entrar jogando na terceira partida da primeira fase, contra a Escócia.

Teve atuação apagada até ser substituído aos 20 minutos do segundo tempo por Muller – que acabou fazendo o único gol do jogo 16 minutos depois. E foi só isso para o Baixinho em 1990.

Depois de ser o craque do tetra em 1994, Romário encaixou uma dupla infernal com Ronaldo ao longo de 1997.

Era pára ser assim na Copa de 1998 na França se Romário não tivesse um estiramento na panturrilha direita num treino.

O craque garantia que estaria bom para a fase de mata-mata, mas o técnico Zagallo e o assistente Zico decidiram cortá-lo oito dias antes da estreia.

Para provar que foi uma decisão precipitada da comissão técnica, Romário fez questão de entrar em campo pelo Flamengo enquanto a Copa ainda rolava.

Fez o gol do Mengo num amistoso contra o Internacional em 5 de julho, dois dias depois de Brasil 3 x 2 Dinamarca nas quartas-de-final.

Ou seja, Romário poderia ter jogado. E como teria sido a final contra a França se ele estivesse em campo, minimizado o impacto da convulsão de Ronaldo?

***

Nas Copas seguintes, não houve meses ou semanas de ansiedade em torno de um craque machucado.

Em 2002, existia um ponto de interrogação quanto ao joelho que Ronaldo estourou em 1999.

Mas o Fenômeno já tinha voltado a jogar em 2001 pela Internazionale e, na Copa, acabou artilheiro e campeão.

Depois disso, drama mesmo só houve durante a competição, como a contusão sofrida por Neymar contra a Colômbia em 2014.

Espera-se que 2018 fique só nesse susto do Gabriel Jesus.

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