Dona da F1, Liberty Media têm planos audaciosos para a categoria

Pneus mais largos, aerofólios maiores, shows, apresentações das máquinas... É a nova era da "espetacularização"

F1 Mercedes

 (Mercedes/Divulgação)

Quando for dada a largada do primeiro Grande Prêmio de 2018 nas ruas da australiana Melbourne em 25 de março, a Fórmula 1 entrará em sua segunda temporada sob propriedade do grupo americano Liberty Media — e em mais uma nova era da categoria.

A mudança mais visível está nos carros: por imposição do regulamento, ganharam uma inédita estrutura em forma de arco, para a proteção da cabeça dos pilotos.

O halo adicionou 14 quilos aos carros e tirou o sono dos projetistas para acomodá-lo em máquinas que precisam ser esguias e ter aerodinâmica próxima da perfeição.

O clima nos paddocks e no pódio também estará diferente.

Em um efeito colateral do #MeToo (o movimento surgido após vários escândalos de abuso sexual no mundo do cinema), saem de cena as garotas do grid.

A exibição das beldades foi considerada “uma prática ultrapassada”.

Esses detalhes são apenas parte da reinvenção da categoria pela Liberty.

Até 2016, todo o controle estava nas mãos do inglês Bernie Ecclestone — o homem que transformou a F1 em algo bilionário e globalizado a partir dos anos 70, chegando depois a ser o dono do negócio inteiro.

Bernie Ecclestone e Vettel Bernie Ecclestone e Vettel.

Bernie Ecclestone e Vettel. (Scuderia Ferrari/Divulgação)

O problema é que Ecclestone resistia à era digital e a F1 vinha perdendo fãs.

A audiência, que chegou a 600 milhões de pessoas em 2008, encolheu para 360 milhões em 2016, seu último ano no comando.

Bernie também achava as mídias sociais supérfluas. “Estou velho demais para ter conta no Twitter”, declarou certa vez. Sua prioridade era a TV, responsável por quase um terço da receita.

Em janeiro de 2017, Ecclestone, enfim, caiu fora aos 86 anos.

Por 8 bilhões de dólares, vendeu o controle comercial da F1 para a Liberty Media, parte de um conglomerado controlado pelo bilionário americano John Malone.

John Malone

 (Pinterest/Reprodução)

Estabelecido no Colorado, Malone tem fortuna estimada em 9,2 bilhões de dólares e cerca de 9 mil quilômetros quadrados de propriedades — área 12% maior que a da Grande São Paulo.

Apelidado de cowboy da TV a cabo, possui um império no setor das comunicações e telefonia, com participações na Discovery, Vodafone, ESPN e Virgin Media.

A busca de novas oportunidades é uma alternativa estratégica num momento em que a audiência dos canais a cabo está em queda livre.

Em 2015, a Liberty Global, outro braço do conglomerado, já tinha adquirido um pedaço da Fórmula E, a categoria de elétricos que já atraiu Audi, BMW e Jaguar, e deve contar com Mercedes e Porsche em 2019.

Ao ver a chance de adquirir a F1, Malone farejou uma oportunidade ainda melhor de fortalecer seu grupo em novas mídias (streaming e conteúdo exclusivo, para começar).

Ao assumir a F1, Malone dividiu a gestão que Ecclestone centralizava.

Para principal executivo, nomeou Chase Carey, ex-presidente da 21st Century Fox. Para a parte comercial e a coordenação de mídia digital, Sean Bratches, ex-executivo da ESPN.

“Nossa ambição é fazer da Fórmula 1 uma experiência bem mais intensa para os fãs do que apenas duas horas de corrida”, disse Bratches à VIP.

Em julho de 2017, os pilotos deram uma amostra do novo jeito de promover a F1.

Em Londres, houve shows e apresentações das máquinas, que aceleraram por Trafalgar Square. A Liberty planeja eventos parecidos em Berlim, Milão, Marselha e Xangai.

Além de turbinar o marketing, o plano é ter corridas menos monótonas.

Para isso, foi empossado o engenheiro inglês Ross Brawn, dono de 19 títulos mundiais — um deles com equipe própria, a Brawn GP, em 2008.

No seu primeiro ano com a Liberty, Brawn deu sorte com a mudança de regulamento.

Com pneus mais largos e aerofólios maiores ou mais baixos, a aderência dos carros aumentou, privilegiou os mais hábeis e gerou pegas.

A expectativa é de que o show seja ainda melhor em 2018.

A Pirelli anunciou novos compostos de pneus, que devem se degradar mais rapidamente e forçar mais pit-stops. “Haverá mais ultrapassagens e disputas, com certeza”, diz o italiano Mario Isola, diretor de esportes a motor da Pirelli.

Mas a Liberty Media quer ainda mais emoção. Brawn sugeriu a criação do limite de gastos, com um máximo de 150 milhões de dólares anuais por equipe — as maiores gastam cerca de meio bilhão de dólares por ano.

Houve chiadeira, especialmente da Ferrari. “Tenho um ótimo relacionamento com Chase Carey. Mas se mudanças como essas acontecerem, a Ferrari sai da F1”, prometeu o ítalo-canadense Sergio Marchionne, presidente da equipe.

Como se vê, as peripécias da turma da Liberty em busca de mais adrenalina nas pistas serão bem interessantes.

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