E se Senna tivesse completado a curva Tamburello?

Pedimos a ajuda de feras da Fórmula 1 para imaginar a vida de Ayrton Senna caso ele ainda estivesse entre nós

 (Pascal Rondeau/Allsport/Reprodução)

1º de maio de 1994. O Brasil perdia seu principal ídolo esportivo. Eram tempos difíceis de crise política e econômica. Nem o futebol salvava, acumulando fracassos consecutivos nos mundiais.

Uma tragédia na curva Tamburello, no circuito italiano de Ímola, interrompeu um hábito que havíamos adquirido – acordar mais cedo no domingo (ou ir dormir de madrugada) para acompanhar as corridas de Ayrton Senna.

A batida encerrou uma carreira brilhante de conquistas do brasileiro na F1, com 41 vitórias e três títulos mundiais. O funeral de Senna teve honras de chefe de Estado – mais de 2 milhões de pessoas se despediram do piloto nas ruas de São Paulo.

O Brasil sentiu falta de seu herói, que ganhou um novo patamar de devoção desde então: o de mito.

Sua memória foi mantida especialmente com o trabalho do Instituto Ayrton Senna, que capacita mais de 75 mil educadores e seus programas auxiliam mais de 2 milhões de alunos no país.

A devoção ao piloto estendeu-se à própria F1, ambiente mais competitivo do esporte a motor no mundo. Em 2009, a revista Autosport inglesa, a mais conceituada publicação especializada de esporte a motor, fez uma enquete entre os pilotos e pessoas que trabalham com F1.

Eles apontaram Ayrton Senna como o melhor piloto de todos os tempos, à frente de Michael Schumacher.

Mas o que aconteceria com o tricampeão se aquela barra de suspensão não acertasse seu capacete justamente no ponto vulnerável? E se o brasileiro fizesse a fatídica curva Tamburello e seguisse sua brilhante carreira?

Algumas pessoas importantes no cenário da F1 nos ajudaram a pensar nesse futuro hipotético.

 

É hexa! É hexa!

 (Pascal Rondeau/Getty Images/Reprodução)

“Acredito que ele poderia ter conquistado pelo menos mais dois ou até três títulos, tornando-se hexacampeão. O próprio título de 1994 me parece que poderia ter sido conquistado por ele, pois a Benetton de Michael Schumacher sofreu punições naquele ano por estar com o carro fora do regulamento – tanto que até Damon Hill chegou à etapa final disputando o título. Depois, Senna teria a vantagem de uma Williams muito forte nos anos seguintes, sobretudo 1996 e 1997, quando poderia chegar à marca de seis títulos [Hill e Villeneuve foram campeões neste ano com o time]. Por fim, ele tinha o desejo de encerrar a carreira na Ferrari e poderia liderar a reconstrução do time que acabou sendo conduzida por Michael Schumacher no fim dos anos 1990”, Reginaldo Leme, comentarista de F1 da Rede Globo.

“A última vez que vi o Ayrton foi no grid do GP do Brasil, três minutos antes da largada. Estava do lado do cockpit dele e falei: ‘Ayrton, boa sorte hoje’. Ele me respondeu: ‘O alemão vai ser muito duro’. O Schumacher estava começando e era o maior desafio, mas tenho certeza que, nesse período que ele estava crescendo, o Senna seria o único piloto a encará-lo. Entre os dois seria uma disputa difícil”, Emerson Fittipaldi, bicampeão mundial de F1 e duas vezes vencedor das 500 milhas de Indianápolis.

 

Futuro político?

Ayrton Senna, da McLaren, comemorando a vitória no GP do Brasil de F1,.

Ayrton Senna, da McLaren, comemorando a vitória no GP do Brasil de F1,. (Ricardo Correa/Reprodução)

“Não acredito que o Ayrton estaria envolvido diretamente com alguma equipe de Fórmula 1. Creio que seria um empresário bem-sucedido no Brasil, porque naquela época já tinha negócios, inclusive no setor de automóveis. E, provavelmente, estaria contribuindo muito para a carreira do Bruno [Senna], que começou tarde por causa da morte do tio”, Felipe Massa, piloto da Williams na F1 e único representante do Brasil na categoria.

“Com a paixão que o Ayrton tinha pelo automobilismo, continuaria envolvido com isso, de uma maneira ou outra, como estou até hoje. Eu lembro quando ele era criança e veio ver o Copersucar com o pai dele. Tenho certeza que essa paixão ia continuar”, Emerson Fittipaldi.

“Minha impressão é de que Ayrton teria se engajado de vez na luta por um Brasil melhor, assim como vimos no trabalho iniciado com seu instituto. Éramos bem amigos e ele sempre dizia o quanto queria ver seu país em melhores condições. Não duvido que ele chegasse até mesmo a tentar a carreira política. Conhecendo ele, acho que teria condições de ser até mesmo presidente do Brasil”, Thierry Boutsen, ex-piloto de F1, um dos melhores amigos de Senna e contemporâneo do piloto na categoria nos anos 1980 e 1990.

“Se já é difícil imaginar a carreira de Senna na F1 se não houvesse Ímola, sua vida após a aposentadoria é ainda mais complicada. São muitas alternativas. Pensando que ele deixaria as pistas com 39 ou 40 anos, por volta de 2000, seria possível embarcar numa tentativa de montar uma equipe na F1: afinal, seu grande rival, Alain Prost, mantinha um time naquela época. E, como o francês, enfrentaria dificuldades. Outra hipótese seria a presidência da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), por seu papel de liderança junto a equipes e pilotos. Nas pistas, uma participação em corridas lendárias, como 500 Milhas de Indianápolis e 24 Horas de Le Mans, também seria provável: certamente ele gostaria de completar o ‘grand slam’ do automobilismo”, Reginaldo Leme.

 

Senna mitando

Pilotos do circuito atual respondem o que o brasileiro representa para eles

Senna

 (Mike Hewitt / Equipa/Getty Images)

“Senna foi minha grande inspiração no começo de carreira, ainda criança, no kart. Inclusive meu pai desenhou meu carro com as cores da McLaren com que ele foi tricampeão mundial na F1”, Fernando Alonso, bicampeão mundial (2005-2006), tinha 12 anos em 1º de maio de 1994.

 

“Quando comecei no kart, tentava me inspirar em Ayrton Senna. Passei a assistir à F1 naquele final dos anos 1980. Ele era meu ídolo, simplesmente o melhor de todos os tempos na F1”, Lewis Hamilton, que tem a pintura de seu capacete inspirada no amarelo de Senna e que tinha 9 anos na época.

 

“É claro que sonho em bater recordes na F1, mas o que mais me impressionou, e sempre será, é Ayrton Senna. A quantidade de poles que ele conseguiu em um ano, e também depois em três ou quatro anos seguidos, é a diferença. Também me inspiro no lema: `Se você vê um espaço, tem que atacar¿ [famosa frase de Senna]. Em competição a prioridade é fazer seu máximo e vencer”, Sebastian Vettel, piloto da Ferrari, 6 anos em maio de 1994.