Eles disseram não: os capitães que se recusaram a ir à Copa

Na série Copa VIP, resgatamos fatos, personagens e conexões curiosas na história do mundial de futebol até o início do torneio na Rússia

Argentina 1977 Carrascosa Capitão da Argentina em 1977, Carrascosa (em destaque) abriu mão da Copa de 1978

Capitão da Argentina em 1977, Carrascosa (em destaque) abriu mão da Copa de 1978 (Arte sobre pôster revista Shoot 1977/Reprodução)

Disputar a Copa do Mundo é o sonho de todo jogador de futebol. A frustração para quem não vai é enorme, até para veteranos. Basta lembrar de Romário, que chorou ao ser cortado em 1998 e implorou até o fim para ser chamado por Felipão em 2002.

Por isso surpreende que alguns tenham se recusado a ir a uma Copa. Especialmente se eram capitães.

As duas maiores renúncias foram antes da Copa de 1978: o argentino Jorge Carrascosa e o holandês Johan Cruyff disseram não para suas seleções – e para suas braçadeiras.

Como Argentina e Holanda foram os dois finalistas daquela Copa, um dos dois teria erguido a taça se estivesse no torneio.

A noção geral que perdura até hoje  é de que ambos fizeram isso por causa da repressão assassina da ditadura militar que tomou o poder na Argentina em 1976 – e que já provocava protestos internacionais contra o torneio.

Só que Carrascosa e Cruyff apontaram em anos recentes motivações mais pessoais para o que fizeram. Vamos aos detalhes de cada um.

Vogts e Carrascosa, Onze Magazine 1977 Em matéria de 1977 da revista francesa Onze, Carrascosa como capitão da Argentina em amistoso contra a Alemanha

Em matéria de 1977 da revista francesa Onze, Carrascosa como capitão da Argentina em amistoso contra a Alemanha (Onze Magazine/Reprodução)

Carrascosa

Uma matéria de 2014 do jornal Clarín recapitulou uma declaração de Carrascosa a outra publicação argentina: “Não é necessária uma ditadura militar para deixar o futebol. Há muitas coisas nesse sistema de vida que te fazem perder as ilusões”.

O blog Ilusión Mundial, que fala das campanhas argentinas em Copas, tem outro depoimento de Carrascosa sobre o que se sabia sobre o terror da ditadura na época.

“Nunca imaginei tudo que estava acontecendo no país. Mesmo que alguém te contasse algo, você não conseguia acreditar”, falou o ex-jogador.

Prosseguindo, Carrascosa lembrou que detestava o clima de guerra criado: “Eu não concordava que uma Copa fosse algo de vida ou morte. Uma partida de futebol é apenas isso e nada mais. Há coisas muito mais importantes”.

Lateral-esquerdo, “El Lobo” Carrascosa estreou na seleção argentina em 1970 e jogou na Copa de 1974. Após aquele torneio, o técnico César Luiz Menotti assumiu.

Menotti foi treinador de Carrascosa no Huracán que foi campeão argentino em 1973. Tamanha era a confiança que o lateral virou titular fixo e, em 1977, capitão.

 

Figurinha de Carrascosa de 1977 reproduzida na capa do livro Dificiles Eran las de Antes (2014), da Olmo Ediciones

Figurinha de Carrascosa de 1977 reproduzida na capa do livro Dificiles Eran las de Antes</em (Difíciles Eran las de Antes - Figuritas Argentinas (1920-2013)/Reprodução)

 

Críticos diziam que ele só jogava por ser amigo do chefe. Carrascosa não engolia isso. Também era ressabiado com um caso de mala branca na Copa de 1974.

Para se classificar na primeira fase, os dirigentes argentinos deram um “incentivo” financeiro para a Polônia, já classificada, bater a Itália – foi justamente o que aconteceu. A Argentina parou na fase seguinte.

Homem de princípios, Carrascosa não se conformava com bastidores como subornos, mercenarismo e doping. No fim de 1977, adiantou para Menotti que pretendia não jogar a Copa e encerar logo sua carreira.

Em janeiro de 1978, na véspera da convocação final para a Copa, Menotti telefonou para Carrascosa para checar se ele aceitaria ser chamado. O lateral respondeu: “Não vou, César”.

No livro Como Ganamos La Copa del Mundo, Menotti disse: “Conhecendo sua honestidade e inteligência, eu não podia manobrar para impedir sua saída, não seria correto”.

O treinador prosseguiu: “Estou convencido de que se eu, de algum modo, insinuasse que ele deveria ficar, ele teria continuado conosco até o fim. Mas que direito eu tinha de fazer isso?”

Olhando para trás, Menotti concluiu: “Não tenho o mínimo arrependimento do que decidi. Porque, naquele momento, eu precisava de jogadores que estivessem com todas as pilhas carregadas, dispostos a esquecer de tudo”.

Já o atacante Luque, que jogou a Copa, lançou outra teoria: Carrascosa não gostou que Kempes, que jogava no futebol espanhol, foi garantido para a convocação da Copa.

Na visão de Luque, Carrascosa queria uma seleção apenas com jogadores dos clubes argentinos e largou a seleção ao se sentir ofendido.

Carrascosa foi ao estádio num único jogo da Argentina na Copa de 1978, a derrota de 1 a 0 para a Itália no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, pela primeira fase.

A braçadeira que ele abandonou ficou com o zagueiro Daniel Passarella, que entrou para a história como o primeiro argentino a levantar a Taça Fifa.

Sobre esse momento, Carrascosa jura até hoje que não se arrepende de nada.

Ele ainda jogou pelo Huracán até 1979 e pendurou as chuteiras aos 31 anos.

Johan Cruyff 1977 Cruyff numa de suas últimas partidas pela Holanda: vitória de 2 a 0 sobre a Inglaterra em 1977

Cruyff numa de suas últimas partidas pela Holanda: vitória de 2 a 0 sobre a Inglaterra em 1977 (Tony Duffy/Staff/Getty Images)

 

Cruyff

Johan Cruyff é um dos maiores gênios da história do futebol. Ele e seus colegas no Ajax de Amsterdã e na seleção holandesa revolucionaram o jogo no começo dos anos 1970 – e pode-se dizer que o futebol moderno que temos hoje começou com essa turma.

Na Copa de 1974, na Alemanha Ocidental, a circulação rápida e constante do time e as camisas alaranjadas renderam à equipe de Cruyff os apelidos de Carrossel Holandês e Laranja Mecânica. Avassaladora, a Holanda chegou à final contra a dona da casa.

Só que o carrossel travou na decisão e a Alemanha ganhou de virada por 2 a 1 em Munique. Capitão de seu país, Cruyff teve de amargar a visão do troféu sendo erguido por Franz Beckenbauer.

As perspectivas para 1978 eram boas, já que a base de jogadores foi mantida. A vaga para a Copa foi garantida com tranquilidade, com cinco vitórias e um empate nas Eliminatórias.

Na rodada final do grupo, em outubro de 1977, Cruyff foi o capitão na vitória de 1 a 0 sobre a vizinha Bélgica, em Amsterdã. Foi seu 48º jogo pela seleção da Holanda. E o último.

Poucas semanas depois dessa partida, Cruyff, que jogava no Barcelona desde 1973, teve seu apartamento invadido numa tentativa de sequestro.

Só que sua mulher Danny conseguiu sair correndo e alertar os vizinhos aos gritos. A polícia chegou a tempo de fazer prisões.

Abalado, Cruyff pensou muito e optou por recusar-se a ir disputar a Copa na Argentina. Não queria deixar sua família abandonada com ele tão longe por um mês.

Aos 30 anos, ele anunciou publicamente que estava se aposentando da seleção holandesa de maneira irrevogável. Não iria para a Copa. E só. Sem maiores detalhes.

 

Johan Cruyff, Wembley Stadium 1º/6/1971 Cruyff em Wembley, 1971: um dos melhores cérebros da história do futebol

Cruyff em Wembley, 1971: um dos melhores cérebros da história do futebol (R. Powell/Daily Express/Getty Images)

 

Especulou-se de tudo por muito tempo. Pela notória inteligência dele, dentro e fora de campo, havia quem pensasse que ele estava muito bem informado das atrocidades da ditadura argentina e negava-se a ir à Copa em protesto.

Outros se lembravam de como Cruyff lidava com dinheiro. Negociava seus contratos ferozmente e até cobrava para dar entrevistas. Por isso, dizia-se que era mercenário e queria dinheiro da federação holandesa.

O mistério só se desfez em 2008 numa entrevista de Cruyff a uma emissora de rádio da Catalunha. Ele finalmente assumiu publicamente que seu maior motivo foi aquele sequestro abortado.

Ele voltou a afirmar isso em sua autobiografia My Turn, publicada logo após sua morte em 2016, a um mês de completar 69 anos.

Cruyff escreveu sobre comentar num estúdio do canal britânico BBC, em Londres, a derrota de 3 a 1 para a Argentina na final.

“Você vê um jogo como aquele e passa pela sua cabeça que poderia ter encerrado a carreira com um título mundial. Eu teria feito assim, eu teria feito daquele jeito. (…) Tive uma noção do que poderia ter conquistado se jogasse, mas que teria de abandonar minha família para conseguir. E eu não podia fazer isso”, relembrou Cruyff.

Ele se perguntou: “Teríamos ganhado se eu estivesse em campo? Muito honestamente, eu penso que teríamos. Porque minhas qualidades ainda teriam agregado valor à equipe. Provamos isso em Wembley no ano anterior, quando vencemos a Inglaterra por 2 a 0. Até tive a sensação de que estávamos melhores que em 1974”.

E Cruyff concluiu o assunto assim: “Eu podia estar na equipe, mas escolhi sair. Só que, na BBC, me encontrei pensando: ‘Diabos, eu realmente gostaria de estar lá’”.

 

Holanda final 1978 Enquanto Cruyff se remoía, os jogadores holandeses desabavam após perder a final de 1978

Enquanto Cruyff se remoía, os jogadores holandeses desabavam após perder a final de 1978 (Allsport UK /Allsport/Getty Images)