F-1: o sonho brasileiro na categoria acabou?

A principal categoria do automobilismo mundial tem em seu grid um brasileiro desde 1970. Ano que vem ainda é uma incógnita

Ah, o mundo em 1969… Os Beatles ainda estavam juntos, o Brasil, em meio a uma ditadura militar, via Pelé fazer seu milésimo gol no Maracanã, a Guerra Fria dividia o mundo e propiciava até viagens à Lua! Enquanto isso, na F-1, Jackie Stewart era campeão em uma temporada sem brasileiros no grid.

Foto de Andrew Hone/Getty Images for Red Bull Racing Foto de Andrew Hone/Getty Images for Red Bull Racing

Foto de Andrew Hone/Getty Images for Red Bull Racing (Foto de Andrew Hone/Getty Images for Red Bull Racing/)

Mas eis que, no ano seguinte, mais precisamente no dia 18 de julho de 1970, o jovem Emerson Fitipaldi fazia sua estreia no Mundial de F-1 com a Lotus Ford no GP da Inglaterra, iniciando uma trajetória de glórias brasileiras que incluiu 8 títulos mundiais de F-1 e 101 vitórias – fazendo do País o terceiro maior vencedor da categoria, atrás apenas de Grã Bretanha e Alemanha.

Pois bem, desde aquela tarde de verão inglês há 46 anos, ao menos um piloto brasileiro alinhou no grid de largada da F-1. Muita coisa mudou no mundo nestas quase cinco décadas, menos a presença da bandeira verde-amarela no grid.

Em 2017, porém, esta escrita pode mudar.

Foto de Mark Thompson/Getty Images Foto de Mark Thompson/Getty Images

Foto de Mark Thompson/Getty Images (Foto de Mark Thompson/Getty Images/)

A última prova da temporada 2016 da F-1, disputada neste último domingo em Abu Dhabi, marcou a despedida de Felipe Massa da principal categoria do automobilismo mundial. Ele deve seguir competindo no esporte a motor – fala-se em Formula E, DTM e até corridas eventuais na Stock Car.

As esperanças, então, voltam-se apenas a Felipe Nasr. O brasileiro da Sauber fez um excelente ano de estreia, com o melhor primeiro GP da história do País, com um quinto lugar que superou até mesmo Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna. Mas neste ano sofreu com o mau desempenho de seu time.

A Sauber só não ficou no zero justamente porque Nasr conseguiu brilhar no GP Brasil ao conquistar um improvável nono lugar, que garantiu aos suíços os dois únicos pontos do ano e um cheque de quase 40 milhões de euros, já que, ao se garantir entre os dez melhores no Mundial de Construtores, recebe subsídios da FOM (Formula One Management) para custear as viagens da temporada 2017.

Foto de Mark Thompson/Getty Images Foto de Mark Thompson/Getty Images

Foto de Mark Thompson/Getty Images (Foto de Mark Thompson/Getty Images/)

A ironia é que, por mais que tenha conquistado no braço esta ajuda ao time, Nasr pode ser preterido por outros concorrentes com mais dinheiro em seu lugar. Há pretendentes como Pascal Werhlein, que neste ano correu na Manor (a equipe que acabou em último). Só estes dois times tem vagas para 2017, mas Nasr enfrenta concorrência pesada até mesmo no time que está na lanterna.

Em resumo: pode ser que sua melhor chance seja a de vaga como piloto de testes – em um time grande, como Williams, Renault ou até mesmo Ferrari. Foi assim que muitos pilotos conseguiram se recolocar na F-1, caso do próprio Massa, que, após sair da mesma Sauber, ficou como piloto de testes um ano da Ferrari, voltou para o time suíço e depois conseguiu sua transferência para a famosa escuderia de Maranello como titular.

Foto de Clive Mason/Getty Images Foto de Clive Mason/Getty Images

Foto de Clive Mason/Getty Images (Foto de Clive Mason/Getty Images/)

Após a corrida em Interlagos, Nasr conversou com a VIP e mostrou confiança em permanecer na categoria. “Confio nas pessoas que gerenciam minha carreira e estou certo de que na pista mostrei meu valor”, disse. O aporte de grandes patrocinadores segue sendo necessário – o Banco do Brasil apoia o piloto, mas anunciou que não investirá mais na Sauber, o que ajuda a complicar o cenário.

Há muitos anos Nasr é a única esperança da torcida brasileira, ansiosa por uma renovação de talentos na F-1. Depois dele, há um “buraco” na geração de pilotos – muitos tiveram que focar sua carreira no Brasil justamente por não conseguir mais patrocínio para seguir na Europa, caso inclusive do líder da Stock Car, o jovem Felipe Fraga, de apenas 21 anos (Nasr tem 24).

E o problema tende a se agravar nas próximas temporadas, já que a GP2, categoria de base da F-1, tem apenas um brasileiro confirmado para 2017 até aqui – o mineiro Sergio Sette Câmara, de 18 anos. Neste ano, o único título de categoria de base rumo à F-1 foi conquistado pelo gaúcho Matheus Leist (também com 18 anos), que deve correr na GP3 no ano seguinte.

Foto: Reprodução Foto: Reprodução

Foto: Reprodução (Foto: Reprodução/)

Nos dois casos, no melhor dos cenários, a estreia na F-1 só deveria vir em 2018 – ou, mais provável, 2019 em diante.

Os carros da F-1 só voltam a roncar os motores em fevereiro do ano que vem, para os primeiros testes de pré-temporada. Até lá, muita negociação vai rolar nas vagas abertas em Sauber e Manor – não por acaso, as duas piores do grid. Nasr continua com boas chances, mas talvez um ano como piloto de testes seja até melhor em termos de futuro.

Foto de Mark Thompson/Getty Images Foto de Mark Thompson/Getty Images

Foto de Mark Thompson/Getty Images (Photo by Mark Thompson/Getty Images/)

Só que, neste caso, o Brasil não estaria representado no grid do GP da Austrália de F-1 no dia 26 de março de 2017. Com isso, uma escrita de 46 anos será quebrada.

Mas, graças ao bom conceito de Nasr na categoria e os jovens talentos que podem subir na categoria em alguns anos, pelo menos o torcedor brasileiro não precisa pensar que o “o sonho acabou”, como cantou John Lennon em sua música “God” depois da separação dos Beatles, naquele mundo tão diferente de 1970.