Hoje, boleiro que é boleiro tem nome composto

Amadores com nome e sobrenome

Houve um tempo em que jogador de futebol era apenas, digamos, jogador de futebol. Chamados por apelidos, eram únicos e sinônimos de sua genialidade ou estilo. Alguma dúvida de que Zico, Ruço, Beijoca, Manga, Biro Biro ou Cafuringa eram nomes de jogador de futebol? Numa espécie de marketing do contexto, as coisas brotavam com naturalidade dentro da biodiversidade da bola. Mas os jogadores deixaram de ser só jogadores e foram levados à condição de produtos. Ou, mais pretensiosamente, de marcas.


Hoje, os jogadores querem virar chuteiras e luvas antes mesmo de fazerem história. Para isso, os pensadores do marketing futebolístico devem ter achado que os nomes precisavam mudar, não podia mais haver essa avacalhação de apelidos engraçados. Então, veio uma década de nomes (pseudo)gringos, com todas as grafias possíveis. Mas a onda dos nomes com K, W e Y que invadiu os gramados já se foi. Agora, boleiro que é boleiro tem nome composto: Vitor Hugo, Bruno Henrique, Giovanni Augusto ou Renato Bruno, para citar uns poucos. Confesso que me confundem, nunca sei se estão falando de algum cantor, corretor de imóveis ou médico.

Dar nomes a produtos, bichos de estimação ou pessoas é arte para iniciados. Nome bom tem que ter significado emocional, identificação imediata, poder visual e verbal. Mas, ao contrário do que muitos pensam, as fórmulas não são garantia contra atentados ao bom gosto. Não me conformo quando penso no gênio que inventou o nome “sapatênis”. O meio do caminho entre o estilo despojado e o formal resultou num nome horrível, capaz de machucar a reputação de qualquer macho alfa. Já tive crises intensas de terror noturno quando sonhava que estava pelado no escritório, só de sapatênis.

Ainda na linha de juntar dois nomes para criar um terceiro medonho: adoro ter montes de séries de TV via streaming. Mas me deixa em pânico a possibilidade de assistir a um “docudrama”. A irresponsabilidade de batizar um gênero com esse nome é capaz de jogar no pântano dos esquecidos anos e anos de boa produção cinematográfica. Exagero? Então, da próxima vez, pergunte: “Amor, você quer ver uma comédia ou um docudrama?” Lá se foram o amor e a magia.


Mas o resultado pode ser cômico. Na Salvador da década de 1960, antes de Itapuã, havia outra praia deserta sem nome. Foi batizada de “Placafor”. Isso porque o ponto de referência era um outdoor da Ford, que ficava bem em frente. Em uma cidade que tem no litoral a poesia de Piatã, Amaralina e Ondina, Placafor é uma espécie de sapatênis das praias.
Nossa criatividade para criar nomes novos é infinita. A produção nacional nos deu o removedor de tintas Pintoff, a fábrica de pães Peter Pão, o site de compras para adultos Peixereca e a churrascaria Boi Vivant. Criar nomes pode ser divertido, mas é uma roleta-russa em que a bala está guardada para você. Assim, quando precisar de um nome, não faça docudrama. Consulte logo um profissional.