“Neymar sabe que para ganhar campeonatos, precisa do time”, analisa Raí

Numa entrevista regada a cerveja, o ex-jogador falou sobre carreira, o irmão Sócrates, namoro e a fofoca a respeito de Zeca Camargo

Raí

 (Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

Ele estava com a vida ganha. Idealizador da Fundação Gol de Letra, que oferece acesso à educação para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, e sócio de uma empresa que cuida da imagem de atletas e famosos, Raí Souza Vieira de Oliveira preparava-se para fazer seu segundo mestrado na Europa, desta feita em políticas públicas, quando resolveu aceitar ser diretor executivo de futebol do São Paulo Futebol Clube, em dezembro passado.

Este é, talvez, o maior desafio de sua carreira. Ou de suas carreiras, já que acredita ter vivido duas vidas em uma só.

A primeira é aquela que todos conhecemos: Raí foi um jogador de futebol de sucesso, campeão do mundo duas vezes (uma pelo São Paulo, uma pelo Brasil) e capitão da seleção durante três anos e meio.

A segunda é mais discreta, como ele gosta de ser: começou depois de se aposentar, em 2000, quando voltou a estudar filosofia, antropologia e ciências humanas, abriu seus negócios, fez seu primeiro mestrado, em gestão esportiva, e viveu entre Europa e Brasil.

Aqui, ainda presidiu a Atletas pelo Brasil, associação que briga pela melhoria da gestão e da transparência no esporte — da qual saiu para assumir o novo cargo de direção.

Prestes a completar 53 anos, em maio, Raí viu sua vida virar do avesso. Este longo papo que bateu com a VIP, de quase três horas, foi regado a cervejas em uma tarde quente no escritório de sua empresa Raí+Velasco, na zona oeste de São Paulo.

 

Você já teve esse mesmo cargo que ocupa hoje no São Paulo em 2002 e saiu dizendo que o negócio era ainda muito amador. Por que você aceitou voltar?

O São Paulo mudou o estatuto no começo do ano passado. É o mais atual e moderno do futebol brasileiro, que já direciona para um profissionalismo, gestão de boas práticas, busca de transparência.

Inclusive prevê um estudo da separação do clube de futebol do clube social, que tem que ser votado até maio.

A segunda razão é que o estatuto criou o conselho de administração, com membros independentes politicamente. Terceira coisa, que foi uma coincidência enorme: acabei meu mestrado em gestão esportiva na Europa em maio [de 2017], apresentei meu projeto de mestrado e recebi o convite para o conselho.

Quando veio o convite, perguntei: “Por que não?”. Tive poucos dias para pensar, mas liguei para o Leonardo [ex-companheiro de time e sócio na Fundação Gol de Letra].

Ele fez a mesma pergunta: “Por que não?”.

“Raí, é uma puta experiência de vida. Pode dar certo, não dar, gostar, não gostar. Mas é uma oportunidade que não é sempre oferecida no seu clube.”

E eu fui me animando.

 

Você jogava basquete quando era moleque. Como descobriu que futebol era sua praia?

Meu irmão mais próximo, o Raimar, jogava basquete muito bem, e me influenciou.

Eu joguei dos 11 aos 13 anos, jogava direitinho. Também adorava jogar futebol, só que comecei a participar de campeonatos de basquete antes.

E fui vice-campeão paulista. O maior orgulho da minha vida.

Eu não era o melhor do time, mas era titular, era ala. Não me lembro agora por quê, mas voltei a jogar umas peladas de futebol no colégio, onde tinha amistoso aos sábados.

Sempre fui muito tímido. E minha facilidade com o futebol começou a me ajudar. Percebi que mais meninas iam assistir ao jogo [risos].

Pensei: “No basquete não aparece tanta menina assim…’’.

Raí

 (Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

Sabemos como é…

[Risos] Eu comecei a ficar assustado, porque estava jogando bem. E as pessoas começaram a elogiar.

Já viu como fica a autoestima, né? Eu era um tímido quase doentio.

Faziam brincadeiras comigo, pra me deixar ainda mais tímido, pra me ver com aquela cara, sabe?

Eu não queria chamar atenção da classe. Quando chegava minha vez de ler em voz alta, ficava tremendo, gaguejando…

 

Você sempre foi tímido e casado. Conseguiu aproveitar essa popularidade que o futebol deu depois?

Eu consegui aproveitar da maneira que um homem casado pode aproveitar. Saía com a esposa, com a filha, tendo os privilégios.

Mas, olha, acho que me ajudou bastante…

 

 

A não pirar? A não cair na gandaia?

É. Mesmo com o físico. Eu era caseiro.

Se não fosse casado, com certeza não teria sido tanto assim. Eu gostava de sair e até saía, mas tinha filhas pequenas.

Casar cedo teve seu custo também. Óbvio que, tanto para mim quanto para minha mulher na época, em algum momento tinha uma certa frustração, do tipo pulamos uma fase da vida.

Mas foi uma raridade casar com 17 e ficar por 16 anos juntos. A gente tem isso como uma vitória. Um casamento que deu certo. E deu para curtir a vida.

Depois também [risos].

 

Seu começo no São Paulo foi um pouco apagado. Com o Telê Santana você desabrochou. Qual foi a importância dele?

Eu acho que tem duas coisas diferentes aí. A primeira é que, invariavelmente, os primeiros seis meses da minha adaptação, também por causa da timidez, são difíceis.

Preciso conhecer as pessoas para me sentir à vontade. Quando o Telê chega, eu já sou capitão da equipe.

E ele chega com um grau de exigência que eu nunca tinha visto.

Capitão é uma posição estratégica. “Tá, ele é bom capitão, é titular e tal. Mas eu quero mais.”

Esse perfeccionismo, duro e ao mesmo tempo contagiante, me fez ficar muito mais exigente comigo mesmo.

Raí

 (Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

O futebol brasileiro ficou acostumado com a mediocridade?

Se tivéssemos uns três, quatro Telês, poderíamos estar muito melhores.

Mas o fato de existir uma má gestão, que enfraqueceu os clubes e que faz com que os melhores jogadores saiam cada vez mais cedo [do país], teve uma influência direta na qualidade do jogo.

Não se vende só os jogadores do profissional. Começou-se a vender garotos com 16, 17 anos.

A qualidade do jogo cai e você tem que mudar o estilo dele.

O jogo fica mais duro. Aí, quando chega ao profissional, está menos técnico, mais correria.

 

Só disparidade econômica explica esse processo?

Em comparação com a educação: você quer melhorar a educação, tem que melhorar a formação de professores.

No futebol isso também é necessário. Quem são os melhores jogadores do mundo? Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar.

Os três fazem gol de direita e de esquerda. Apesar de o Messi ser supercanhoto, cansou de fazer gol de cavadinha de pé direito.

Se eu fosse dar uma cavadinha com o pé esquerdo, caía — isso me impedia de ser craque.

Esses caras são velozes, são fortes, chutam com as duas pernas, têm habilidade, agilidade.

Pra você chegar ao estágio em que esses caras chegaram, tem que começar com 12 anos, treinando e sendo muito bem orientado, fisicamente, fisiologicamente.

O Brasil não cuidou dessa parte. Foi campeão [da Copa] em 2002 e pensou que sempre teria craques. Os craques, talvez, continuaram sem precisar do professor. Mas são exceções.

 

Você foi para o Paris Saint-Germain em 1993. O que morar na Europa proporcionou a você?

Nossa, foi uma revolução. Minha revolução francesa [risos].

Os valores liberdade, igualdade e fraternidade são um compromisso do cidadão lá.

Por exemplo: minha filha estudava em escola pública, junto com a filha da minha empregada, e tinha uma viagem de final de ano que ia custar, sei lá, 100.

Daí o pai que ganhava muito pagava 100 e o pai que não ganhava muito, 10. Na mesma escola, no mesmo bairro.

Lá há chances, oportunidades, igualdade. E é o país que representa a resistência ao capitalismo selvagem.

Virou piada a quantidade de greves que eles fazem.

Essa experiência me fez crescer muito.

 

Raí

 (Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

Que análise você faz do Neymar lá?

A chegada dele a Paris demonstrou, para o Barcelona e para o Paris Saint-Germain, que a repercussão foi maior do que eles imaginavam.

Para o Paris, qual é o perigo? O negócio de o Neymar ser muito maior do que se imaginava, não só pelo talento, mas pelo carisma.

Ele tem quase a mesma força que o clube. Então acho que a cabeça dele é o perigo.

Quando ele pensar “eu sei que eu tenho muita força”, tem que dar uma respirada.

“Mas eu só cheguei a esse estágio porque eu joguei bola. Então não posso parar de jogar bola.”

E se preparar para isso. E saber que para jogar bola, para ganhar campeonato, ele precisa do time.

Precisa construir um ambiente bom de trabalho. Até onde sei, e conheço de fora, ele é inteligente.

 

Em 1994 você começou como capitão na Copa e terminou no banco. Como foi isso para você?

[Ele se levanta, pega mais duas cervejas e volta] Fui capitão da seleção de 91 a 94.

As pessoas não sabem, mas foi a eliminatória mais chata, no sentido de logística. Porque normalmente se joga, volta para o clube, depois se faz outros jogos.

Mas a gente ficou trancado na concentração durante dois meses e meio, um Big Brother total, tinha 300 câmeras em volta do hotel.

A gente saía e elas vinham na nossa cara. Foi muito desgastante psicologicamente. E eu era unanimidade, né?

No segundo jogo, perdemos [0 a 2 para a Bolívia]. Foi a primeira derrota da história do Brasil nas eliminatórias. Aí fodeu. Além disso, a imprensa não gostava mais do Parreira.

Vocês, essa raça aí [risos]. E eu era o “capitão do Parreira”.

No primeiro jogo da Copa, contra a Rússia, fui o melhor. No segundo a gente ganhou de 3 a 0, mas fui mais ou menos. No terceiro, joguei mal, a equipe jogou mal, a gente empatou.

Quando empatou jogando meia-boca, sobrou para mim.

Saí do time e falei: “Nós vamos ser campeões e eu vou tentar manter o ambiente harmônico”.

Dei força para o Mazinho [seu substituto], e tenho certeza de que ter pensado mais nele do que em mim teve um peso na vitória também.

Considero que minha importância, com 15 dias na Copa, tenha sido a construção de um time de 91 até 94.

Se pegar o contexto todo, sei do meu valor.

 

Como é ser capitão da seleção num país como o Brasil?

As pessoas falam que, para impressionar, tenho que dizer que fui um dos melhores jogadores da história do São Paulo, o melhor jogador da história do PSG e três anos capitão da seleção brasileira. Número 10.

Mas é uma grande “responsa” ser capitão. Ao mesmo tempo, teve duas coisas engraçadas.

Antes da Copa, estava batendo papo com o Leonardo e falei que sonhei como seria se eu fizesse o gol da final.

Falei: “Leo, se eu fizer o gol na final da Copa, vou levantar a taça e estou condenado o resto da vida a ser uma pessoa conhecida no mundo inteiro. Não sei se quero isso na minha carreira. Vou tentar, mas não sei se quero”.

Isso pode ter agourado um pouco a minha Copa.

 

 

Qual era a segunda coisa engraçada?

Quando a gente via aquela raiva da crítica, houve uma conversa entre mim, o Gilmar, o Ricardo Gomes e alguns jogadores que gostavam mais de política.

A gente falou: “Cara, o país está uma merda. Se a gente ganhar essa porra, não vai mudar nada. Vai continuar morrendo gente, vai continuar morrendo mais preto do que branco, vai continuar essa injustiça social, vai continuar a corrupção”.

As pessoas querem que você ganhe a Copa, eu quero ganhar a Copa, mas, cara, por que não tem essa gana também por outras causas, né?

Mas teve também um outro episódio curioso. Nos primeiros dias em que eu fui capitão e camisa 10 da seleção, houve um torneio que a gente ganhou nos Estados Unidos.

Estou pegando a camisa para colocar e entra o Pelé no vestiário.

 

É muito simbólico.

Peguei a camisa e falei: “Toma, é sua”. Ele deu risada e disse: “Não. Tá muito bem representada”.

Vestir a camisa 10 da seleção era um sonho de criança.

Mas tinha essa contradição de representar uma coisa em cima da qual as pessoas têm uma expectativa que você nunca vai suprir.

Você nunca pensou em se engajar politicamente quando jogador, como seu irmão Sócrates?

Não, mas é uma questão de perfil mesmo. Eu dava minhas opiniões.

O Sócrates é dez anos a 1000 [km/h], e eu sou 100 anos a 20. Então tenho um tempo de maturação.

O fato de ser irmão dele contribuiu ainda mais para minha maturidade política, porque as pessoas esperavam uma opinião minha.

Quando cheguei ao São Paulo, com 22 anos, perguntavam: “E aí, você é esquerda ou direita?”, “você vai votar em quem?”.

E eu: “Opa, deixa eu começar a ler”. Comecei a ler economia e política.

Foi por obrigação mesmo. Sendo irmão do Sócrates, eu não podia passar por alienado, não tinha esse direito.

 

Raí

 (Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

Como foi para você acompanhar a doença do Sócrates, morto em 2011 em decorrência de uma cirrose?

Ele tinha uma coisa muito perigosa que toda pessoa que chega a um certo grau de alcoolismo tem: era muito resistente ao álcool.

Meu prazer de tomar uma cervejinha era parecido com o dele.

Só que o meu corpo responde: dá uma ressaca, fico três dias sem beber nada. Ele era muito magro, comia pouco. Não sentia.

Acordava e abria [uma lata]. E não tinha o lado ruim depois.

A gente começou a falar com ele, ele ouvia pouco. Minha mãe dizia que foi uma escolha.

O Joaquim Cruz [campeão olímpico dos 800 m rasos em 1984] conta uma história. Ele encontrou meu irmão já alegrão uma vez e disse assim: “Ô, doutor Sócrates, não faz isso. Você é um médico, como se fere assim? Para com isso”.

Aí ele virou, com toda a irreverência dele, e falou: ‘Joaquim, eu sei do que eu vou morrer. Você não sabe”.

Você vai falar o que depois disso? É uma escolha, não é? Mas foi… [faz uma pausa] triste.

 

O futebol é um ambiente machista, em que a homossexualidade ainda é muito velada, não?

Muito, muito.

Eu diria que tem muita gente que desistiu de ser jogador por isso. Imagina o cara com 14, 15 anos, que gosta de futebol e é homossexual.

Ele já é massacrado lá na base, então não vira. A não ser que o cara seja um supercraque.

Mas o futebol é muito conservador, muito machista.

Por que será? Eu acho que há quase um descolamento da sociedade.

E a sociedade já é cheia de desvios éticos.

 

Você e o Zeca Camargo processaram a jornalista que publicou que vocês teriam um caso e ganharam. Como foi essa história?

A origem foi um desses sites ter jogado isso no ar. “Um ex-jogador famoso, que namora, tem casa, largou a mulher para ficar com um apresentador.”

E aí, obviamente, várias pessoas foram chutando os nomes. E em algum momento apareceram esses dois personagens. E foi repercutindo.

Não me afetou em nada isso. Nada. Para mim foi um teste muito prático. Eu podia ter ficado com vergonha. Mas nada. Eu pensei: não vou falar nada.

Não vão ouvir da minha boca: “Eu não sou homossexual”. Eu sou hétero, mas não preciso falar que sou. Fiquei muito satisfeito com minha sensação interna.

 

Sua namorada, a publicitária Vivi Lescher, vive em Londres. Como é essa relação a distância?

Pode botar aí que é um recorde: dez anos de uma relação a distância. Um sucesso.

Está dando certo assim, vai mexer pra quê, né?

Ter assumido o cargo no São Paulo mudou tudo, porque eu ia com frequência para lá, ia fazer mestrado na Europa. Nos primeiros cinco, seis anos, a gente tinha um acordo: não era um compromisso.

Era aberto, ou mais ou menos aberto.

Eu falava: “Vivi, não vou falar para você que não vai acontecer nada aqui…”.

Naquela época eu não acreditava, e nem ela, muito nisso. Mas aí depois de um tempo a gente falou: “Pô, seis anos assim e estamos aí juntos ainda? Então agora vamos nos comprometer, pelo menos um pouco”.

 

Você está com uma calça com corte de alfaiataria. Gosta de moda?

Isso aqui é só porque eu tinha reunião de conselho. Eu, se puder, sou bermuda, camiseta e sandalhão.

Me amarro em bicicleta. Meu escritório era na Vila Madalena, perto de casa, em Perdizes [ambos na zona oeste de São Paulo]. Agora não estou indo ao escritório novo [nos Jardins] por preguiça.

Tenho orgulho de dizer que não tenho carro há dez anos.

Raí

 (Marcus Steinmeyer/Revista VIP)

Mas você frequenta semanas de moda.

Ah, minha relação com moda mudou depois que morei em Paris. Passei a vê-la como expressão artística.

Lá na França eu acompanhava bastante, quando tem desfile na TV eu assisto, mas é mais como admirador do que como objeto de desejo.

Tem uma ou outra marca de que eu gosto. Na Europa eu gosto muito de Paul Smith, por exemplo.

Bom, tenho três filhas e uma namorada, né? A Vivi diz que tenho mais paciência que ela.

Eu compro pouco, mas admiro bastante.

 

Como você se mantém assim aos 52 anos? Pinta o cabelo?

Não. Está branquinho aqui, olha [mostra a lateral]. Eu não tenho creme, não tenho nada, sou super-relaxado.

Eu não como muito, mas malho. Agora com essa loucura estou sentindo falta, porque quando passo três dias sem fazer exercício, fico menos criativo.

Sinto não só no físico, mas na cabeça também. Quando estou cansado, preciso ir à academia.

 

Qual sua relação com arte?

Não sou investidor de arte. Gosto de objetos de decoração, que têm histórias dos lugares por onde passei.

Gosto de coisas originais, algumas têm até um valor artístico.

Mas minha casa tem muitos objetos, nada que possa me classificar como um colecionador.

Minha filha brinca que parecia uma galeria. Gosto de coisas divertidas, alegres, coloridas.

 

Quem representou mais para o São Paulo, você ou Rogério Ceni?

Meu raciocínio é o seguinte: a gente teve importância muito parecida, só que ele jogou 20 anos, e eu joguei oito. Então ele ganha pelo tempo.

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