Quando Neymar foi tiete

Rivaldo e Evair eram os ídolos de infância do craque do Barcelona. Ainda bem: ele tem futuro

Quando Neymar foi tiete

O escritor Italo Calvino tinha uma boa definição para os clássicos. São livros dos quais nunca dizemos “estou lendo”. São obras que estamos sempre relendo, redescobrindo e aprendendo algo sobre os outros e sobre nós mesmos. Ídolos do futebol são como livros clássicos. As atuações de Zidane, Pirlo e Edmundo exerceram um impacto sobre mim semelhante aos livros de Graciliano Ramos, Jorge Luis Borges e Italo Svevo. Sempre que revejo um passe de Zidane, um lançamento de Pirlo e um drible de Edmundo, eu me torno uma pessoa melhor (acho). Pessoas sem ídolos boleiros não têm, necessariamente, uma vida pior. Só têm uma vida menos interessante.

Porque ídolos, assim como livros, nos mostram que o mundo é mais amplo do que o trânsito de todo o dia, o colega de trabalho que fala mais do que devia, a promoção que nunca chega. Eles mostram também que a vida tem várias camadas e que, muitas vezes, elas são contraditórias – e isso não é um problema. Embaixo de toda a elegância exibida por Zidane havia uma raiva que só explodiria na cabeçada da final da Copa de 2006. Talvez essa mistura de raiva e elegância tenha permitido, no fim das contas, que ele fosse um jogador gigantesco. Mas eu acredito que Zidane só pode ser quem foi porque tinha um ídolo: o craque uruguaio Francescoli, conhecido como “O Príncipe”. Tem sempre um Uruguai no caminho do Brasil…

Neymar parece seguir o mesmo caminho. Há uma foto dele, criança, com a camisa do Palmeiras. Adulto, ele negou que fosse torcedor do antigo Palestra Itália. Porém, poucos dias antes de se apresentar ao Barcelona, surgiu um vídeo dele, tão mirrado quanto poderia ser um garoto de 12 anos, em que declarava torcida ao time dos ídolos Rivaldo e Evair. O fato de ser palmeirense virou notícia imediatamente. Para mim, o que chamou a atenção não foi a mentira sobre o passado. A surpresa foram os ídolos do principal jogador da Seleção.

Ele poderia ter citado uma legião de atletas brilhantes que passaram pelo Palmeiras nos anos 1990 e que, teoricamente, teriam um futebol mais semelhante ao que ele joga hoje. Pensei em Djalminha, Edmundo, talvez até Edilson. Mas os ídolos de Neymar são dois jogadores que se destacaram pela enorme inteligência futebolística, pela frieza em campo e pela capacidade de ocupar todos os espaços do gramado. Evair e Rivaldo são daqueles jogadores que surpreendem fazendo o óbvio.

Não sei se Neymar ainda é fã da dupla. Prefiro acreditar que o ídolo do menino magrelo não some quando ele vira homem de topete descolorido. Porque essa declaração de idolatria diz mais sobre o candidato a craque do Barcelona do que qualquer outra entrevista que ele já deu. Elas mostram que, embora tenha uma facilidade fascinante para o drible, para a arrancada, para a jogada em velocidade, não é um atleta apenas físico, plástico. Ele valoriza quem pensa a partida. Ele admira quem pauta o jogo, em vez de ser comandado pela dinâmica imposta pelos companheiros de camisa e pelos adversários de torneio.

A escolha de Neymar me deixou mais tranquilo quanto ao futuro dele na Seleção, no Barcelona e no futebol. Embora em várias partidas ele tivesse mostrado que não era, com todo o respeito ao jogador, um Miradinha melhorado, eu ainda desconfiava da capacidade de Neymar em resistir à passagem dos anos e às mudanças físicas pelas quais vai passar. Mas ele mostrou que sabe selecionar bem seus ídolos – algo tão importante na formação de um homem quanto escolher a profissão, os livros favoritos, os filmes inesquecíveis e a mulher com a qual vai se casar. Ídolos moldam um caráter. Todo mundo precisa do ombro (amigo) de um gigante para ver mais longe. /

Três pontos
Messi

Maradona? Não. O melhor jogador do mundo era fã de Ronaldo Fenômeno. O argentino já revelou que R9 era o seu herói de infância porque era rápido, habilidoso e chutava de uma maneira extraordinária. Alguma semelhança?

Maradona
São infundados os rumores de que o maior ídolo de Maradona é… Maradona. Quando era jovem, ele se inspirava em Ricardo Bochini, reverenciado pela torcida do Independiente. Meia cerebral, é o único que arranca suspiros de El Pibe.

Pelé
Zizinho foi um gênio. Melhor jogador da Copa de 1950, foi comparado a pintores do Renascimento. Era tão grande que seu nome, ao ser anunciado no estádio, calava a torcida adversária. Pelé escolheu bem em quem se espelhar.