Técnico para quê?

Vai entrar em um torneiozinho? Cuidado com o “professor”

As peladas são um mundo perfeitamente organizado pela anarquia. Um equilíbrio político que Harvard ainda vai estudar. Não há governo. Há líderes reconhecidos por todos. E um código de ética não escrito que o grupo respeita. Tudo isso muda quando chega o Douglão no meio do expediente e, com brilho nos olhos, faz o convite: “Um amigo meu está organizando um torneio de soçaite. Arrumou quadra e patrocínio para os uniformes. Vai ter juiz e tudo. Vamos entrar?”

A competição é inimiga da estabilidade. É como ter a Ellen Rocche na baia vizinha. Atiça nossos instintos primitivos. Tira a razão, o equilíbrio. E, na próxima cerveja pós-jogo, o Douglão vem com a ideia: “Pessoal, campeonato é coisa séria. Precisamos de um técnico”. E você irá da anarquia à ditadura sem escalas.

A intenção em si é boa. Torneio instiga a adrenalina, a gente se sente jogando Copa do Mundo. Todo mundo quer ser titular, quem está no banco quer entrar, quem está mal em campo não quer sair… É preciso que alguém organize essa emoção para que ninguém se mate. Primeiro erro: achar que isso tem que ser feito por alguém de fora. Segundo: acreditar  que haverá alguém legal que tope ser técnico de um time de firma.

O caminho da escolha é desastroso. Você não vai chamar para técnico um cara que sabe jogar, porque ele imediatamente vai se ofender: “Técnico?!? Me inscreve aí no ataque”. E você, em vez de resolver um problema, cria outro, já que as vagas são limitadas. O técnico, desse modo, terá que ser um grosso assumido. Manco, com joelho podre, barrigão, pigarro, hérnia de disco e hipertricose auricular — para ele nunca ficar tentado a se escalar.

Mas alguém dirá que precisa ser um sujeito de personalidade forte, meio corpulento, capaz de gritar com o juiz e de tirar o contínuo do marketing da quadra porque ele está fominha. Para tanto, seu crachá na firma não pode ser raso. Um chefe de seção está de bom tamanho.

O diabo é que um cara desses vai querer se impor pelo conhecimento. Não chuta uma bola desde os 13 anos, mas como é torcedor fanático, acha que entende de futebol. E adota o “quem escala sou eu”.

E aí é um tal de botar o Rato “para fazer o vaivém”, plantar o Nardo de central, recuar o Gereba — tudo que nunca se fez na sagrada pelada semanal. O time piora, fica nervoso, leva um vareio, é eliminado e você ainda tem que impedir o “professor” de sair na mão com alguém da torcida adversária. No dia seguinte, vem o Douglão dizer: “Precisamos repensar o time para o ano que vem”. Sua obrigação é olhar na cara dele e, com todas as letras, dizer: “Só jogo se eu e você organizarmos. Sem técnico”.

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Maurício Barros é redator-chefe da revista RUNNER´S WORLD, da Editora Abril, e espera pela publicação das obras completas de Joel Santana.