“Tiraria a emoção do futebol”, diz Vágner Love sobre o uso da tecnologia na arbitragem

O atacante, que já passou pelo Flamengo, Palmeiras e por times do oriente, assumiu a posição de titular depois da lesão de Luciano. E quer manter o ritmo de gols que criou nas últimas partidas

Com passagens pelo Flamengo, Palmeiras e times na Rússia e na China, Vágner Love parece ter finalmente encontrado o caminho do gol no seu clube atual, o Corinthians. Do banco para a posição de titular por conta da lesão de Luciano, que ocupava o posto até então, o centroavante nascido em Bangu, no Rio, falou sobre a emoção ao quebrar o jejum de 53 dias sem gols contra o Cruzeiro, relembrou histórias do oriente e opinou sobre as polêmicas de arbitragem e a possibilidade de usar recursos tecnológicos para amenizar os erros. “Acho que o futebol precisa ficar do jeito que está. E lógico, os bandeiras e os juízes devem se preparar melhor para que os erros diminuam”.

Confira a seguir os melhores momentos da entrevista!

Na sua última ‘seca’, você passou 53 dias sem marcar gols, e desencantou no dia 23 de agosto, contra o Cruzeiro, marcando duas vezes. Você ficou muito emocionado nessa ocasião. Como foi isso?
Eu estava passando por um momento muito difícil dentro de campo, de as bolas não entrarem, e o que eu tenho de melhor é fazer gols, então, quando você não faz, as coisas acabam ficando mais difíceis, começa aquela desconfiança da torcida, a imprensa também dá uma detonada legal… Críticas eu acho muito normal, você precisa saber lidar com isso, mas às vezes existem umas críticas muito pesadas. Eu pensei: uma hora as coisas vão acontecer. Infelizmente por uma lesão do Luciano, que tinha entrado bem, fazendo gols, ajudando, eu estava muito feliz por ele, pela pessoa que é, garoto que é, eu entrei e falei: ‘É minha nova oportunidade, então tenho que agarrar como se fosse a última chance da vida’. Naquele jogo contra o Cruzeiro eu consegui fazer dois gols, a torcida aplaudiu e fiquei muito emocionado pelas coisas que tinha passado, que tinha escutado; guardei aquilo e estou procurando retribuir jogo a jogo, tentando melhorar para dar continuidade a esse trabalho.

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Você cresceu em Bangu (bairro na zona oeste do Rio de Janeiro), certo?
Isso. Aquele lugar frio (risos).

De repente, você foi morar na Rússia, na China. Além da barreira da língua, quais foram os costumes mais diferentes que você encontrou?
A língua foi um dos obstáculos, mas nem tanto. Quando cheguei na Rússia, tinha um tradutor que me ajudou muito, e logo em seguida conheci alguns brasileiros que jogavam futebol de salão, conheci o pessoal da embaixada brasileira, então achei que ia encontrar muito mais dificuldades, mas Graças a Deus deu tudo certo. A língua foi uma das coisas mais difíceis, mas nada que eu pensasse, ‘não consigo viver’. Podia ir num restaurante e me virar, e se não conseguisse, ligava pro tradutor e ele me ajudava. O mais difícil que eu achei foi o frio, o maior obstáculo que eu tive, até por estar vindo de Bangu, que não sei se é o lugar mais quente do Brasil, mas é do Rio de Janeiro com certeza! (risos) O frio na Rússia dificultou muito, mas com o tempo eu fui me acostumando. Na China, cara, eu achei que fosse encontrar algo muito diferente. A língua era muito difícil, eu nunca vou aprender o mandarim, mas o clima era tranquilo. A cidade que eu vivia não era tão boa, mas quando tinha folga eu ia para Xangai, Pequim, então não tive dificuldades por ter jogado lá.

Você se lembra de algo que te marcou nessas passagens?
O que me chamou a atenção foram os espetinhos que eles comem, cara. Os caras diziam: “Você tem que comer!”, e eu, “não vou comer escorpião, barata!”, nunca tive coragem de experimentar. Eles comem aquilo como se fosse nosso churrasco de palito, e acham maravilhoso! Uma vez cheguei na concentração e eles queriam almoçar. Quando cheguei, tinha tartaruga pro o almoço, não tinha condições. Eu disse que preferia jogar com fome do que comer aquilo.

E qual sua comida preferida?
Arroz e feijão! Eu gosto de lasanha, churrasco, mas se tiver arroz, feijão e ovo, pra mim já está maravilhoso. Se puder, como isso todo dia!

Você está jogando bola há quanto tempo?
Desde os meus 19 anos.

E está com 31 agora, certo?
Isso!

Com treinamentos físicos cada vez mais rigorosos e partidas puxadas, qual você acha que é a vida útil de um jogador hoje?
Acho que se o cara se cuidar ele pode jogar por mais tempo…só que o futebol está numa intensidade alta, então acho que o cara que se cuida um pouco mais hoje, que tem uma alimentação boa, consegue jogar com 37 ou 38 anos com um bom nível de competitividade, bom nível mental. O cara consegue jogar. O Corinthians está me fazendo muito bem. Estou com 31, mas me sinto com 20 anos ainda, e dá pra jogar um bom tempo graças a essa fase.

Você já fez planos para quando parar?
Estou me sentindo novinho ainda, não quero pensar nisso agora, não! Daqui a uns três ou quatro anos começo a pensar nisso (risos).

Ontem (sábado, 13 de setembro) o Corinthians jogou às onze da manhã. Pensando na sua rotina e em preferência pessoal, você teria um dia e horário perfeito para jogar?
Se todos os jogos fossem aos sábados seria bom, né? Um horário bom pra todo mundo: pra quem tá em casa, pra quem quer ir no estádio, ver na TV, e você tem o resto do sábado, o domingo pra ficar com a família, e segunda-feira volta para a rotina normal!

Como foi o seu dia quando o Brasil perdeu de 7×1 para a Alemanha?
Eu estava na China! Houve uma pausa no campeonato chinês justamente por causa da Copa e nós tivemos que voltar porque precisaríamos fazer uma pequena pré-temporada. Eu estava em Xangai, concentrado, e os jogos passavam no bar do hotel. Era madrugada, por causa da diferença de horário, e o jogo do Brasil, se não me engano, era às seis ou sete da manhã por lá. Estava com a minha esposa, que ficava no hotel ao lado, por liberação do próprio clube, e com o (Walter) Montillo, o Aloísio (companheiro de clube na época) assistindo, começou e a gente pô, legal, bora Brasil, na torcida, né? De repente, um a zero, dois, três… Àquela hora da manhã? É difícil explicar o que aconteceu naquele jogo. Nós, brasileiros que estamos fora, já passamos pela seleção, temos amigos lá, e ficamos tristes pelo que aconteceu.

Este ano, parece que a polêmica sobre os erros de arbitragem está ainda maior. Pensando como torcedor, você acredita que faria sentido adotar recursos tecnológicos para prevenir erros?
Eu acho que tiraria a emoção do futebol, né? Ficaria algo muito robótico. “Entrou ou não entrou? Para o jogo. Vamos ver na câmera”. Também acho que iria tirar a emoção dessa coisa de torcedor zoar um ao outro. “Ah, ganhou roubado”, “Ah, mas ganhou o jogo”, sabe? “Ah, mas o juiz não deu pênalti”. Enfim, são coisas do futebol que não poderiam ser feitas como se faz na NBA, no tênis. Acho que o futebol precisa ficar do jeito que está. E lógico, os bandeiras e os juízes se prepararem melhor para que os erros diminuam. Porque eles vão acontecer, e não é porque eles querem. Acontece. Todo mundo erra. Mas poderia diminuir um pouco mais.