A doce navalha na carne

O número de mulheres especialistas em fazer a barba não para de crescer no país. Elas conquistam cada vez mais clientes com a precisão do trabalho e a delicadeza das mãos

por Marco Bezzi e Cláudia Castro de Lima

“Todas essas barbearias que estão surgindo são iguais: tem lá um negócio ou outro que lembra uma barbearia tradicional e um cara de suspensório fazendo a barba das pessoas. Imaginei que uma mulher estilosa no lugar de um sujeito feio e tatuado seria mais agradável. Elas nos tratam melhor, têm a mão muito leve”

Quando o empresário e ex-piloto de Fórmula 1 Tarso Marques pensou em abrir uma barbearia em seu novo empreendimento, em São Paulo, não teve dúvidas: trabalharia só com profissionais mulheres. “Não gosto de nada convencional”, afirma ele.

A Jack Daniel’s Barber Shop TMC, inaugurada no fim do ano passado na Vila Olímpia, funciona junto a um bar, a uma butique, uma charutaria, um estúdio de tatuagem, uma bicicletaria e uma oficina de customização de motos. O complexo todo chama A Caverna, referência às paredes escuras e sem janelas do local. O cliente que chega ganha uma dose do uísque que dá nome à barbearia, que é parceiro na empreitada. E é atendido por Bruna Magagnin, 25 anos, uma espécie de barbeira-chefe, ou uma de suas duas colegas, Claudia Saleme, 30, e Raquel Camargo, 27.

Barbeira: o termo é esse. Bruna não é uma cabeleireira ou hair stylist – nome “gourmetizado” que alguns profissionais da área preferem. Ela é barbeira. “É como gosto de ser chamada”, diz. Bruna tem dois anos de experiência no ramo e passou o último ano e meio fazendo um curso completo de barbearia da Soho Academy. Conta que se envolveu com esse universo por pura afinidade. “Me identificava com o público masculino porque gostava de fazer cortes mais modernos e arrojados, e mulher geralmente não quer mudar tanto. Coisas diferentes fazem mais meu estilo”, conta a morena alta, que usa um vestido preto, batom vermelho e tem tatuagens cobrindo o braço direito inteirinho.

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A nova casa é administrada pela rede Rei da Barba, que tem matriz em Curitiba e uma megabarbearia recém-    aberta em São Paulo, na Alameda Lorena – provavelmente a maior do Brasil em número de cadeiras, com 16. Lá, entre os 12 profissionais, só uma é mulher – por enquanto. O gerente Giuliano Gizzi está encantado com a qualidade do trabalho delas. “Mulheres são mais detalhistas e delicadas. Os clientes estão adorando a novidade”, diz.

Bruna e suas colegas não são mais seres tão estranhos nesses ambientes masculinos. Embora a Jack Daniel’s seja provavelmente pioneira em ter apenas barbeiras, muitas casas vêm optando por mulheres em seu corpo de profissionais. Uma das primeiras a fazer isso foi a Barbearia Corleone, também na Vila Olímpia, em São Paulo. Lá, a paulistana Juliana Felix, aos 24 anos, é a única a possuir uma cadeira. Antes de a “moda da barba” chegar ao Brasil, Juliana pensou que poderia fazer diferente mirando as navalhas e tesouras em direção ao rosto masculino. “O diferente dá certo no Brasil”, diz. “Tive medo de sofrer preconceito por ser mulher, conversei muito com meus pais, mas amo essa arte e me joguei de cabeça.” Aos 19 anos, a barbeira foi parar na Praça da Sé, no centro de São Paulo, para observar a velha guarda no seu ofício. “Quando fui estudar não havia nenhum curso ou escola especializada em barba. Pagava para olhar e aprender nessas barbearias antigas.”

Pelo celular, curtia cada nova foto da barbearia holandesa Schorem, que foi inspiração para seu visual: camisa branca engomada, gravata borboleta, suspensório, calça de corte reto, sapato escovado à moda antiga, com cera preta, e um topete caprichado. Após se formar no Senac, foi questão de tempo para ganhar um espaço personalizado no também paulistano Circus Hair. O salto para a Corleone veio igualmente rápido. Hoje, Juliana trabalha apenas com profissionais masculinos ao seu lado.

  Ilustração: Rafael Kendi

Ilustração: Rafael Kendi (/)

O preconceito que ela temia no início respingou pouquíssimo em seu “avental”. Segundo a moça, foram poucas vezes que clientes declinaram de fazer a barba com ela. “Hoje, muitos acabam preferindo ser atendidos por uma mulher, talvez pela delicadeza.” Juliana estuda o mundo masculino, ri das piadas machistas e até mete o bedelho quando o assunto é futebol. “Eu percebo que, por exemplo, em vez de me falarem ‘que mulher gostosa’, falam ‘que mulherão’. Mas sempre os deixo mais à vontade possível, converso sobre qualquer assunto.” E é bom eles não falarem muita bobagem – afinal, ela tem uma navalha na mão. É com ela que a barbeira “doma” clientes como Gusttavo Lima e o lutador de MMA Rodrigo Minotauro. “Eles tomam cuidado”, brinca.

Amiga de profissão de Juliana, Patricia Miriellem, 28 anos, cresceu numa família de barbeiros – a mãe também fazia barbas. Mas renegava completamente a ideia de seguir a tradição. “Era uma vida sacrificante a deles, trabalhando em pé o dia todo, de segunda a sábado, às vezes aos domingos. Não queria isso para mim”, lembra. Mas, no fim da adolescência, tendo de trabalhar, foi parar em um salão da zona norte paulistana. Como ajudante, foi um dos principais faturamentos nos primeiros meses. Não parou mais. De lá, seguiu para o Studio W, do famoso Wanderley Nunes, reduto de endinheirados da capital. “Lá, recomecei, reaprendi e comecei a trabalhar com um público sofisticado.”

Há três anos percebeu que, se quisesse se destacar, teria que aprender a fazer bem uma barba, já que o número de mulheres na área era muito pequeno. Treinou em colegas de trabalho, amigos e parentes. Fez dois cursos: um na Argentina e outro em Londres, de onde voltou mais apaixonada pelo universo da barbearia. Foi chamada pelo amigo Dario Becca para integrar o salão que ele abriu na Praça Vilaboim, no Pacaembu, também local frequentado por gente bastante abonada, o E5tudio Becca. Lá, onde uma barba sai a partir de 55 reais, é a única mulher entre seis profissionais e dá expediente de segunda a sábado das 14h às 22h.

Na primeira terça-feira deste ano, cabelos cacheados soltos, com um vestido amarelo e equilibrando-se sobre saltos altos, Patricia conversava com seu cliente sobre as festas de fim de ano antes de começar o ritual. Didática, ela explica tudo o que vai fazer: passar a máquina para baixar a barba, limpar depois as bochechas para deixar o desenho o mais natural possível e subir um pouco a linha do pescoço. A cada passo que completa, pergunta se o rapaz gostou do resultado. Os clientes saem elogiando especialmente a tranquilidade e a leveza de suas mãos – aos que curtem, Patricia oferece até massagem nos ombros enquanto a toalha quente age no rosto. 

DICAS DE EXPERT

Bruna Magagnin, 25 anos, Jack Daniel’s Barber Shop

“Se você não tiver um produto específico para lavar a barba, tudo bem: pode fazer isso com o mesmo xampu que usa em seus cabelos. Não se esqueça de usar o condicionador também, para hidratar os pelos. E eu sempre recomendo o óleo, que deixa os fios macios e com um cheirinho ótimo.”

Patricia Mirielem, 28 anos, Estúdio Becca

“Higienize sua barba. O ideal é lavá-la até três vezes ao dia. Não é difícil nem trabalhoso: faça isso no banho pela manhã, depois do almoço na hora de escovar os dentes e à noite quando voltar para casa. A barba, especialmente as mais longas, pode guardar muitas bactérias, inclusive as do vaso sanitário, que são adquiridas quando o homem usa o banheiro.”

Juliana Felix, 24 anos, Barbearia Corleone

“Além de frequentar uma barbearia, o homem deve usar óleo, um xampu especial para a barba e um pente de madeira com cerdas maiores para não quebrar os pelos. Sempre use secador e pomada com efeito seco pra não deixar a pele oleosa. Sei que é mais difícil para o homem tomar esses cuidados, mas o mínimo que fizer vai causar uma bela diferença no visual.”