Cada um no seu tempo: colecionadores contam sobre seus relógios de pulso

Você sabe, qualquer celular hoje diz as horas. Mas leia o que os amantes do acessório tem a dizer e descubra por que um modelo legal pode fazer diferença no seu dia a dia

Por Ronaldo Albanese

Relógios de pulso são, por excelência e vocação, um brinquedo tipicamente masculino – especialmente os que funcionam a corda, sem bateria. Têm mecanismo complexo, com suas engrenagens misteriosas e precisão mágica. Têm design minimalista, quase sempre avesso a exageros. São praticamente o único acessório de estilo masculino – afinal, a carteira fica escondida e poucos caras hoje usam prendedor de gravata ou mesmo brincos e correntes.

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Então estamos falando aqui de um objeto cuja existência vai além de sua funcionalidade. De algo que vence a barreira do próprio tempo que mede. Que pode marcar para sempre, no tempo e no espaço, a vida de um garoto ou a de um homem maduro.

Pode apostar, um relógio de pulso mecânico vai demorar anos até ganhar a obsolescência de uma máquina de escrever. Um relógio bacana pode ser sua  âncora, seu amuleto, seu amigo, seu chão. Alguns não mostram mais do que hora e data, mas eles se “expressam” cada um a sua maneira: ponteiros afiados ou robustos, mostradores claros ou escuros, caixa cromada ou dourada, pulseira de todos os tipos… Numa era de massificação das experiências pelas quais passamos no dia a dia, ele confere exclusividade, estilo, personalidade, status, charme e caráter. Seja você um hipster ou um cara clássico. Um amante de velocidade ou um simples amante das mulheres.

Eis o X do brinquedo: um relógio de pulso complementa sua identidade. E isso, definitivamente, não é pouca coisa. Como mostram a seguir estes quatro colecionadores escolados…   

O guardião da memória

É antiga a paixão do engenheiro Marcelo Viviani Pinto (foto na página anterior) por relógios. Ele guarda doces lembranças da casa onde passou a infância, especialmente do tique-taque do velho cuco de parede que pertencia à avó e estava na família havia três gerações. Desde garoto, com cerca de 8 anos, ele era o responsável por dar corda e ajustar os horários da relíquia. Quando havia necessidade de manutenção, era Marcelo quem acompanhava a avó ao relojoeiro. “Daí para reunir os 30 relógios de pulso de hoje foi um processo natural.” Os mecanismos e as engenhocas de todo tipo de marcadores de hora sempre o atraíram, mas ele jamais planejou qualquer coleção.

Relógios-Retratos-2 Marcelo: paixão vem da infância, quando dava corda no cuco da avó (Foto: Ramon Vasconcelos)

Marcelo: paixão vem da infância, quando dava corda no cuco da avó (Foto: Ramon Vasconcelos) (/)

“Os relógios surgem na minha vida em ocasiões especiais, por exemplo, quando viajo”, conta. “Cada um me faz lembrar e reviver coisas boas em situações de harmonia em locais agradáveis. Além da função óbvia, é para isso que servem.” Marcelo só compra os que pode usar no cotidiano. Ele é contra tê-los como peças de museu. E também não acha que devam ser usados apenas em locais de total segurança, por mais caros que sejam. “Sem paranoias, gosto deles no pulsar do dia a dia.” Por isso, no início de cada semana elege um. “Assim, uso todos, sem exceção.” Claro, há os  de ocasiões mais formais e os específicos para praticar esporte.

A coleção hoje reúne, além dos de pulso, o velho cuco e um de sol, com bússola, de 1895, garimpado em Londres. O mais raro é um Victorinox, edição especial dos 125 anos da marca, e o mais caro, um Breitling. “Mas todos são igualmente valiosos porque fazem parte da minha história.” Marcelo não vê a hora de ir para o exterior. Ele não tem nada em vista, só a certeza de que algum relógio novo virá na bagagem.

Marcelo Viviani Pinto  – engenheiro
– Para iniciantes: Victorinox, Tissot, Bulova. Têm bom custo/benefício.
– Para quem pode gastar um pouco mais: Tag Heuer (esportivo), Movado (clássico) e Hamilton (ambos).
– Top de linhaRolex, IWC e Montblanc.
– Dica: se deixe levar pelo amor à primeira vista.

 O maestro dos sonhos

O publicitário Joel Vasconcelos Júnior tinha apenas 10 anos quando ganhou de aniversário um presente inesquecível: um Champion, com sete pulseiras, cada uma de uma cor. O menino já cheio de estilo não cabia em si de alegria. Só que durou pouco. Cerca de 15 dias depois foi assaltado na rua e levaram seu mimo. Desde aí muito tempo passou para que ele pudesse reunir alguns modelos em uma coleção. A “mania” de comprar surgiu em 2008 numa viagem para a Europa, nos três dias dedicados a Genebra, na Suíça. “O melhor lugar do mundo para quem já gosta do assunto se apaixonar completamente por relógios de pulso.” Quando ele via na rua alguém usando um modelo que chamasse a atenção, “fotografava” na cabeça e pesquisava na internet até encontrar e descobrir tudo sobre aquele modelo. E, claro, partir para o ataque.

Relógios-Retratos-3 Joel Vasconcelos: esquece o perfume, mas jamais o relógio (Foto: Ramon Vasconcelos)

Joel Vasconcelos: esquece o perfume, mas jamais o relógio (Foto: Ramon Vasconcelos) (/)

“Posso esquecer até de colocar perfume, mas não fico sem relógio por uma dia.” Joel tem uma pequena coleção com 16. “Alguns mais sérios e outros bem descolados, como os dois do artista Jean Charles de Castelbajac, um deles inspirados em peças de Lego. Hoje seus relógios o ajudam a compor seu estilo. “São como peças importantes de roupa. Além de tudo, eu sempre vejo as horas no relógio, apesar de os celulares também cumprirem essa função.” O publicitário adora viajar e a cada nova viagem  sempre procura um novo modelo, um novo estilo para uma nova fase de vida, o que não quer dizer que abandone os mais antigos. “Uso todos regularmente.” O mais valioso da coleção é um Montblanc automático. Mas Joel continua apaixonado pelo seu primeiro Tissot, comprado em Genebra. “Para mim ele é um símbolo
do momento em que eu tive condições de realizar um sonho.”

Joel Vasconcelos – publicitário

– Para iniciantes: ótimo para o dia a dia, o casual Swatch.
– Design contemporâneoBulova – há modelos clássicos e esportivos.
– Qualidade-custo/ benefícioTissot, suíço top.
– Excelência em design: Tag Heuer, esportivo e clássico.
– Top de linha: sonho de perfeição, Panerai.

Relógios-Still-3 Alguns relógios da coleção de Joel Vasconcelos (Foto: Ramon Vasconcelos)

Alguns relógios da coleção de Joel Vasconcelos (Foto: Ramon Vasconcelos) (/)

O mestre de cerimônias

O elegante e superclássico Rolex Air King usado diariamente pelo pai do economista Franco Faldini despertou no então pré-adolescente uma enorme atração pelos relógios de pulso. “Com 12 ou 13 anos eu não tinha a menor noção do que eram os modelos de qualidade, mas tenho certeza de que a minha paixão começou ali.” Seus relógios há muito deixaram de ser apenas para ver as horas. “Eles significam muito mais e, invariavelmente, estão associados a momentos marcantes de minha vida, sejam profissionais ou particulares.” Franco lembra com carinho do dia em que comprou dois Rolex – para ele e para a mulher, Ana. Para presenteá- la, escolheu um restaurante especial, mas para sua surpresa quem acabou ganhando um presente foi ele, ao saber que seria pai. “Sempre que uso o Rolex sinto aquela emoção novamente.”

Relógios-Retratos Franco Faldini: “Estão associados a momentos marcantes” (Foto: Ramon Vasconcelos)

Franco Faldini: “Estão associados a momentos marcantes” (Foto: Ramon Vasconcelos) (/)

O economista só lamenta não poder usar os modelos com a frequência que gostaria. “Hoje em cidades grandes como São Paulo não dá mais para andar com relógios de marca. O risco de assalto é grande.” Ele prefere guardá-los em cofre de banco. “Só saem em ocasiões muito especiais ou quando viajo ao exterior, onde tenho o prazer de usá-los sem estresse.” É nessas viagens que visita lojas para saber das novidades. Franco tem modelos clássicos e esportivos. Entre eles, um Panerai muito valioso e o Rolex GMT, o preferido. “Tenho carinho especial por um Omega simples dado por meu pai, meu grande incentivador.” Sonho? A nova versão do Rolex GMT e o IWC Top Gun.

Franco Faldini – economista

– Para iniciantesTag Heuer, da linha Fórmula 1, esportivo.
– O próximo: um IWC, clássicoou esportivo. Em seguida, um Rolex.
– Um passo acimaPanerai, em geral grande com design especial.
– O topo: quando há dinheiro,um belo Patek Philippe.

Relógios-Still Três relógios da coleção de Franco Faldini (Foto: Ramon Vasconcelos)

Três relógios da coleção de Franco Faldini (Foto: Ramon Vasconcelos) (/)

O dono do estilo

O empresário da noite Cláudio Nunes, de 30 anos, acredita no enorme poder dos relógios de pulso. O acessório, diz, ajuda a compor de maneira positiva a imagem das pessoas. “Ir para uma reunião de negócios com um relógio clássico e caro tem um efeito arrebatador.” Por isso, dependendo da agenda do dia e do estado de espírito, ele escolhe um dos 20 de sua coleção. E sempre surte efeito. Amante dos relógios desde criança, teve um Casio com calculadora na adolescência e desde lá se liga no assunto. “As roupas masculinas costumam ser básicas e os relógios – assim como mochilas e carteiras – permitem aos homens expressar estilo no visual.”

Relógios-Retratos-4 Cláudio Nunes: “me sinto nu se não uso um relógio” (Foto: Ramon Vasconcelos)

Cláudio Nunes: “me sinto nu se não uso um relógio” (Foto: Ramon Vasconcelos) (/)

Cláudio jamais sai de casa, seja para trabalhar, se divertir, viajar ou malhar, sem “vestir” o pulso. “Parece jargão, mas eu sou do tipo que se sente nu sem relógio.” O assunto ficou ainda mais sério em sua vida quando, aos 19 anos, ganhou do pai um Tag Heuer Carrera. “Apesar de todo o meu interesse, na época eu ainda não tinha grana para modelos mais incrementados.” Só de cinco anos para cá começou a ter condições de realizar seu sonho e, segundo conta, não poupou esforços para reunir os melhores.  O mais caro da coleção é um Audemars Piguet Royal Oak. O preferido, um Tag Heuer Link, com pulseira metálica e fundo azul. “Este tem uma história boa: o garoto-propaganda vitalício do modelo é o Ayrton Senna (meu grande ídolo) e dizem que era o preferido dele também, o que para mim já o torna especial.”  

Cláudio Nunes – empresário

– Para iniciantes: Tissot, um suíço por menos de mil euros. São versáteis, tanto esportivos ou clássicos.
– Marca preferida: Tag Heuer. design excepcional, para o dia a dia. Há os caríssimos também, mas o Fórmula 1 custa cerca de 1 500 euros.
– O que não pode faltar: Rolex. Não é barato, cerca de 2 500 euros. Esportivo? Hublot, uma supermáquina.
– Sonho de consumoPatek Philippe. Top de linha – é preciso maturidade, personalidade e bolso.

Relógios-Still-4 Alguns relógios da coleção de Cláudio Nunes (Foto: Ramon Vasconcelos)

Alguns relógios da coleção de Cláudio Nunes (Foto: Ramon Vasconcelos) (/)