O que faz um relógio mecânico custar mais caro que um carro?

Uma visita à manufatura da Panerai, uma da mais prestigiadas marcas de relógio do mundo, ajuda a responder a essa pergunta

 (Panerai/VIP)

Imagine juntar cerca de 300 peças minúsculas, que se encaixam umas às outras ou presas por meio de parafusos ainda menores. Cada uma delas tem uma função.

Existe a platina, uma espécie de chassi, que serve de base; a corda, uma mola em espiral que, uma vez enrolada, armazena energia; o clique, que mantém a corda enrolada; o tambor, que passa a energia da mola para o escapamento, que por sua vez controla a velocidade do desenrolamento da mola e faz o relógio funcionar.

Grosso modo, é assim que funciona um relógio mecânico.

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Esses pequenos pedaços de metal são ajustados uns aos outros, manualmente ou por robô, e fazem com que seu relógio funcione continuamente, sem precisar de outra fonte de energia a não ser o movimento do seu braço (no caso dos relógios mecânicos automáticos), ou do ato de dar corda (no caso dos relógios mecânicos manuais).

Trata-se de uma obra-prima de engenharia — no caso, uma miniobra-prima de pulso. Por essa complexidade, pela perfeição do encaixe das peças e qualidade do material, um relógio mecânico chega a custar o preço de um carro.

Pode ser o valor de um modelo popular usado ou de um Bentley, dependendo da qualidade do movimento ou das complicações, ou seja, das funções extras (como um cronógrafo, para medir intervalos de tempo, ou um turbilhão, dispositivo que corrige o efeito da gravidade no funcionamento do relógio).

Com uma vantagem: um bom relógio mecânico vai durar mais que o seu carro e virar objeto de herança na sua família.

 (Panerai/)

Uma visita à manufatura da Panerai, em Neuchâtel, na Suíça, ajuda a entender o valor de um relógio mecânico. A marca italiana é conhecida pela elegância e beleza, com numerais grandes, chamativos.

São releituras de modelos antigos, como a família Radiomir, o relógio usado pela Marinha italiana na Segunda Guerra. Quem tem um mínimo conhecimento de alta relojoaria identifica um Panerai de longe.

Mas o que pouca gente sabe é que a fábrica suíça também monta mecanismos in-house de alta qualidade desde 2005, que passam por testes abusivos de qualidade antes de chegar ao mercado.

Resistência a choques, quedas, magnetismo, à pressão d’ água (no mínimo 25% a mais do que a capacidade de submersão declarada oficialmente)… Os relógios testados em Neuchâtel enfrentam todas as agressões com a tenacidade de um Chuck Norris.

Os testes são feitos com máquinas, assim como parte da montagem dos mecanismos, como a chamada perlage, a decoração de parte do movimento. Grande quantidade do trabalho, no entanto, ainda é feita manualmente, com a ajuda daquelas emblemáticas lupas que se encaixam na cabeça.

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Engana-se, no entanto, quem tem a imagem daqueles velhinhos artesãos isolados nos Alpes. A maioria dos 250 funcionários da Officine Panerai são jovens tatuados ou com piercing. Já o isolamento… é a mais pura verdade.

No inverno, quando a temperatura chega a menos 20 graus, as atividades dessa cidade medieval do século 12 consistem no trabalho nas manufaturas de relógio, na produção local de charutos (sim, charutos) e em orgias gastronômicas indoor regadas aos ótimos vinhos da região do Jura, na França, e ao famoso fondue neuchâteloise.

Fotos estão vetadas na sede de Neuchâtel, mas tivemos acesso a todos os departamentos, como o laboratório de ideias, onde acontece o desenvolvimento de novos modelos.

 (Panerai/VIP)

Em pouco mais de uma década, a Panerai já criou 25 calibres diferentes, uma quantidade grande até para manufaturas com muito mais tradição.

No fim, o visitante sai de Neuchâtel com uma constatação: a Panerai não faz alarde, mas é muito mais do que um corpinho bonito.