[Ensaio VIP] Cleo, livre e solta em São Paulo

Autêntica e desbocada (e agora sem o sobrenome Pires), a atriz está solteira, em nova fase, morando em São Paulo. Só não tente controlá-la...

(Alex Batista/Revista VIP)

Durante entrevistas é comum que celebridades estejam cercadas de agentes e de assessores. Quanto mais intenso e explosivo é o artista, maior esse time porque, claro, em um mundo cada vez mais enquadrado e robotizado a ideia é manter aquela pessoa longe de polêmicas, e agentes e assessores têm o poder de ir controlando perguntas indesejáveis.

Como Cleo é ingovernável, seu time é bastante grande. Havia, na sala em que realizamos esta entrevista, meia dúzia de pessoas, além de nós duas, o que me fez achar que Cleo não jogaria à mesa toda a sua autenticidade. Não foi o que aconteceu.

Nos primeiros cinco minutos de conversa Cleo declarou que foi uma adolescente “ao mesmo tempo moleca e piranha”. Um segundo de sólido silêncio descansou sobre a sala, até que todos riram e ela, olhando para eles, disse: “Desculpa, gente”.

Cleo é intensa. Recentemente, postou um vídeo dançando com uma garrafinha de uísque na mão. Seguidores disseram que se tratava de lança-perfume e teve início um bate-boca nas redes sociais. Ela também resolveu abolir o sobrenome.

“Sempre amei meu nome, que minha mãe me deu, e significa glória em grego. E sempre gostei dele sozinho, é muito forte. Amo muito minha família, de onde venho, coloquei Pires no início da minha carreira em homenagem a minha mãe, ela é uma mulher muito forte. Hoje, com as parcerias que venho conquistando, tenho usado só Cleo, fica mais fácil, mais objetivo. De uma certa forma, estou voltando de onde comecei.”

Moletom Adidas para Cartel 011 | Body Triya | Colar masculino Tiffany & Co. (Alex Batista/Revista VIP)

Tem mais. Envolvida em uma polêmica depois de declarar ter feito um ménage, perdeu a paciência porque se tem uma coisa que a faz espumar de raiva é o falso moralismo.

“[No dia da declaração] não é que eu acordei, entrei em alguma das minhas mídias sociais e falei: ‘Bom dia, já fiz ménage’. Eu disse isso dentro de um contexto, num programa dentro do qual a informação cabia e fazendo uma brincadeira com um amigo”, diz enquanto tira o casaco alegando ter ficado com calor.

Mas o que a irritou no episódio do ménage é o machismo que ele carrega.

“Eu já vi vários homens dando a entender ou falando sim para esse tipo de coisa e não vi tanta repercussão. Então eu só consigo pensar que é porque eu sou mulher. E outra coisa: seria mais aceitável que eu tivesse feito com uma mulher e com um homem e não com dois homens?”, pergunta.

Nessa hora fica evidente que não há no mundo quem seja capaz de controlá-la.

Camisa e gravata Aramis | Relógio masculino Tiffany CT60 3 Ponteiros (40mm) | Cueca Triton (Alex Batista/Revista VIP)

Recentemente Cleo se mudou para São Paulo, onde mora com seu chihuahua. Os demais cachorros que ela tem estão no Rio com o ex-marido, João Vicente de Castro, de quem se separou há quatro anos.

Depois morou junto mais uma vez, com Rômulo Arantes Neto. Hoje se diz feliz sozinha, e, aos 34 anos, aprendeu a se defender de quem cruza fronteiras que não deveriam ser cruzadas. Até porque vive isso há alguns anos. O assédio do universo masculino começou a incomodar quando ela passou pela adolescência.

“De repente as pessoas vinham falar comigo de um jeito que eu não gostava, e aí eu era a escrota porque estava apenas me defendendo. Eu falava: ‘Ih, de onde eu vim não é assim, não, meu irmãozinho. Que isso? Tá chegando aí todo cheio de mão e eu tenho que o quê? Deixar? Calma lá’.” Como seguiu reagindo assim, passou a ter fama de chata e difícil.

Regata Triton | Top gaiola de couro e botas À La Garçonne | Hot pants Reinaldo Lourenço (Alex Batista/Revista VIP)

“Acho que porque muitas mulheres desbravaram esses caminhos de ‘as chatas’, ou ‘as difíceis’, ou as ‘politicamente corretas’, a gente hoje já pode falar sobre isso.

É uma situação assim: ‘Eu não estou lá atrás. Quem me botou lá atrás? Eu não estou achando interessante estar lá atrás, eu não estou achando bonito isso, entende? Por que você está querendo me colocar lá? A gente é tudo igual, vai com calma então’.”

Pergunto se tem alguma cantada que incomoda mais, e ela ri.

“Ah, sei lá, se você tá a fim do cara qualquer coisa que ele vá falar com humor e inteligência é legal, sabe? Agora, um cara que chega achando que é uma sorte sua ele estar chegando e que se você não se derreter ou for muito dócil e educada você está sendo dura ou feminista ou grosseira, ah, não. E como se fosse uma coisa ruim ser feminista, né? ‘Obrigada, tô [sendo feminista] mesmo. Beijinho’.”

Cleo diz que se apaixona com facilidade, ou “a cada esquina”, mas que “aquelas paixões que você não quer que a outra pessoa pegue um táxi às 3 da manhã e vá embora são raras”.

Embora deseje que isso volte a acontecer, entende que esse tipo de situação não é frequente na vida.

“É uma química que não é só cama ou cabeça, é estilo de vida, é no dia a dia, é conviver, é rock’n’roll. Tipo: ‘Eu vou te amar e vou amar os seus defeitos. E você os meus, porque eu tenho um monte deles e é bom você amar também, porque senão eu vou abandonar o barco’. Mas essas duas vezes [em que fui casada] eu não cheguei a esse lugar e, hoje, prefiro estar sozinha.”

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Quando pergunto onde nasceu, Cleo diz rindo que veio de Vênus, e ainda que não tenha vindo exatamente de Vênus ela veio do Recreio dos Bandeirantes, no Rio, numa época em que o bairro era quase uma cidade do interior.

“Do lado da nossa casa tinha a comunidade do Terreirão, os namoradinhos de infância eram todos do Terreirão. Minha infância era Terreirão e Pavuna, nossa vida era essa coisa de fazenda, mato, bicho… Foi uma infância muito livre.”

Até os 5 anos ela viveu com a mãe, Gloria Pires, e com a avó materna. Depois disso entrou em cena Orlando Morais, que ela chama de “meu pai”, embora seu pai biológico seja Fábio Jr.

“Eu acredito muito em energia, em reencarnação, e sempre achei que nosso encontro era de outras vidas, era para a gente ser pai e filha mesmo. Então eu tenho dois pais. Está para nascer uma pessoa com tanta sorte como eu.”

Em casa, Orlando e Gloria, talvez constatando uma certa ingovernabilidade em Cleo, passaram a encorajá-la a compartilhar com eles qualquer coisa.

Top e hot pants Reinaldo Lourenço (Alex Batista/Revista VIP)

“A gente sempre teve muita abertura para conversar. Essas coisas básicas de adolescência, de sair, de namorado, de perder a virgindade, enfim, tudo que um adolescente faz. Óbvio que eu era uma adolescente que fazia o que todos os outros adolescentes faziam: bebia, saía, virava a noite, mas meus amigos tinham uma coisa de ‘eu preciso sair, eu preciso beber porque em casa eu não posso’, tinha uma coisa de repressão, entendeu? E comigo não, nunca foi o pirar pelo pirar. Não era uma coisa de autoafirmação, era curtir o momento mesmo, experimentar a vida e o que ela estava me oferecendo. Muito disso vem de uma mentalidade repressora e moralista, dentro de casa, sabe? Eu não tive isso, graças a Deus.”

Com 14 anos a família se mudou para Los Angeles e a vida deu uma guinada para um lado que até ali ela não conhecia. “Eu estava numa fase muito introspectiva, meio deprê. Mas, incrivelmente, apesar do meu isolamento, eu era superpopular e tive dois namorados”, diz sem saber muito bem a razão da popularidade.

“Mas fiquei muito sozinha e aprendi a gostar de ficar assim, a amar ler. Foi uma fase riquíssima na minha vida embora eu me sentisse triste. E de repente eu virei boa aluna, uma coisa que eu nunca fui na minha vida. Virei a melhor aluna da escola.”

Durante a jornada escolar californiana ela ganhou os prêmios de “most unique” e “biggest flirt”, ou, em tradução livre, “pessoa mais rara” e “o maior flerte”; dois prêmios dos quais se orgulha muito.

Quando fez 17 anos a família voltou para o Rio e Cleo retomou a vida de aluna mediana.

Tuxedo Saint Laurent | Hot pants Cia. Marítima | Botas Mundial | Lib +Cleo (Alex Batista/Revista VIP)

“A escola não deveria tentar colocar você dentro de um padrão. A escola deveria ver o que você tem e trazer isso para fora da melhor forma e te ensinar a conviver com as pessoas. Isso de ser só ‘dois mais dois são quatro’ me deixava um pouco revoltada e rebelde.”

Agora, pela primeira vez está morando em São Paulo, a cidade que ama. “Esse é o lugar que quero estar, gosto da mentalidade do paulista, gosto do dia a dia, gosto da coisa da cidade.”

O que pouca gente sabe a respeito dela é que Cleo é muito mais do que divulgar um ménage aqui e ali, ou se indignar em redes sociais com o falso moralismo vigente.

Por exemplo, ela participa ativamente de um projeto social em Cabo Verde, na África, para implementar uma cartilha de educação das águas. Um amigo que trabalhava na Unesco falou do projeto e Cleo resolveu ir até lá ver de perto.

Tuxedo Saint Laurent | Hot pants Cia. Marítima | Botas Mundial | Lib +Cleo (Alex Batista/Revista VIP)

“E eu me apaixonei. É um lugar de vida cultural, dança, música, de escrever, ler, de tudo. Isso me deixou louca. E ver que as pessoas eram assim, mas que a seca é um problema e as crianças andam às vezes 10 quilômetros a pé para chegar à escola, onde ficam até 3 horas da tarde sem água. Tinha uma ‘conta fundação’, na qual separo 10% de tudo que eu ganho, e estava com uma grana nessa conta. Decidi que iria dar esse dinheiro para o projetos. E tem sido lindo ver a mudança, os bebedouros sendo instalados nas escolas, isso me dá uma satisfação que é celular, é no útero mesmo.”

Cleo está provavelmente em sua melhor fase, mais bonita e mais produtiva do que nunca. Intervenções cirúrgicas ela jura que não fez, só botox anos atrás, mas parou por causa do atual tratamento de pele com a esteticista Roseli Siqueira.

Ela acaba de se lançar em uma nova aventura: virar designer de roupas. “Estou desenvolvendo com a Triton uma coleção de outono/ inverno. Estou muito animada, todo dia acordo pensando em referências, tô morrendo de tesão por isso”, diz empolgada e colocando outra vez o casaco.

Percebendo que eu vou desligar o gravador ela acha que deve esclarecer um último ponto: “Eu não gosto da polêmica ou de comprar briga, mas eu vou me defender, sacou? Tipo, eu não vou deitar, tem limites”.

Antes de sair pergunto se os projetos sociais continuarão a motivá-la a olhar para um outro lado. “Cada vez mais porque quanto melhor estiver o meu entorno, melhor eu vou estar. A vida é essa troca, né?”

Fotos: Alex Batista
Styling: Jorge Grimberg
Produção: Mateus Andrade
Beleza: Robert Estevão com produtos Nars e L’Oreal Professionnel
Assistentes de fotografia: Vitor Jardim, Wallace Costa, Zeh Gonçalves
Assistente de beleza: Otávio Gabrile
Tratamento de imagem: RG Imagem
Agradecimentos: Hotal Tivoli Mofarrej São Paulo Restaurante Seen

Comentários

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  1. antonio carlos fraguas de carvalho

    Êta mulherzinha acabada. gente nos brasileiros somos muito feios.

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  2. Livre, solta e toda suja de tatuagens. Um mau exemplo social, principalmente para os mais jovens.

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  3. marco túlio amaral pereira

    Cleo Pires: seja mulher, feminina…não precisa ser DESBOCADA para se sentir livre. Realize seus sonhos sendo mulher.

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  4. José Antonio Debon

    Um avanço na mais antiga das profissões, agora da para vender somente a imagem.

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